O preconceito contra a tristeza

O preconceito contra a tristeza
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Por que não podemos chorar? O que nos impede de expormos nossa tristeza? Seria a ditadura do sorriso fácil? Nosso colunista conta porque é a obrigação de ser feliz, exatamente aquilo que nos entristece ainda mais

Por Ricardo Soares*

Pode parecer paradoxal e é. Perceberam como quanto mais os dias parecem difíceis e tristes mais se tem preconceito contra a tristeza? É como se no mundo distópico em que vivemos fosse proibido ser triste, parecer infeliz. Uma nada branda ditadura do riso fácil, falso e barato parece se impor conforme advogam dez entre dez “instrutores” de autoajuda, ou mesmo os deploráveis “coachs” que andam tão na moda.

A verdade é que a obrigação de ser feliz nos entristece ainda mais quando cobrada diuturnamente nas nossas vidas reais e virtuais. É o pesado preconceito de que gente triste contamina, joga o astral do ambiente pra baixo. Em suma, a  tristeza não é tolerada e parecer feliz sempre é o que abre portas e janelas. Então, para manter o sorriso no rosto, mesmo que falso, dá-lhe recorrer a aditivos químicos ou teorias de emoções baratas administradas por gente sem o menor estofo para tal.

Não queira o(a) amável leitor(a) abrir as comportas do seu ensimesmamento porque será segregado, visto com maus olhos porque numa sociedade onde devemos sempre estar atentos e fortes para produzir e consumir sem questionar ter sua dose de tristeza não é tolerado. Como diz o vulgo: precisamos falar sobre isso. Por que todos devemos nos encaixar sempre em “corretos” modelos de comportamento? Por que ficar triste ou questionar sempre é mal visto?

Não defendo uma sociedade de ranzinzas ávidos por afeto, mas a obrigação de ser feliz é absolutamente daninha para nossos corações e mentes. Nossas vidas não são os risonhos Stories de Instagram e todos nós temos bons e maus humores. A vida não é o reino de fantasia de belezas bem maquiadas que querem nos impor todos os dias. Por tudo isso e muito mais há que se combater essa ditadura da alegria pela alegria, o preconceito de que devemos ser sempre pessoas com sustentáveis levezas do ser.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Ricardo Soares
Colunista VSP

Jornalista, escritor, roteirista e diretor de TV. Dirigiu 12 documentários e escreveu para a TV Cultura, Rede SescSenac, TV Brasil, GNT e outras. Um dos criadores e primeiro apresentador do programa Metrópolis da TV Cultura. Fez parte da equipe que fundou o Caderno 2 do Estadão. Publicou 10 livros, entre eles, os romances Cinevertigem e Amor de Mãe, além dos infantojuvenis Valentão e O Brasil é feito por nós?
No Instagram fala de livros em 1 minuto no @naredecomsede.

Foto: Gül Işık/Pexels

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