Toda criança precisa de um time

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O que a Copa do Mundo pode nos ensinar sobre inclusão

Por Melaine Machado*

Julho é um mês em que os olhos do mundo se voltam para o esporte. As torcidas se organizam, as bandeiras aparecem nas janelas, as famílias se reúnem e, por alguns instantes, pessoas de diferentes culturas, línguas e histórias compartilham a mesma emoção. Há algo muito bonito nisso. E talvez a Copa do Mundo possa nos ensinar uma lição que vai muito além do futebol: ninguém joga sozinho.

Quando observamos uma partida, percebemos que cada jogador tem características diferentes. Alguns são mais rápidos, outros mais estratégicos. Alguns lideram, outros apoiam. Alguns brilham em determinados momentos, enquanto outros realizam tarefas silenciosas, mas fundamentais para que o time funcione. Nenhuma equipe vence porque todos são iguais. Ao contrário: ela cresce justamente porque aprende a valorizar as diferenças.

Na infância, acontece algo semelhante.

Cada criança possui um ritmo, uma forma de aprender, de se comunicar, de brincar e de perceber o mundo. Algumas falam muito cedo, outras precisam de mais tempo. Algumas gostam de movimento, outras observam antes de participar. Algumas apresentam condições do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista, o TDAH ou outras formas legítimas de neurodiversidade. Ainda assim, todas carregam algo em comum: o desejo de pertencer.

A inclusão começa exatamente aí.

Antes de qualquer adaptação curricular, de qualquer tecnologia assistiva ou estratégia pedagógica, existe uma necessidade humana fundamental: sentir-se parte do grupo. Sentir que existe um lugar para si. Sentir que suas características não são obstáculos para a convivência, mas elementos que enriquecem a experiência coletiva.

A psicomotricidade nos ensina que o desenvolvimento acontece nas relações. O corpo se constrói no encontro. A identidade se fortalece quando a criança percebe que é aceita e reconhecida. Por isso, quando uma criança é excluída das brincadeiras, ignorada pelos colegas ou constantemente comparada aos outros, não estamos apenas limitando uma experiência social. Estamos impactando diretamente sua autoestima, sua segurança emocional e seu desenvolvimento.

A Copa do Mundo nos lembra que grandes conquistas são coletivas. Nenhum atleta chega longe sem apoio, sem treino, sem incentivo e sem uma equipe ao seu redor. O mesmo acontece com nossas crianças. Elas precisam de famílias que acolham, escolas que compreendam, profissionais que orientem e comunidades que respeitem as diferenças.

Talvez um dos maiores desafios da nossa sociedade seja abandonar a ideia de que todas as crianças precisam se encaixar no mesmo modelo para serem valorizadas. Inclusão não significa tornar todos iguais. Significa reconhecer que cada criança tem potencialidades únicas e merece oportunidades reais para desenvolvê-las.

Em um mundo que frequentemente valoriza desempenho, resultados e competição, é importante lembrar que nem toda vitória aparece no placar. Para algumas crianças, a grande conquista pode ser participar de uma brincadeira em grupo. Para outras, pode ser conseguir esperar sua vez, pedir ajuda, lidar com uma mudança de rotina ou fazer um novo amigo. Essas vitórias também merecem ser celebradas.

Quando ensinamos nossas crianças a respeitar as diferenças, estamos formando cidadãos mais empáticos, mais colaborativos e mais preparados para viver em sociedade. Estamos construindo uma cultura em que ninguém precisa esconder quem é para ser aceito.

A Copa passa. Os jogos terminam. As taças encontram seus donos.

Mas a grande pergunta permanece: estamos ajudando nossas crianças a encontrarem o seu lugar no time da vida?

Porque, no final das contas, toda criança precisa de um time. Um time que acolha, incentive, respeite e acredite. Um time que compreenda que a diversidade não enfraquece o jogo. Ela o torna muito mais bonito.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Jordan Jerome/Pexels

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