Quando a existência torna-se alvo

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Quando a violência de gênero cruza o caminho da diversidade sexual

Por Nelly Winter*

O Brasil carrega a incômoda contradição de ser um país culturalmente diverso e, simultaneamente, um dos lugares mais perigosos do mundo para ser mulher. Quando a violência de gênero cruza o caminho da diversidade sexual, o resultado é uma camada profunda de violência institucionalizada e velada: a sobreposição entre o feminicídio e a lesbofobia. O extermínio de mulheres lésbicas. frequentemente nominado de lesbocídio por movimentos sociais e pesquisadores, expõe como o patriarcado e a homofobia agem juntos para punir a autonomia feminina e o descumprimento do papel social imposto às mulheres.

Os dados revelam a dimensão alarmante do problema. O LesboCenso Nacional mostrou que cerca de 79% das mulheres lésbicas no Brasil já sofreram algum tipo de violência ou discriminação ao longo da vida. Diferente do padrão do feminicídio heterossexual, em que a maioria esmagadora das mortes é praticada por parceiros ou ex-parceiros íntimos, no caso do lesbocídio, as agressões fatais vêm acompanhadas de requintes de crueldade específicos. Estupros corretivos, espancamentos públicos e crimes cometidos por parentes ou conhecidos manifestam uma tentativa violenta de “punir” a mulher por desviar da heteronormatividade.

O invisibilismo estatístico mata. Frequentemente, assassinatos de mulheres lésbicas são registrados como homicídios comuns, ignorando a motivação de gênero e orientação sexual. É indispensável exigir a obrigatoriedade da inclusão de campos sobre identidade de gênero e orientação sexual em todos os boletins de ocorrência e inquéritos policiais do país.

Delegacias, forças policiais e operadores do Direito precisam de formação em direitos humanos e interseccionalidade. O atendimento humanizado impede que a vítima seja culpabilizada ou reviolentada ao buscar proteção estatal.

A maioria das agressões ocorre dentro do ambiente doméstico ou comunitário. É urgente expandir as redes de casas-abrigo para mulheres em situação de vulnerabilidade, garantindo acolhimento psicológico, social e econômico que atenda especificamente às demandas de mulheres LBT (lésbicas, bissexuais e trans).

O combate ao ódio começa no letramento social. Escolas e meios de comunicação devem promover o respeito às identidades de gênero e orientações sexuais, desconstruindo estereótipos machistas e lgbtfóbicos desde os primeiros anos de formação.

O extermínio de mulheres lésbicas não é um problema isolado de uma minoria; é um sintoma da falência da nossa segurança e da nossa cidadania. Proteger a vida das mulheres, em toda a sua diversidade, é condição basilar para a construção de uma sociedade democrática.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Ilustração: pretonobranco.org

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