Sem liberdade de expressão não há evolução

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A liberdade de expressão e a evolução da língua: um debate necessário

Por Nelly Winter*

Em um episódio recente que chocou a comunidade acadêmica e ativistas sociais, o prefeito de extrema-direita de Cuiabá censurou uma professora e doutora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) durante a Conferência Municipal de Saúde. O motivo da censura? A professora havia utilizado linguagem neutra ao saudar o público. A atitude do prefeito, que a proibiu de continuar usando a forma de tratamento inclusiva, levou a convidada a se retirar do evento, demonstrando um claro repúdio à tentativa de calar sua voz.

Esse lamentável incidente não é apenas um ataque à liberdade de expressão, mas também um reflexo da resistência e do preconceito que ainda cercam a linguagem neutra no Brasil. A professora, ao optar por saudar o público com termos como “todes”, estava exercendo um ato de inclusão. Ela buscava reconhecer a existência de pessoas não-binárias, que não se identificam com o gênero masculino ou feminino. A linguagem neutra surge justamente para dar visibilidade a esses indivíduos, oferecendo uma forma de comunicação que não os invisibiliza.

A importância da linguagem neutra não pode ser subestimada. Ela é uma ferramenta de respeito e pertencimento, que fortalece a identidade de pessoas que, por muito tempo, foram ignoradas pela estrutura binária da língua portuguesa. Negar o uso da linguagem neutra é, em essência, negar a existência dessas pessoas, perpetuando a marginalização e o preconceito. A tentativa de censura por parte do prefeito ignora, ainda, um fato fundamental sobre a nossa língua: ela está em constante evolução. A história do português é uma história de adaptação e mudança. Basta olharmos para os séculos passados para percebermos como a língua que falamos hoje é diferente da que era falada por nossos ancestrais. Novas palavras surgem, antigas caem em desuso gramática se molda às necessidades da sociedade

A linguagem neutra é mais um capítulo nessa longa e fascinante história. Ela representa a tentativa da sociedade brasileira de se adequar a uma realidade mais diversa e plural. Não se trata de “destruir” o português, como alguns insistem em argumentar, mas de expandi-lo, tornando-o mais justo e representativo.

O prefeito, ao censurar a professora, não só demonstrou um profundo desconhecimento sobre a função social da linguagem, mas também tentou silenciar um debate que precisa ser feito. Precisamos discutir a importância da inclusão e do respeito a todas as formas de identidade. A linguagem neutra é parte desse debate e a atitude da professora, ao se retirar do evento, nos lembra que a luta por uma sociedade mais justa e igualitária também passa pela forma como nos comunicamos.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Maria Inês da Silva Barbosa/Reprodução YouTube

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