Desaprendemos a olhar para o outro?
Em ano eleitoral, é mais do que importante ampliar nosso olhar para além das nossas próprias necessidades. Direito nenhum é garantia eterna, e nosso voto dita o futuro que queremos construir
Por Ana Beatriz Carvalho*
Estamos em ano eleitoral. Embora haja uma crescente desvalorização do acesso ao voto direto e democrático, por 21 anos o que hoje é levado como uma “chatisse obrigatória”, foi proibido no nosso país. De 1964 à 1985, o Brasil foi submetido a uma ditadura militar. Direitos foram minados, a liberdade de expressão foi banida sem dó e o povo foi compelido a se submeter à voz de militares que não os representavam.
Poder sair de nossas casas, entrar em um colégio e, sob o processo eleitoral mais elogiado do mundo moderno, escolher de maneira sigilosa e segura quem queremos que carregue o nome do nosso Brasil hoje, é uma realidade que foi muito batalhada. Para que hoje possamos usufruir da liberdade de escolha, muitos antes de nós lutaram, sofreram e morreram em nome do que hoje, é pisoteado: a democracia.
Engana-se quem leva os direitos que tem como garantidos, eternos, imutáveis. Se tem uma coisa que a realidade política de uma sociedade não é, é imóvel.
Existir, em um mundo moldado por estigmas, expectativas e preconceitos, já é em grande intensidade, uma luta de resistência. Para aqueles poucos que pertencem ao grupo de “privilegiados” (entende-se aqui, de maneira bruta, homens brancos, cisgenero, heterossexuais, de classe média para alta), é simples imaginar que a facilidade com que sua vida é levada, em uma sociedade democrática, é também a realidade de todos os outros milhões de brasileiros que, embora habitem o mesmo espaço geográfico que ele, vivem em um Brasil diferente.
Darcy Ribeiro, antropólogo mineiro, trouxe o conceito dos “Muitos Brasis” para o imaginário da nação. Um país vasto como o nosso, sofreu influências diferentes desde sua colonização até os dias atuais, e suas regiões foram se moldando de maneiras tão díspares que, por vezes, parecem mais nações diferentes.
E é sob essa ideia que entendemos que a realidade vivida por um branco privilegiado não é a mesma dos tantos grupos minoritários: pretos; pardos; indígenas; mulheres; idosos; comunidade LGBTQIA+; pessoas com deficiência; comunidades quilombolas; comunidades ciganas; população em baixa renda e situação de rua. É impossível dizer que vivem a mesma vida, debaixo da mesma realidade, com as mesmas preocupações e alegrias similares.
Portanto, o direito que cobre um, pode não cobrir o outro. E aqui vem a noção de que não votamos apenas por nós, votamos pelo coletivo. Uma eleição serve para elegermos quem queremos à frente de nosso país, do grupo vasto de seres humanos que constitui uma sociedade, e não apenas das nossas vidas como indivíduos isolados.
É crucial que pensemos no impacto que nosso voto pode ter na liberdade e segurança do outro. Talvez para nós não mude nada, mas é para os marginalizados? O seu voto permitirá que mulheres tenham paz em saberem que poderão continuar a votar e integrar a vida social livremente, ou aquele que você quer eleger insiste em tirar delas o que foi tão caro para conseguir?
Lembre-se, direitos são destituídos em um piscar de olhos! O que temos hoje não é garantido. Uma vida em sociedade significa não pensar apenas no que é bom para nós, mas também, no que é bom para aqueles ao nosso redor. Aqueles que nem conhecemos. Para aqueles que têm menos do que nós. Para aqueles que precisam de apoio do governo. Para as florestas do nosso país. Para o futuro das crianças. Para o Brasil que queremos ajudar a construir.
A empatia se mostra nos mínimos detalhes. É sorrateira, quieta e essencial. É com a empatia que mostramos nossa gentileza e humildade, que aceitamos não nos colocar acima de nenhuma outra pessoa,
Então, entenda: político não se idolatra; político se cobra. Use da sua voz, enquanto ela ainda é escutada, para mostrar que filho do Brasil não foge à luta. Mas não se esqueça que está fazendo isso com o direito ao voto garantido por aqueles que por muito tempo foram calados. O sofrimento de tantos nos trouxe hoje a possibilidade de exercer a maior alegria que um cidadão pode vivenciar: o direito de escolha. Não arrisque perdê-la novamente. As eleições não são tediosas, dispensáveis ou inúteis. Elas são a segurança de que escolhemos a realidade em que queremos viver.
Qual realidade você quer viver?
*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Carvalho foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Ana Beatriz Carvalho
Estagiária VSP

Ana Beatriz Carvalho Sapata estuda Comunicação Social na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Durante o estágio da estudante no Portal Viver Sem Preconceitos, sua atenção estará voltada a tudo que se refere ao conceito da diversidade e ao apoio das causas que combatem os preconceitos. Conheça mais sobre Ana Bia, acessando o LinkedIn. Esse estágio é supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira.
Foto: TSE

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