O sentido das palavras

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Como as palavras moldam a maneira com que espalhamos nossas mensagens

Por Ana Beatriz Carvalho*

Toda palavra tem significado, mas disso todo mundo sabe. Literalmente o objetivo dessas junções de letras é, assim como diz o escritor italiano Italo Calvino, unir “a impressão visível com a coisa invisível, com a coisa ausente, com a coisa desejada ou temida, como uma frágil ponte improvisada estendida sobre o vazio”.

No entanto, acredito que o objetivo dessas coisinhas vai muito além de uma simples funcionalidade. As palavras nascem para dizer alguma coisa. Óbvio, são mecanismos da comunicação, essa é basicamente sua função. Mas existe uma camada abaixo deste conceito superficial, um sentido mais profundo, pois antes mesmo de comunicar uma ideia, a palavrinha já seleciona e sorrateiramente dita a forma como sua ideia será recebida.

Imagine alguém dizendo: “você errou.” Agora, imagine a mesma situação traduzida em outra frase: “acho que vale tentar novamente.” Percebe a diferença? Em ambos os casos, a mensagem permanece basicamente a mesma. O que se altera é a intencionalidade desejada para quem a recebe.

As palavras não são apenas junções de letras. São instrumentos poderosos que funcionam como lentes pelas quais enxergamos o mundo. E para além de nós, são determinantes na possibilidade de aproximar ou abrir distâncias entre os interlocutores.

Muito mais do que apenas auxiliar na integração das pessoas, exercem uma necessidade social na base da sua existência.

Palavras possuem a bonita função de traduzir pensamentos, sentimentos, ideias e mensagens em uma coisa chamada linguagem. Esta linguagem, categorizada por idiomas, possibilita que grupos se entendam e, portanto, consigam conviver com infinita maior integração. Elas sustentam vínculos e tornam possível aquilo que talvez seja uma das maiores necessidades humanas: compreender e ser compreendido.

Para adentrarmos nessa conversa, é preciso deixar claro que as pessoas são seres sociais. Isso quer dizer que precisam de companhia, precisam de amor, precisam um dos outros. Não é atoa que solidão literalmente mata. Um estudo feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que o isolamento social é tão prejudicial à saúde física quanto fumar 15 cigarros por dia.

É justamente por essa necessidade intrínseca à existência que as palavras servem como excelente abraço comunitário. A possibilidade de comunicação intensifica laços, aprofunda relacionamentos e aumenta a possibilidade intersocial de compreensão.

Segundo o psicanalista Sigmund Freud, “a ciência moderna ainda não produziu um remédio tranquilizante tão eficaz quanto algumas poucas palavras carinhosas”. E é aqui que o exemplo dado no começo do artigo se prova válido. A forma como escolhemos nos comunicar transparece a maneira como enxergamos o mundo, o outro e mesmo a nós próprios. Uma crítica pode incentivar o crescimento ou desencorajar alguém. Um elogio sincero pode fortalecer a autoestima de uma criança por anos. Uma única frase, dita no momento certo, pode mudar uma decisão, restaurar uma amizade ou oferecer esperança quando tudo parece perdido.

Antes mesmo de falarmos, fazemos escolhas: chamamos alguém de “teimoso” ou de “persistente”? Dizemos que uma situação é um “problema” ou um “desafio”? Pedimos desculpas ou justificamos nossos erros? Em cada decisão existe uma maneira diferente de apresentar a realidade. Se nossa sobrevivência depende das relações, a comunicação passa a ser um dos principais instrumentos para sustentá-las.

Uma espécie de magia se dá quando enxergamos a proporção da comunicação efetiva. Emoções, sentimentos, imagens, pensamentos e ideias podem ser suscitados apenas com o ressoar de sílabas eficazes. E, no fim, falar é escolher. Escolher não apenas o que pronunciamos, mas também as marcas que desejamos deixar nas pessoas depois que nossa voz se cala. As palavras desaparecem assim que são pronunciadas, mas seus efeitos podem reverberar por muito tempo. E, talvez, seja justamente a força dessa permanência invisível que estabelece as palavras como um dos mais belos pilares humanos.

*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Sapata foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Foto: Vecteezy

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