Infância exposta
Quando a superexposição nas redes coloca crianças em vulnerabilidade
Por Melaine Machado*
Neste mês quero trazer uma reflexão necessária sobre os limites entre compartilhar momentos da infância e expor crianças em ambientes digitais que nem sempre são seguros.
Nos últimos anos, tornou-se comum acompanhar o crescimento das crianças pelas redes sociais. Fotos, vídeos, rotinas, comportamentos, escolas, aniversários e até momentos íntimos passaram a fazer parte do conteúdo publicado diariamente por muitas famílias. Esse fenômeno recebeu um nome: sharenting — termo criado a partir da junção das palavras share (compartilhar) e parenting (parentalidade).
Embora, na maioria das vezes, essas postagens sejam feitas com afeto e boas intenções, especialistas têm alertado para os riscos da superexposição infantil no ambiente digital.
Segundo pesquisas internacionais, muitas crianças já possuem uma presença online construída antes mesmo de compreenderem o que significa privacidade. Dados da empresa de segurança digital Barclays apontaram que milhões de imagens de crianças circulam na internet sem qualquer controle sobre quem acessa, salva ou compartilha esse conteúdo.
O problema não está apenas na quantidade de postagens, mas no tipo de informação exposta. Uniformes escolares, localização em tempo real, rotina diária, vídeos de birra, momentos de vulnerabilidade emocional ou até situações consideradas “engraçadas” podem ultrapassar o limite entre memória afetiva e exposição excessiva.
Além disso, organizações de proteção à infância vêm alertando para o crescimento do uso indevido de imagens infantis em ambientes digitais. Muitas vezes, fotos aparentemente inocentes podem ser retiradas de contexto, manipuladas ou utilizadas de forma inadequada por pessoas mal-intencionadas.
Outro ponto importante é que crianças ainda não possuem maturidade suficiente para consentir plenamente sobre a própria exposição. O que hoje parece apenas um registro carinhoso poderá, no futuro, gerar constrangimento, violação de privacidade ou impactos emocionais.
A discussão sobre sharenting não pretende culpabilizar famílias, mas ampliar a consciência sobre responsabilidade digital. Vivemos em uma sociedade em que a infância passou, muitas vezes, a ser transformada em conteúdo. E isso exige reflexão.
Proteger crianças também significa preservar sua intimidade, sua segurança e seu direito de crescer sem exposição excessiva.
Antes de publicar, talvez a pergunta mais importante não seja “quantas curtidas isso terá?”, mas sim: “essa criança gostaria dessa exposição no futuro?”
Em tempos em que tudo parece precisar ser compartilhado, preservar também pode ser uma forma de cuidado.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Melaine Machado
Colunista VSP

Profissional de Educação Física, psicomotricista clínica, especialista em desenvolvimento infantil. Criadora dos Projetos “Brincar Sensorial ” e “SOS mães atípicas” (a importância de cuidar de quem cuida). Desde 1996 tem proporcionado a inclusão social das crianças por meio do BRINCAR, que são atividades lúdicas que auxiliam no desenvolvimento. Nas redes sociais aborda os temas em @melaine_motricidade.
Foto: Junior Gois/Pexels

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