As muitas formas de amar
“Todas as formas de amar são lindas e igualmente válidas”
Por Ana Beatriz Carvalho*
Somos condicionados a muitos modos de agir sem nem entender o porquê. Com a rotina corrida, pilhas de intermináveis trabalhos, cansaço insaciável, metas inatingíveis e uma constante insatisfação, não paramos para nos perguntar: mas, por quê?
Um desses muitos aspectos inerentes à vida, mas constantemente ignorado, é o quanto de amor destinamos a cada personagem de nossas vidas.
Pense comigo: desde que nascemos somos ensinados a amar nossa família, se não fossem eles nem existiríamos. Crescemos um pouco, fazemos amigos. Aprendemos que temos de amar nossos amigos pois precisamos de companhia. Então, envelhecemos mais um tiquinho e daí chega o divisor de águas da vida humana, o romance.
Não só nos ensinam a procurar um parceiro, mas colocam na nossa cabeça que não somos nada sem um par. Seres incompletos, infelizes, insatisfeitos.
Claro que esse peso cai muito mais forte sobre os ombros da mulher. Sob essa lente machista, a fêmea existe para procriar, sua função no mundo é ser a parceira dócil e prestativa. Em um mundo heteronormativo e sexista, a mulher existe para o homem. Não para si, não para seus sonhos e metas, mas para o próximo.
Quando internalizado desde sempre que seu objetivo nessa vida é conquistar, com seu charme e gentileza arrebatadora, alguém que suporte sua companhia, o amor romântico perde toda sua originalidade, sua magia, sua beleza.
Se apaixonar vira uma competição. Deixa de ser espontâneo, ocasional, revelador. Tem de ser a regra. Caso contrário, a moça falhou na sua única função determinada na sociedade. Não cumpriu com seu papel.
Só que além da desromantização do romance, há uma centralização da busca pelo par amoroso. Já que é o objetivo de vida de tantas pessoas que procuram a completude funcional, a única atividade para a qual temos espaço e tempo é o romance romântico. E nessa corrida maluca, esquecemos que o amor não se detém a paixão amorosa. Ele se estende a tantos outros campos da existência humana.
Não acho que o amor seja superestimado. Só acho que as outras formas de amar são subestimadas.
A paixão tende a ser enlouquecedora. Ela tira nosso juízo, bagunça nossos sentidos, confunde nosso querer. E sabe quem está lá para você quando o surto está a apenas um passo de distância? Seus amigos.
Esses mesmos, aqueles que você aprendeu que serviam apenas para suprir sua necessidade de acompanhamento até o par perfeito chegar. São eles os responsáveis por, tantas vezes, salvarem nossas vidas. Manterem nossos pés ancorados ao chão quando o caos da vida quer nos fazer flutuar.
Na Grécia antiga, por exemplo, a amizade era tida como uma virtude nobre, celebrada na filosofia, na poesia e na literatura. Na Roma Antiga, a amizade era uma base sólida para a coesão social e a estabilidade do Estado. Na Idade Média, passou a ser relacionada com ideais de fidelidade, honra e devoção. Já no Renascimento, a amizade era entendida como uma expressão da liberdade individual e do afeto genuíno, o que refletia uma valorização da autonomia do indivíduo na escolha dos seus relacionamentos.
Percebe-se, portanto, que por séculos, os amigos eram tidos como os seres de valor mais inestimável. Platão acreditava que a forma mais elevada de amor não era a sexual nem a romântica, mas sim o vínculo fraternal. Para ele, esta era a epítome da experiência humana virtuosa.
Meu objetivo aqui não é criticar o romance. Diferentemente dos pensadores do mundo antigo, não sou aversa ao ato de apaixonar-se.
A única coisa que gostaria que entendêssemos aqui é que o contato íntimo com alguém não deve dar-se apenas pelo romance. Nosso tempo na Terra é curto e enquanto estamos aqui, somos abençoados com a inigualável chance de termos ao nosso lado pessoas que ficam porque escolhem ficar.
Nossos amigos não ganham nada objetivo estando conosco. Não é uma troca sexual, econômica, de poder. Eles têm contato com o pior de nós e ainda nos amam. Ainda querem nossa companhia.
Não dependem de instabilidades como a paixão, o desejo. São conexões genuínas e duradouras que se dão a partir da afinidade e podem nos acompanhar até o túmulo.
A amizade representa uma pureza cruelmente desvalorizada. A levamos como garantia, como capricho, como inferior. Mas sem amigos, o romance não tem graça. A vida foi feita para ser compartilhada. As pessoas são seres sociáveis exatamente por este motivo, a solidão nos adoece e mata. Precisamos uns dos outros.
Conseguimos tranquilamente passar décadas sem um parceiro, mas sem um amigo? Enlouquecemos.
E mesmo sendo necessário para a manutenção do nosso bem-estar, escolhemos colocar o romance na frente dos amigos. É claro, vende mais. Mexe com nossa parcela freudiana da consciência, também intrinsecamente humana, de ser desejada.
A ideia do amor acende em nós fantasias sociais construídas desde o Romantismo, no século XVIII, e fortalecidas pela indústria Hollywoodiana no século XX. Homens engravatados perceberam que o romance é fácil de vender e, a partir de então, não pararam mais. Moldaram nosso imaginário, nossas percepções e a forma com que interagimos com o mundo.
Mas sabe, isso é assunto para outro artigo.
Aqui e agora só preciso que você entenda que sem nossos amigos, perdemos uma parte essencial de quem somos. Todas as formas de amar são lindas e igualmente válidas, e devemos entender esse patamar de relevância equivalente para não nos precipitarmos na hora de viver. O problema nunca foi o amor. Foi esquecer que ele existe em mais de uma forma.
*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Carvalho foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Ana Beatriz Carvalho
Estagiária VSP

Ana Beatriz Carvalho Sapata estuda Comunicação Social na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Durante o estágio da estudante no Portal Viver Sem Preconceitos, sua atenção estará voltada a tudo que se refere ao conceito da diversidade e ao apoio das causas que combatem os preconceitos. Conheça mais sobre Ana Bia, acessando o LinkedIn. Esse estágio é supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira.
Foto: Kampus Production/Pexels

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