Atenção também se aprende
Quando o adulto oferece tempo para a criança
Por Melaine Machado*
Outubro chega trazendo uma data que nos convida a olhar novamente para a infância: o Dia das Crianças. E talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer neste mês seja muito simples: quanto tempo estamos realmente oferecendo às nossas crianças? Não apenas o tempo em que estamos fisicamente perto delas, mas o tempo em que estamos verdadeiramente disponíveis.
Vivemos em uma sociedade atravessada por estímulos. Telas, notificações, informações, compromissos, pressa, múltiplas tarefas. O adulto está cada vez mais solicitado e, muitas vezes, a criança também. Queremos que ela preste atenção, que permaneça sentada, que termine uma atividade, que escute, que espere, que consiga se concentrar. Mas será que estamos criando experiências suficientes para que ela possa desenvolver essa capacidade?
A atenção não é simplesmente uma característica que a criança possui ou não possui. Ela é uma função complexa do cérebro, que se desenvolve progressivamente e depende da maturação neurológica, das experiências, do estado emocional, do ambiente e das relações que a criança estabelece. Por isso, quando falamos em atenção na infância, precisamos olhar para além da pergunta “ela consegue prestar atenção?”. Precisamos perguntar: o que está acontecendo com o corpo dessa criança? Como ela está se sentindo? O ambiente oferece condições para que ela se organize? Há um adulto que a ajuda a sustentar aquilo que ainda não consegue sustentar sozinha?
É aí que o brincar ganha uma importância enorme. Brincar com uma criança não significa simplesmente deixá-la entretida. Quando um adulto brinca junto, ele acompanha, observa, espera, nomeia, apresenta possibilidades, ajuda a resolver pequenos problemas, amplia o repertório e oferece segurança para que a criança explore. É uma experiência de aprendizagem compartilhada.
Uma criança pequena ainda está construindo recursos para controlar seus impulsos, mudar o foco da atenção, esperar, planejar, lidar com frustrações e permanecer em uma atividade. Essas capacidades fazem parte de um conjunto de habilidades que amadurecem ao longo do desenvolvimento e são influenciadas pelas relações e experiências vividas. Quando o adulto brinca junto, ele pode funcionar como um apoio externo para aquilo que a criança ainda está aprendendo a fazer internamente.
É o que podemos compreender como corregulação: antes de conseguir regular completamente a própria atenção, emoção e comportamento, a criança precisa muitas vezes da presença de um outro que a ajude a organizar essas experiências. É o adulto que diz “vamos tentar novamente”, que espera, que ajuda a criança a perceber o que está acontecendo, que coloca palavras naquilo que ela ainda não consegue expressar, que sustenta uma brincadeira quando ela começa a perder o interesse e que também sabe reconhecer quando é hora de mudar a proposta.
Isso é muito diferente de simplesmente exigir atenção. Porque atenção não se constrói apenas pelo comando: “Presta atenção!”. Ela também se constrói pela experiência de ter algo significativo para prestar atenção.
Na psicomotricidade, esse olhar é especialmente importante porque a criança não aprende apenas com a cabeça. Ela aprende com o corpo inteiro. Movimento, percepção, emoção, relação, espaço, tempo e ação estão profundamente envolvidos na maneira como a criança conhece a si mesma e ao mundo. Uma criança que corre, para, espera, observa, imita, constrói, desmonta, experimenta diferentes texturas, acompanha uma história, joga uma bola ou participa de uma brincadeira de faz de conta está vivendo experiências que envolvem diferentes sistemas de atenção e organização da ação. E quando fazemos isso junto com ela, oferecemos algo ainda mais importante: presença.
Talvez este seja um dos grandes desafios da infância contemporânea: não apenas ensinar nossas crianças a prestar atenção, mas ajudá-las a descobrir onde vale a pena colocar a atenção. A atenção é um recurso limitado. Ela precisa de pausas, alternância, movimento, significado e segurança. Uma criança não precisa passar horas sentada para desenvolver atenção. Muitas vezes, ela precisa justamente de experiências nas quais possa se movimentar, experimentar, imaginar e interagir.
Por isso, neste Dia das Crianças, talvez o presente mais importante não seja aquele que cabe em uma caixa. Pode ser uma hora sem celular, uma brincadeira no chão, uma história contada antes de dormir, uma caminhada em que o adulto realmente acompanha o olhar da criança, uma conversa sem pressa, um jogo em que os dois possam perder e ganhar, um momento em que a criança perceba: “o adulto está aqui comigo”.
Porque oferecer tempo é também oferecer possibilidades de desenvolvimento.
E talvez a infância esteja nos pedindo uma mudança de pergunta. Em vez de perguntar apenas “como fazer essa criança prestar mais atenção?”, talvez possamos começar perguntando: “como estamos ajudando essa criança a construir atenção?”. No Dia das Crianças, celebrar a infância também pode significar isso: devolver às crianças aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir — tempo, presença, brincadeira, relação e um adulto disponível para caminhar ao lado delas.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Melaine Machado
Colunista VSP

Profissional de Educação Física, psicomotricista clínica, especialista em desenvolvimento infantil. Criadora dos Projetos “Brincar Sensorial ” e “SOS mães atípicas” (a importância de cuidar de quem cuida). Desde 1996 tem proporcionado a inclusão social das crianças por meio do BRINCAR, que são atividades lúdicas que auxiliam no desenvolvimento. Nas redes sociais aborda os temas em @melaine_motricidade.
Foto: Hannah Barata/Pexels

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