Moda e conservadorismo

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Como as roupas refletem as mudanças de valores da sociedade

Por Ana Beatriz Carvalho*

“Ah, tudo bem… você acha que isso não tem nada a ver com você?”

Essa é uma das falas mais icônicas do filme O Diabo Veste Prada. Na cena, Miranda Priestly desmonta a ideia de que moda é algo fútil ou superficial. O que parece ser apenas um simples suéter azul, é, na realidade, o resultado final de uma longa cadeia de decisões culturais, econômicas e políticas.

Afinal, moda nunca foi apenas sobre roupas.

Não percebemos, mas existe algo por trás do modo automático como escolhemos o que vestir: uma busca pela mensagem que queremos transmitir. Vestir-se não significa apenas colocar um tecido sobre o corpo. É também uma expressão de valores.

É importante partir desse princípio para entender a questão. As roupas não são somente uma forma de expressão individual ou um reflexo de como nos sentimos. Elas também revelam como enxergamos o mundo, ou melhor, como o mundo impõe seus valores sobre nós e como escolhemos ser percebidos dentro dele.

A moda é um instrumento político.

Para entender isso, podemos olhar para o chamado Índice da Bainha (Hemline Index), uma teoria criada em 1926 pelo economista George Taylor. A hipótese estabelecia uma relação entre o comprimento das saias e as condições econômicas de uma sociedade.

Durante períodos de crise e recessão, quando a sociedade tende a assumir uma postura mais cautelosa e conservadora, as bainhas tenderiam a ficar mais longas. As roupas mais compridas transmitiriam uma sensação de proteção e seriedade em momentos marcados pela incerteza.

Por outro lado, em períodos de crescimento econômico, as saias tenderiam a encurtar. Com uma maior sensação de progresso e otimismo, as pessoas passariam a experimentar mais e adotar roupas consideradas mais livres.

Um exemplo frequentemente associado à teoria são os Estados Unidos dos anos 1920. Com o crescimento econômico, mulheres passaram a usar vestidos mais curtos, enquanto a sociedade vivia um período de maior otimismo e despreocupação.

E então, veio 1929… Os Estados Unidos foram atingidos pela Grande Depressão, e o clima de otimismo deu lugar à insegurança. A partir daí, as roupas também começaram a refletir uma sociedade marcada pelo pessimismo e pela crise.

Hoje, com a globalização e a ascensão do fast fashion, é muito mais difícil determinar se essa teoria continua válida. Afinal, tendências atravessam fronteiras em questão de segundos e uma mesma estética pode ser reproduzida simultaneamente em diferentes partes do mundo.

Ainda assim, existe algo que podemos tirar dessa hipótese: tendemos a nos aproximar de determinados estilos para expressar não apenas nosso humor, mas também aquilo que percebemos ao nosso redor.

E o universo digital é um espelho bastante claro disso.

Desde 2020, algumas tendências chamaram atenção: Clean Girl Aesthetic, Trad Wife, Old Money, Quiet Luxury. À primeira vista, podem parecer apenas estilos visuais inocentes. Mas, por trás delas, também existe uma transformação na maneira como determinados grupos passaram a imaginar o que seria uma vida ideal.

Em comum, muitas dessas tendências apresentam a valorização de estilos de vida mais tradicionais, a retomada da ideia de que o lugar da mulher estaria principalmente dentro de casa, a associação entre status e uma forma específica (e frequentemente cara) de consumir e, acima de tudo, uma valorização da conformidade.

Isso não significa que toda pessoa que adota uma dessas estéticas seja conservadora ou compartilhe necessariamente das mesmas posições políticas. Uma estética não determina automaticamente a ideologia de quem a utiliza.

O ponto é outro: tendências não surgem em um vácuo.

Elas também são produtos do momento histórico em que aparecem.

O cenário político mundial passou por transformações significativas nos últimos anos, com o fortalecimento de movimentos de direita e a retomada de discursos conservadores em diferentes países.

Ao mesmo tempo, crises econômicas, uma pandemia global e guerras reacenderam uma sensação coletiva de instabilidade.

Em momentos de incerteza, as pessoas procuram segurança.

E existe algo mais associado à segurança do que a tradição?

O desejo de retornar a valores considerados tradicionais pode aparecer de diversas formas. Em alguns contextos, ele vem acompanhado da defesa de padrões de beleza mais rígidos, da exclusão da diversidade corporal no mercado da moda, da hostilidade contra imigrantes, do preconceito contra a comunidade LGBTQIA+ e da resistência à igualdade de gênero.

Nesse cenário, a roupa também pode se tornar uma maneira de procurar estabilidade.

As nossas roupas contam histórias sobre aquilo que desejamos, tememos e valorizamos.

Um exemplo interessante aparece no trabalho da psicóloga da moda Dawnn Karen.

Na década de 1940, mulheres já enfrentavam uma série de restrições sobre seus corpos e sua participação na sociedade. Em 1947, Christian Dior apresentou, em Paris, seu chamado New Look, marcado por saias amplas e volumosas.

Enquanto algumas mulheres não pensaram duas vezes antes de aderir à novidade, outras escolheram protestar contra aquilo que enxergavam como mais uma tentativa de controlar seus corpos.

Nos Estados Unidos, surgiu o movimento “The Little Below the Knee Club”, formado por mulheres que defendiam o direito de escolher o comprimento das próprias roupas.

A questão ia muito além de uma saia.

Mulheres já tinham pouco controle sobre suas próprias vidas, dentro e fora de casa. Em um contexto em que seus corpos eram constantemente policiados, a roupa se tornava uma das poucas áreas sobre as quais ainda podiam reivindicar autonomia.

Como explica Karen, por trás daquela rebeldia havia uma necessidade de controle. E por trás da necessidade de controle, uma busca por segurança.

É justamente aí que a moda deixa de parecer tão inofensiva.

Ela comunica informações sobre o papel que ocupamos na sociedade, nosso status, nossa cultura e até nossas relações com determinados grupos. Pode ser uma maneira sutil de demonstrar concordância com as normas sociais ou, pelo contrário, de manifestar discordância simplesmente ao recusar vestir aquilo que esperam de nós.

A moda é expressão cultural.

E também pode ser uma poderosa forma de expressão política.

Ela representa o Zeitgeist: o espírito de uma determinada época transformado em imagem.

A historiadora da moda Valerie Steele defende que a moda funciona como um verdadeiro barômetro das mudanças sociais. Observar o que as pessoas vestem pode ajudar a compreender transformações culturais, relações de gênero e dinâmicas econômicas.

Talvez, então, uma das maneiras mais simples de compreender uma sociedade seja olhar para aquilo que ela coloca sobre o próprio corpo.

Porque moda nunca foi apenas estética.

Ela é um reflexo das nossas ansiedades coletivas, dos nossos desejos, das nossas inseguranças e das estruturas de poder que nos cercam. Se quisermos entender para onde a sociedade está caminhando, talvez um dos lugares mais simples para começar seja justamente o nosso próprio guarda-roupa.

*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Carvalho foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Foto: Cottonbro/Pexels

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