Entre a celebração e o luto

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O Brasil precisa enfrentar com seriedade a distância entre visibilidade e a segurança

Por Nelly Winter*

O Brasil ocupa um lugar singular e profundamente contraditório no cenário global dos direitos LGBTI+. Ao mesmo tempo em que sedia a maior Parada do Orgulho LGBTI+ do mundo, realizada anualmente na cidade de São Paulo e responsável por reunir milhões de pessoas em uma manifestação vibrante de diversidade, o país também lidera rankings alarmantes de violência contra essa mesma população. Trata-se de uma contradição que não pode mais ser tratada como coincidência, mas como reflexo de uma estrutura social que naturaliza desigualdades e produz mortes.

A grandiosidade da Parada paulista, especialmente no mês de junho, frequentemente é interpretada como sinal de avanço social, visibilidade e conquista de direitos. Existe, sem dúvida, um valor simbólico e político na ocupação massiva do espaço público por corpos historicamente marginalizados. No entanto, essa imagem festiva convive com uma realidade brutal que desafia qualquer narrativa simplista de progresso.

Os dados de violência revelam um padrão persistente e cruel. A maior parte das vítimas de assassinatos dentro da população LGBTI+ é composta por pessoas trans, sobretudo travestis e mulheres trans negras, jovens e moradoras de regiões periféricas. Essa intersecção entre identidade de gênero, raça, classe social e território evidencia que não se trata apenas de preconceito motivado por orientação sexual ou identidade de gênero, mas de um sistema mais amplo de exclusão que atua em diferentes níveis.

A periferia, nesse contexto, não representa apenas um espaço geográfico, mas um marcador social de vulnerabilidade. É onde o acesso a direitos básicos se mostra limitado, onde políticas públicas são insuficientes e onde a violência institucional e social se manifesta com maior intensidade. Para pessoas trans que vivem nesses territórios, a marginalização é profunda. Muitas são expulsas de casa, afastadas da escola e excluídas do mercado formal de trabalho. Diante disso, encontram na informalidade, e frequentemente na prostituição, a única alternativa de sobrevivência. Esse ciclo de exclusão amplia significativamente a exposição à violência.

Diante desse cenário, surge um questionamento inevitável: que tipo de orgulho pode existir quando o direito fundamental à vida ainda não está assegurado? A resposta não exige o abandono da celebração, mas a sua ressignificação. O mês do orgulho não pode ser reduzido a festas, desfiles ou campanhas publicitárias. Precisa, antes de tudo, consolidar-se como espaço de memória, denúncia e mobilização social.

Celebrar sem refletir implica o risco de invisibilizar aqueles que não chegam vivos a esses eventos. Significa transformar uma pauta política em produto de consumo, esvaziando seu potencial transformador. Em contrapartida, reconhecer a dor e a luta não elimina a alegria, mas revela que, para muitos, existir já representa um ato de resistência.

O Brasil precisa enfrentar com seriedade essa distância entre visibilidade e segurança. Isso envolve a implementação de políticas públicas eficazes, educação inclusiva, combate à impunidade e, sobretudo, o reconhecimento de que vidas LGBTI+, especialmente de pessoas trans e periféricas, devem ser protegidas. Junho deve continuar sendo um período de afirmação e orgulho. Acima de tudo, precisa ser um tempo de luta. Enquanto corpos LGBTI+ continuarem sendo alvos de violência sistemática, não haverá celebração suficiente que justifique o silêncio diante da morte.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Revista Periferias

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