Envelhecer com orgulho

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Quando a LGBTfobia encontra o etarismo

Por Nelly Winter*

Quem cuidará daqueles que passaram a vida inteira lutando pelo direito de simplesmente existir quando eles envelhecerem?

Durante décadas, falar sobre a população LGBTQIAPN+ significou, quase inevitavelmente, falar sobre juventude. As imagens que ocupam campanhas publicitárias, redes sociais, festas, Paradas do Orgulho e até parte das políticas de diversidade frequentemente apresentam corpos jovens. Mas existe uma geração que envelheceu e outra que está envelhecendo, carregando consigo histórias de resistência que ajudaram a construir muitas das liberdades que hoje parecem naturais.

São homens gays, mulheres lésbicas e bissexuais, pessoas trans e outras identidades que atravessaram períodos em que viver abertamente sua sexualidade ou identidade de gênero poderia significar rejeição familiar, demissão, perseguição, violência e completo isolamento social.

Essas pessoas sobreviveram. Agora, precisamos discutir como elas estão envelhecendo.

O problema começa quando duas formas de preconceito se encontram: LGBTfobia e etarismo.

O etarismo: discriminação baseada na idade, costuma reduzir pessoas idosas à ideia de incapacidade, dependência ou improdutividade. Quando essa visão encontra preconceitos relacionados à orientação sexual ou identidade de gênero, surge uma camada adicional de invisibilidade.

Uma pessoa LGBTQIAPN+ não deixa de ser quem é porque envelheceu.

Parece uma afirmação óbvia. Na prática, entretanto, nossa sociedade ainda demonstra dificuldade para compreender que pessoas idosas possuem afetos, desejos, identidade, sexualidade, projetos, sonhos e necessidade de pertencimento.

Para idosos LGBTQIAPN+, essa incompreensão pode assumir contornos ainda mais delicados.

Há pessoas que passaram grande parte da vida construindo espaços nos quais finalmente puderam existir livremente e que, diante da necessidade de cuidados na velhice, podem voltar a ambientes onde sua identidade não é plenamente reconhecida. Imagine passar décadas lutando para não precisar esconder quem você é e, justamente quando se torna mais dependente de outras pessoas, sentir novamente que precisa silenciar parte da própria história para ser respeitado.

Essa possibilidade deveria nos incomodar enquanto sociedade.

Existe ainda uma dívida simbólica com aqueles que vieram antes.

Muitos idosos LGBTQIAPN+ de hoje viveram sua juventude em períodos nos quais havia pouquíssima representatividade positiva. Alguns atravessaram a epidemia de HIV/AIDS e viram amigos e companheiros morrerem enquanto parte da sociedade respondia à tragédia com preconceito, desinformação e estigma.

Outros participaram, de maneiras públicas ou silenciosas, da construção dos movimentos que reivindicaram direitos, respeito e cidadania.

Nem todos estiveram em manifestações. Resistir também aconteceu dentro das casas, dos ambientes de trabalho, das universidades, dos bares, da cultura e das relações cotidianas. Para algumas pessoas, simplesmente continuar existindo já representava uma forma de enfrentamento.

É importante lembrar disso porque direitos não surgem espontaneamente. São resultado de pessoas que questionaram estruturas, enfrentaram preconceitos e recusaram a invisibilidade.

A geração LGBTQIAPN+ que hoje envelhece ajudou a abrir caminhos para que as gerações seguintes pudessem caminhar com um pouco mais de liberdade.

Entretanto, seria confortável demais responsabilizar apenas quem está fora da comunidade LGBTQIAPN+.

Também precisamos olhar para dentro.

A valorização excessiva da juventude e de determinados padrões estéticos pode transformar o envelhecimento em motivo de exclusão. Aplicativos, redes sociais e espaços de convivência frequentemente reproduzem preconceitos relacionados à idade.

Nesse contexto, existe uma contradição que precisa ser enfrentada: uma comunidade que historicamente reivindica respeito à diversidade não pode reproduzir mecanismos que tornam seus próprios idosos invisíveis.

Diversidade também significa diversidade geracional.

Precisamos criar espaços onde uma pessoa LGBTQIAPN+ de 20 anos consiga conversar com outra de 60, 70 ou 80 e reconhecer nela não apenas alguém mais velho, mas uma memória viva de transformações sociais.

Há histórias que não estão nos livros. Estão nas pessoas.

O envelhecimento LGBTQIAPN+ também exige que governos, instituições e profissionais estejam preparados.

Casas de acolhimento, instituições de longa permanência, hospitais, serviços de assistência social e profissionais responsáveis pelo cuidado precisam compreender as diferentes configurações familiares e afetivas existentes.

Nem toda família é formada exclusivamente por vínculos sanguíneos.

Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, amigos, antigos parceiros e redes construídas durante décadas podem representar vínculos tão importantes quanto aqueles tradicionalmente reconhecidos como familiares.

Respeitar essas relações também significa reconhecer dignidade.

Além disso, profissionais que trabalham diretamente com idosos precisam estar preparados para acolher diferentes orientações sexuais e identidades de gênero sem julgamentos, constrangimentos ou tentativas de apagamento.

Uma pessoa trans idosa merece ter seu nome e sua identidade respeitados. Um casal de idosos gays merece demonstrar afeto sem precisar apresentar sua relação como simples amizade. Duas mulheres que construíram uma vida juntas merecem ser reconhecidas como família. Nada disso deveria ser extraordinário. Estamos falando apenas de respeito.

Talvez uma das maiores conquistas da população LGBTQIAPN+ nas últimas décadas seja justamente algo aparentemente simples: poder envelhecer.

Durante muito tempo, principalmente nos períodos mais devastadores da epidemia de HIV/AIDS, chegar à velhice não foi uma realidade possível para inúmeras pessoas da comunidade.

Hoje, falar sobre envelhecimento LGBTQIAPN+ também significa reconhecer uma vitória coletiva.

Mas viver mais não basta.

É necessário envelhecer com segurança, autonomia, afeto, representação e dignidade. Precisamos discutir políticas públicas, preparar instituições, formar profissionais e combater o etarismo dentro e fora da própria comunidade.

Também precisamos ouvir nossos idosos. Perguntar sobre suas histórias. Registrar suas memórias. Reconhecer suas contribuições.

Porque existe algo profundamente injusto em celebrar conquistas sociais e esquecer justamente aqueles que ajudaram a construí-las.

Um dia, se tivermos o privilégio da longevidade, também seremos idosos.

Nossos corpos mudarão. Nossas necessidades mudarão. O mundo ao nosso redor continuará se transformando.

Mas nossa identidade continuará sendo parte da nossa história.

Por isso, combater o etarismo também precisa fazer parte da luta LGBTQIAPN+. Afinal, o orgulho não tem idade, e dignidade também não deveria ter prazo de validade.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Magnific

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