Perda de identidade na era digital
Deletei minhas redes sociais. O motivo? Entrei em crise
Por Ana Beatriz Carvalho*
Me peguei pensando, e percebi que não conseguia pensar. Pelo menos, não direito. Nenhum pensamento completo, coeso e complexo se formava na minha mente. Um milhão de diferentes ideias perambulavam por mim, vozes que não eram minhas, ideias confusas se sobrepondo e ressoando tão alto que me perguntei se ainda havia algo em mim apenas meu.
Incomodada com a falta de privacidade dentro do meu próprio cérebro, me propus a destrinchar a questão, entender a raiz do caos. Recriando minha rotina, me dei conta de que em todas as cenas projetadas, um objetozinho me acompanhava: o celular. Jantar com as amigas? Celular na mão. Filme com a família? Celular na mão. Cama antes de dormir? Celular na mão.
Sei que não sou a única. Em uma rápida conversa com minhas amigas descobri que elas também não conseguem largar desta tela hipnotizante. Seria essa uma espécie de pandemia social? Estamos tão perdidamente viciados nas redes que ficar sem elas por minutos sucinta sintomas reais de abstinência e desespero?
Mas, acima do vício, mais impactante do que a constatação de estarmos dependentes de um produtor de luz e sons, me assustou o fato de que, sem as vozes que saem do meu celular, me senti incompleta. Sem ter pessoas desconhecidas ditando o que fazer, como me vestir e como pensar, me vi à deriva na minha própria vida.
A mente humana, embora uma benção, pode muitas vezes se tornar uma prisão. Ainda mais quando estamos inseridos em uma sociedade que tanto exige, tanto pune, que tem gosto em nos angustiar com a sensação de atraso constante. Por isso, buscamos escapes para diluir a dor do desespero. O celular cai aqui como uma luva. Um entorpecente para as desilusões mentais. Uma distração em tamanho de bolsa que levamos para todos os lugares e nos jogamos nela frente qualquer mínimo inconveniente.
A verdade é que sentir machuca. É desconfortável. Nos força a encarar os lados obscuros da vida e continuar caminhando em direção a eles, mesmo quando estamos apavorados. E ter uma válvula de escape é irresistível.
Quando abrimos nossa telinha e nos deparamos com tantos estímulos, esquecemos de nós mesmos. Nossos problemas diminuem, tiramos do foco central nossa existência e priorizamos os problemas alheios. Em doses homeopáticas, isso não é de todo ruim. Mas os celulares não estão aqui como um objeto do bem para acalentar a humanidade. As redes sociais tem como objetivo suscitar nosso desejo por consumo das formas mais sutis possíveis, sem que nós sequer percebamos.
E aí, quando paramos para entender, estamos tal qual Alice, caindo em um buraco sem fim. Mas não vamos parar no País das Maravilhas. Nos encontramos dentro da nossa própria existência, só que agora anestesiados para a vida e com tempo gasto em vão, assistindo a outros viverem.
Os vídeos são tão curtos, as mensagens tão superficiais, são tantos rostos iguais e diferentes que torna-se impossível não se enxergar em alguém. Se identificar de alguma maneira. E então, quando já estamos viciados, passamos a recorrer para o celular por qualquer mísero incidente.
Quando uma dúvida aparece, ao invés de pensar, jogamos a pergunta no Google. Quando queremos entender um tema, buscamos opiniões alheias no TikTok. Quando queremos ler um livro, vamos atrás de resenhas e se o público não gostou, nem nos atrevemos a tentar.
Aos poucos, fomos aposentando nosso cérebro. Encontrar pessoas que, aparentemente, pensam e sentem como você, é uma descoberta reconfortante. É mais ou menos esse o papel que a literatura faz. Ao nos deparar, no meio das páginas de um livro, com um personagem que sente o que você achava ser um vazio só seu, há um reconhecimento no outro que gera carinho e conforto.
No entanto, a leitura é uma experiência única e íntima. Embora te apresente a um outro alguém, a interpretação depende de você. Já na internet, os vídeos têm 15 segundos e uma mensagem explícita. Não há espaço para diferentes versões. Você se enxerga naquela pessoa, e pronto. Logo passa a viver por ela, acreditar que tudo o que ela pensa se equipara a você, que a existência dela valida a sua.
E no meio desse processo de metamorfose, na qual a individualidade do todo vira uma padronização única, paramos de ter ideias próprias. Nossa opinião é a mesma da que encontramos nos vídeos que assistimos. Não desenvolvemos nossa criatividade, nossa expressividade, nossa própria personalidade. O brilho plural se reduz à uma única partícula.
Por esse extenso motivo, me apavorei quando me dei conta de que não existiam ideias autorais na minha cabeça. Tudo o que eu pensava era narrado pela voz de um outro alguém, uma face desconhecida da internet. Eu, que sempre fui curiosa, me vi na ausência de perguntas porque não sabia nem mais o que queria buscar nesse mundo.
Decidi que já basta de me entorpecer. Quero sentir a vida, com todas as suas nuances e complexidades. Quero os altos e baixos, as dores e alegrias, os amores e a solidão também. Quero sentir o tédio e não correr para me esconder por trás de telas. Quero deitar para dormir sem o brilho azul infectando minhas retinas. Quero imaginar, errar, ir atrás e descobrir sobre o mundo a partir de mim mesma. Quero ter em minhas mãos algo que jamais deveria ter soltado: as rédeas da minha existência.
Talvez, seja hora de você colocar seu cérebro para funcionar também. Faça um exercício rápido: tente analisar um fenômeno do mundo, resenhar um livro que leu ou tecer um comentário sobre um filme que assistiu recentemente sem se basear em comentário de mais ninguém. Use suas ideias, e só. Isso vai ser bom parâmetro para perceber em qual nível na régua de anestesia cerebral você está. E se sentir que não consegue enxergar por si só, não se desespere. Só desligue esse celular e observe o mundo com seus próprios olhos, provavelmente pela primeira vez em muito tempo.
Vai valer a pena, te garanto.
*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Sapata foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Ana Beatriz Carvalho
Estagiária VSP

Ana Beatriz Carvalho Sapata estuda Comunicação Social na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Durante o estágio da estudante no Portal Viver Sem Preconceitos, sua atenção estará voltada a tudo que se refere ao conceito da diversidade e ao apoio das causas que combatem os preconceitos. Conheça mais sobre Ana Bia, acessando o LinkedIn. Esse estágio é supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira.

Siga o Viver Sem Preconceitos nas Redes Sociais
![]()
![]()
![]()
Curta, comente, compartilhe…
Vamos fazer do mundo um lugar melhor para se viver,
um lugar com menos preconceitos!
O Portal Viver Sem Preconceitos autoriza a reprodução de seus conteúdos -total ou parcial- desde que citada a fonte e da notificação por escrito.
Para o uso de matérias e conteúdos de terceiros publicados aqui, deve-se observar as regras propostas por eles.