Otimismo frente aos desafios

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Ser otimista em um mundo cada vez mais pessimista é ingenuidade ou estratégia de mudança?

Por Ana Beatriz Carvalho*

Ser otimista, comumente, é confundido com ser ingênuo. Frente às adversidades, aquele que não assume uma postura cabisbaixa e reclamona é visto por muitos como alguém que não entende os reais níveis da complicação.

Entretanto, enxergo no cenário político do Brasil a maior prova de que manter a cabeça erguida pode fazer toda a diferença. No dia 04/10, tivemos o primeiro turno das eleições presidenciais. O partido liberal, casa de Flávio Bolsonaro, saiu na liderança, superando o partido dos trabalhadores de Lula por mais de dois milhões de votos. Muitos cantaram vitória. Desde 1989, o candidato que saiu à frente no primeiro turno, levou o segundo.

Mas foi aí que algo inédito aconteceu: o povo foi às ruas. Até aí, nada de muito novo, mas a quantidade de pessoas que se dispuseram a batalhar foi algo surreal.

A campanha adotada por aliados do candidato foi não abaixar a cabeça. E a única maneira de motivar eleitores, que já viam a derrota como certa, foi injetar a esperança de que a mudança poderia vir deles.

Analisando a situação quase como um experimento científico, é bonito de ver a força que um povo esperançoso tem. Vestidos de vermelho, munidos de cartazes e exemplares da constituição brasileira, estudantes, crianças, idosos e gente de todo tipo tomaram avenidas, calçadas, instituições e, sem nem esperar, o mundo todo.

Essa força não foi a toa, pois no segundo turno, realizado no domingo, 25/10, o presidente Lula foi reeleito. O mérito dessa vitória tem de ser destinado ao povo brasileiro que dominou as ruas, espalhando seu desejo de resistir e existir.

E a lição que fica é de que o otimismo pode sim transformar realidades. A explicação é simples: o pessimismo nos deixa sem perspectiva de mudança. Nos contentamos com a realidade que se apresenta a nós e nos falta forças para mudar. Já o otimismo invoca a esperança e, com ela, vem uma resiliência quase inabalável de que a luta vale a pena. Não pela garantia do sucesso, mas pela consciência da tentativa.

Ser otimista é frequentemente associado a um comportamento infantil, de quem não conhece as maldades do mundo, como se não enxergasse a vida por lentes reais. Mas penso que, embora o mundo tenha muita crueldade escancarada, temos de encontrar formas de diminuir ao máximo essas mazelas que nos assolam.

E, só transformamos algo com que nos importamos. Assumir uma postura de quem já não tem mais fé na vida não casa com a ideia de reunir energia para tentar, falhar e tentar de novo, de novo e de novo. O pessimismo vem comumente associado a uma sensação de proteção psicológica para evitar futuras decepções, um foco em tudo o que falta, o que já deu errado e uma projeção do que pode descarrilar também. Não emana de si nenhuma forma de entusiasmo. Na realidade, incita o oposto: uma falta de animação. E sem se empolgar com a causa, o interesse diminui e, consequentemente, lutar e conquistar se torna infinitamente mais trabalhoso.

Por isso, uma frase do filme “Ainda Estou Aqui” de 2024 resume maravilhosamente bem o sentimento que tomou o Brasil nas últimas semanas e que deve servir de lição para tudo o que nos propusermos a participar daqui para frente: “Nós vamos sorrir. Sorriam.

Sorria frente às adversidades. Pense no melhor que pode acontecer. Batalhe com a garra de quem enxerga a relevância do que pede. Tenha esperança, alimente sua esperança, propague toda a esperança que conseguir encontrar. Não desista de sonhar, de querer. A esperança salvou o Brasil de um possível regime extremamente opressor. A esperança moveu pessoas que nunca nem se envolveram com política a sair pelas ruas com palavras de força e amor. A esperança é a faísca que transforma o mundo. Saiba que pode acontecer, o que quer que seja. E se não der certo da primeira vez, tentaremos de novo, e de novo, e de novo. Sempre sorrindo.

*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Carvalho foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Foto: Mesmo com os indicadores apontando para as adversidades, o povo decidiu ir às ruas. Por: Cleber Siqueira/VSP

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