A criança que ninguém escuta

A criança que ninguém escuta
Compartilhe este artigo

Quando o comportamento vira pedido de ajuda

Por Melaine Machado*

Existe uma pergunta que talvez precisemos fazer com mais frequência diante de uma criança que chora, grita, se irrita, se isola, bate, corre, recusa, desafia ou simplesmente parece não querer participar: o que essa criança está tentando nos dizer?

Vivemos em uma sociedade que costuma olhar primeiro para o comportamento e depois para a criança. Queremos que ela pare de chorar, fique quieta, obedeça, sente-se, espere, compartilhe, participe, produza. Muitas vezes, antes mesmo de compreender o que está acontecendo, damos um nome ao comportamento: birra, desobediência, agressividade, preguiça, falta de limite, manha.

Mas e se, em muitos desses momentos, estivermos diante de uma criança que ainda não encontrou outra maneira de comunicar aquilo que sente?

Isso não significa dizer que todo comportamento deve ser permitido. Crianças precisam de limites, proteção e orientação. Significa algo diferente e muito mais profundo: limite e compreensão podem caminhar juntos.

A ciência do desenvolvimento infantil tem mostrado que as relações responsivas entre crianças e adultos são fundamentais para o desenvolvimento do cérebro, da comunicação e das habilidades sociais. O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, utiliza o conceito de serve and return — uma espécie de “ida e volta” da comunicação — para explicar como as respostas sensíveis do adulto aos gestos, sons, expressões e iniciativas da criança ajudam a construir conexões importantes para o desenvolvimento.

Antes de conseguir regular sozinha aquilo que sente, a criança precisa experimentar a regulação na relação com alguém. É o que chamamos de co-regulação. Um adulto que consegue permanecer presente diante do choro, da frustração ou da desorganização ajuda a criança, pouco a pouco, a construir recursos internos para lidar com aquilo que hoje ainda é grande demais para ela.

Por isso, talvez precisemos substituir algumas perguntas.

Em vez de perguntar apenas “como faço essa criança parar?”, podemos perguntar: “o que aconteceu antes disso?”. “O que ela está sentindo?”. “Esse ambiente está exigindo mais do que ela consegue oferecer neste momento?”. “Existe alguma necessidade que ela ainda não consegue comunicar?”. “O que o corpo dela está dizendo?”.

Essa mudança de pergunta transforma o nosso olhar.

E ela é especialmente importante quando falamos de crianças neurodivergentes e de crianças com deficiência. Uma criança pode apresentar dificuldades de comunicação, processamento sensorial, flexibilidade, atenção, interação social ou autorregulação e, diante de uma situação de sobrecarga, expressar isso por meio do comportamento. A Academia Americana de Pediatria, por exemplo, recomenda que, diante de comportamentos desafiadores em crianças autistas, sejam investigadas as razões e circunstâncias que contribuem para sua ocorrência, para que possam ser ensinadas respostas mais adequadas e construídos apoios individualizados.

Isso nos leva a uma questão fundamental: o comportamento não deve ser analisado isoladamente da criança e do ambiente em que ele acontece.

Uma criança que se desorganiza diante de uma sala barulhenta pode estar nos dizendo alguma coisa sobre o ambiente. Uma criança que sempre foge de determinada atividade pode estar revelando uma dificuldade que ainda não conseguimos compreender. Uma criança que agride quando precisa interromper uma brincadeira pode estar enfrentando uma dificuldade de transição, comunicação ou flexibilidade. Uma criança que se cala pode estar comunicando tanto quanto aquela que grita.

O corpo fala.

E a psicomotricidade nos ensina justamente a olhar para esse corpo que se movimenta, que se retrai, que busca, que evita, que explode, que se aproxima e que se distancia. Antes de interpretar o comportamento como uma característica moral da criança, precisamos compreendê-lo como uma manifestação situada em uma história, em um corpo e em uma relação.

Isso também exige olhar para os adultos.

Nem sempre uma mãe ou um pai consegue responder de maneira tranquila a uma criança desorganizada. Nem sempre um professor tem tempo, formação ou condições para observar cuidadosamente o que está acontecendo. Famílias vivem sob pressão, escolas enfrentam demandas enormes e muitos profissionais trabalham em contextos que dificultam uma atenção individualizada.

Por isso, falar de desenvolvimento infantil também é falar de cuidado com quem cuida. A própria ciência do desenvolvimento mostra que relações responsivas dependem também das condições oferecidas aos adultos. Estresse, isolamento social e dificuldades econômicas podem reduzir a capacidade dos cuidadores de responder de maneira consistente às necessidades das crianças.

Não podemos exigir uma infância regulada em ambientes completamente desregulados.

Precisamos construir espaços onde a criança possa ser escutada antes de ser corrigida, compreendida antes de ser rotulada e orientada sem ser humilhada.

Isso não significa ausência de limites. Pelo contrário. Um limite seguro também comunica: “eu estou aqui, eu vou te proteger, eu não vou permitir que você machuque alguém, e vou te ajudar a encontrar outra maneira de expressar o que está acontecendo”.

A Academia Americana de Pediatria também alerta que estratégias disciplinares baseadas em gritos, vergonha e punição corporal não são estratégias eficazes de longo prazo e estão associadas a resultados negativos para o desenvolvimento infantil.

Talvez a grande mudança cultural de que precisamos seja aprender a enxergar a criança para além do comportamento que nos incomoda.

A criança não é “a birra”.

Não é “a agressividade”.

Não é “a desobediência”.

Não é “o diagnóstico”.

Existe uma criança ali. Um corpo. Uma história. Uma maneira singular de perceber o mundo. Uma necessidade de vínculo. Uma capacidade em desenvolvimento.

E, principalmente, existe alguém que ainda está aprendendo a dizer aquilo que nós, adultos, muitas vezes também temos dificuldade de dizer: “isso está demais para mim”, “eu não entendi”, “eu estou com medo”, “eu preciso de ajuda”, “eu não consigo ainda”.

Talvez escutar uma criança seja justamente isso: aprender a ouvir aquilo que ainda não conseguiu virar palavra.

No Viver Sem Preconceitos, falar de inclusão é também falar de escuta. Porque uma sociedade verdadeiramente inclusiva não é aquela que simplesmente permite que a criança esteja presente. É aquela que cria condições para que ela possa participar, comunicar, pertencer e desenvolver-se sem precisar deixar de ser quem é para ser aceita.

Antes de perguntar “como fazer essa criança se comportar?”, talvez devêssemos começar perguntando:

O que essa criança está tentando me dizer?”

Essa pergunta pode não resolver tudo. Mas pode mudar o começo de tudo.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Mikhail Nilov/Pexels

Siga o Viver Sem Preconceitos nas Redes Sociais

Curta, comente, compartilhe…

Vamos fazer do mundo um lugar melhor para se viver,
um lugar com menos preconceitos!

O Portal Viver Sem Preconceitos autoriza a reprodução de seus conteúdos -total ou parcial- desde que citada a fonte e da notificação por escrito.
Para o uso de matérias e conteúdos de terceiros publicados aqui
, deve-se observar as regras propostas por ele

Colunistas

Colunistas

Coluna semanal de nossos articulistas, sempre com temas variados sobre a diversidade e a luta contra o preconceito e as discriminações.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *