Brincar é resistir, existir e viver

Brincar é resistir, existir e viver
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A brincadeira como forma de resistência abre caminhos na infância, auxilia na saúde mental e na inclusão

Por Melaine Machado*

Em dezembro, quando o ano começa a se despedir de nós, surge a oportunidade silenciosa de voltar ao que é essencial. Talvez por isso seja tão simbólico revisitar Tarja Branca: A Revolução que Faltava, um documentário que não fala apenas de infância, mas da própria condição humana. Ao assistir a esse filme, somos lembrados de que o brincar não é um capricho das crianças, mas um gesto de existência — um modo de respirar, de criar sentido e de se conectar com a vida. E, ao mesmo tempo, percebemos o quanto a sociedade adulta vem esquecendo essa linguagem tão ancestral.

Brincar é liberdade, corpo, imaginação, cultura. É o espaço onde a criança experimenta, elabora, arrisca, negocia, cria, encontra caminhos. A psicomotricidade sempre reconheceu essa potência: Lapierre, Aucouturier e Vitor da Fonseca nos ensinaram que a criança se organiza no mundo pelo corpo, e é no brincar que ela constrói equilíbrio emocional, simbólico e social. A neurociência contemporânea confirma: nomes como Adele Diamond e Jaak Panksepp mostram que é no brincar que se fortalecem funções executivas, regulação emocional, criatividade, empatia e comportamentos sociais complexos. Não existe desenvolvimento pleno sem experiência lúdica. Não existe saúde emocional sem espaço para o espontâneo.

Mas vivemos tempos difíceis para a infância. Casas cada vez menores, famílias reduzidas, rotinas exaustas, excesso de telas, pouco convívio comunitário. A rua desapareceu, o tempo encolheu, e a pressa tomou o lugar da presença. Quando o brincar some, a criança se retrai — e com ela, retraem-se também suas possibilidades de existir no mundo com autonomia e sensibilidade. E esse apagamento não acontece igualmente para todas as infâncias: crianças com deficiência e crianças neurodivergentes são, muitas vezes, as que menos recebem oportunidades de brincar, de estarem entre outras crianças, de experimentar o corpo, de desenvolver habilidades sociais com tranquilidade e apoio. A ausência dessas experiências não é apenas uma falha individual; é uma questão social, estrutural, de direitos.

O documentário lembra algo profundamente inclusivo: brincar é universal. É linguagem humana antes de ser técnica, cultura antes de ser conhecimento, vínculo antes de ser intervenção. Para crianças com TEA, TDAH, deficiência intelectual ou desafios de comunicação, o brincar não é apenas divertido — é ponte. Ponte com o outro, com o mundo, com o corpo, com o possível. No brincar, a criança pode existir sem cobrança, sem forma pré-definida, sem comparação. Ela pode experimentar ritmos, riscos, gestos, palavras e silêncios que constroem autonomia e pertencimento. Por isso, incluir é também garantir espaço para o brincar — e isso é tão político quanto afetivo.

Tarja Branca nos lembra que brincar é uma forma de resistir à rigidez que nos adoece. É existir sem máscaras e viver com inteireza. E talvez, nesse dezembro, a pergunta mais importante seja: o que estamos oferecendo às crianças para que elas possam viver plenamente? E o que estamos oferecendo a nós mesmos?

Que possamos entrar no próximo ano honrando a infância, protegendo o direito de brincar e reconhecendo que esse direito não é apenas das crianças, mas de todos nós. Porque brincar é resistir. Brincar é existir. Brincar é viver.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

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Foto: Michael Morse/Pexels

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