Entre o herói e o coitado
Como a sociedade distorce a experiência da deficiência
Por Renata Juliotti*
A forma como a sociedade enxerga a deficiência costuma oscilar entre dois extremos igualmente problemáticos: de um lado, a narrativa do “herói”; de outro, a do “coitado”. À primeira vista, podem parecer opostas — uma celebra, a outra lamenta —, mas ambas partem do mesmo equívoco estrutural: a incapacidade de reconhecer pessoas com deficiência como sujeitos plenos, diversos e cotidianos.
-O problema não está na pessoa, mas na lente-
Historicamente, a deficiência foi interpretada como sinônimo de limitação individual. Essa visão reduz a complexidade da experiência humana a uma condição corporal ou sensorial, ignorando fatores sociais, culturais e ambientais que moldam a vida de qualquer pessoa. Quando a deficiência é vista apenas como “falta” ou “perda”, abre-se espaço para leituras simplistas, e é nesse terreno que florescem os estereótipos.
A própria definição clássica da Organização Mundial da Saúde (OMS) já distinguia entre deficiência, incapacidade e desvantagem, indicando que o impacto não está apenas no corpo, mas na relação entre o indivíduo e o meio. Ainda assim, no imaginário coletivo, essa nuance frequentemente se perde.
-A narrativa do herói: quando viver vira “superação”-
A narrativa do herói é aquela que transforma experiências ordinárias em feitos extraordinários apenas porque envolvem uma pessoa com deficiência. Estudar, trabalhar, praticar esportes ou simplesmente viver a própria rotina passam a ser descritos como atos de bravura.
Palavras como “guerreiro”, “vencedor” ou “exemplo de superação” aparecem com frequência. O problema não está em reconhecer conquistas reais, mas em atribuir heroísmo automático a qualquer ação cotidiana. Isso cria um padrão inalcançável: ou a pessoa com deficiência é excepcional, ou sua existência parece insuficiente.
Além disso, essa narrativa tem um efeito político sutil: ao enfatizar o esforço individual, ela invisibiliza barreiras estruturais. Se alguém “venceu apesar de tudo”, então o “tudo” — falta de acessibilidade, exclusão, desigualdade — deixa de ser questionado. A responsabilidade se desloca da sociedade para o indivíduo.
-A narrativa do coitado: quando a vida vira tragédia-
No extremo oposto está a narrativa do coitado, que reduz a pessoa com deficiência a um objeto de pena. Aqui, predominam expressões como “sofre de”, “é vítima de” ou “vive limitado por”.
Essa abordagem desumaniza ao retirar agência. A pessoa deixa de ser sujeito de sua própria história e passa a ser definida exclusivamente por sua condição. Sua identidade é achatada, e suas múltiplas dimensões, profissionais, afetivas, intelectuais, desaparecem.
O efeito é igualmente excludente: ao ser vista como incapaz ou dependente, a pessoa com deficiência é frequentemente afastada de oportunidades, decisões e espaços de participação.
-Dois lados da mesma moeda-
Embora pareçam opostas, as narrativas do herói e do coitado compartilham uma base comum: ambas tratam a deficiência como algo fora da normalidade. Em vez de reconhecer a diversidade humana, criam categorias rígidas e reducionistas.
● O herói é colocado em um pedestal, isolado pela excepcionalidade.
● O coitado é colocado à margem, isolado pela incapacidade.
Em ambos os casos, há distanciamento — e onde há distanciamento, há dificuldade de inclusão real.
-Reconhecimento: um caminho mais preciso-
A teoria do reconhecimento, desenvolvida pelo filósofo alemão Axel Honneth, oferece uma chave importante para essa discussão. Segundo essa perspectiva, a construção da identidade depende do reconhecimento social — ou seja, de como os outros nos veem e nos validam como sujeitos autônomos.
Quando a sociedade insiste em enquadrar pessoas com deficiência como heróis ou vítimas, ela interfere diretamente nesse processo. As imagens disponíveis para identificação tornam-se limitadas e distorcidas, afetando tanto a forma como essas pessoas se percebem quanto como são percebidas.
-O que fica invisível-
Ao focar apenas em extremos, a sociedade ignora o que há de mais importante: a vida cotidiana. Pessoas com deficiência trabalham, estudam, amam, erram, aprendem, descansam — como qualquer outra pessoa.
Também ficam invisíveis as barreiras reais:
● falta de acessibilidade urbana e digital;
● discriminação no mercado de trabalho;
● ausência de políticas públicas eficazes;
● capacitismo estrutural.
Esses elementos não cabem facilmente em narrativas simplificadas, mas são centrais para compreender a experiência da deficiência.
-Para além dos rótulos-
Superar essa lógica exige uma mudança de paradigma: deixar de olhar para a deficiência como exceção e passar a entendê-la como parte da diversidade humana.
Isso implica:
● reconhecer autonomia sem romantizar;
● identificar desafios sem vitimizar;
● compreender que inclusão não é sobre indivíduos “se adaptarem”, mas sobre a sociedade se transformar.
A pergunta deixa de ser “essa pessoa é um herói ou um coitado?” e passa a ser: quais condições estamos criando, ou deixando de criar, para que todas as pessoas possam viver com dignidade?
Entre o heroísmo exagerado e a piedade limitante, existe um espaço mais honesto e necessário: o reconhecimento da humanidade plena. É nesse espaço que a inclusão deixa de ser discurso e passa a ser prática. A deficiência não precisa de rótulos extremos para ser compreendida. Precisa, sobretudo, de uma sociedade disposta a enxergar além deles.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Renata Juliotti
Colunista VSP

Especialista em Direitos Humanos, Comunicação Inclusiva e Desenvolvimento Social. Secretária executiva do Stakeholder Group de Afrodescendentes da ONU e fundadora da Inclusive Agency, atua com indicadores de inclusão, justiça e reparação da população com deficiência. Doutoranda em comunicação e educação humanitária, dedica-se à pesquisa sobre gênero, juventude, raça, deficiência e equidade intergeracional.
Foto: Ágil Consultoria

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