Quando o pai abandona
A ferida invisível que a sociedade ainda normaliza
Por Melaine Machado*
Agosto é conhecido como o mês dos pais. As campanhas publicitárias mostram abraços, brincadeiras, proteção e cumplicidade. E tudo isso é importante. Mas existe uma realidade que raramente aparece nas propagandas: milhares de crianças crescem sem a presença do pai, não porque ele morreu ou porque circunstâncias inevitáveis impediram esse vínculo, mas porque ele simplesmente escolheu não exercer a paternidade.
Esse abandono vai muito além da ausência financeira.
Um pai pode pagar pensão e ainda ser emocionalmente ausente. Da mesma forma, dificuldades econômicas não impedem um pai de oferecer amor, cuidado, escuta e participação. A verdadeira paternidade não se resume ao sustento material. Ela envolve presença, compromisso, responsabilidade e afeto.
Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, a figura paterna tem um papel importante na construção da segurança emocional, da autoestima, da regulação das emoções e das relações sociais. Não porque seja superior à mãe, mas porque crianças se desenvolvem melhor quando contam com adultos comprometidos, previsíveis e afetivamente disponíveis.
Quando essa presença desaparece, a criança frequentemente tenta explicar a ausência culpando a si mesma.
“Será que eu não fui suficiente?”
“Será que meu pai não me ama?”
Essas perguntas silenciosas podem acompanhar uma pessoa por muitos anos, influenciando relacionamentos, confiança, desempenho escolar e saúde mental.
Enquanto isso, quase toda a responsabilidade costuma recair sobre a mãe.
É ela quem reorganiza a rotina, responde às perguntas difíceis, enfrenta a sobrecarga emocional, administra as dificuldades financeiras e tenta proteger o filho de uma dor que ela mesma muitas vezes também está vivendo.
Essa não é apenas uma questão familiar. É um problema social.
Durante décadas, nossa cultura naturalizou a ideia de que o homem poderia escolher o quanto participaria da vida dos filhos. Ainda existe quem enxergue o pai apenas como provedor financeiro, quando, na realidade, crianças precisam de muito mais do que dinheiro. Precisam de vínculo.
Ao mesmo tempo, também é importante dizer que nem toda presença faz bem. Um pai violento, negligente ou abusivo não representa uma referência saudável para o desenvolvimento infantil. Defender a importância da figura paterna significa defender uma paternidade responsável, respeitosa e afetiva.
Nos últimos anos, o debate sobre abandono afetivo e negligência parental tem ganhado mais espaço. Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei que busca fortalecer a proteção de crianças e adolescentes vítimas de negligência parental, ampliando mecanismos para comunicação ao Ministério Público e para responsabilização civil quando houver abandono afetivo. Ainda está em discussão, mas representa um avanço importante ao reconhecer que o cuidado também é um dever jurídico e social.
Precisamos mudar nossa cultura.
Ser pai não começa no registro de nascimento e não termina no pagamento da pensão. Ser pai é estar presente. É brincar. É educar. É colocar limites com respeito. É acolher. É participar das consultas, das reuniões escolares, das conquistas e também das dificuldades.
Quando um pai abandona um filho, quem perde não é apenas aquela criança.
Toda a sociedade paga essa conta.
Construir uma cultura de paternidade responsável é investir em crianças mais seguras, famílias mais saudáveis e adultos emocionalmente mais equilibrados.
Neste mês dos pais, talvez a melhor homenagem seja lembrar que a verdadeira paternidade não se mede apenas pelo sobrenome ou pelo DNA.
Ela se mede pela presença cotidiana, pelo compromisso e pelo amor demonstrado em cada escolha.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Melaine Machado
Colunista VSP

Profissional de Educação Física, psicomotricista clínica, especialista em desenvolvimento infantil. Criadora dos Projetos “Brincar Sensorial ” e “SOS mães atípicas” (a importância de cuidar de quem cuida). Desde 1996 tem proporcionado a inclusão social das crianças por meio do BRINCAR, que são atividades lúdicas que auxiliam no desenvolvimento. Nas redes sociais aborda os temas em @melaine_motricidade.
Foto: Natalia Olivera/Pexels

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