Arte drag: liberdade de criar além dos padrões
Por ocasião do Dia Internacional da Drag Queen, celebrado em 16 de julho
Por Nelly Winter*
Celebrado anualmente em 16 de julho, o Dia Internacional da Arte Drag é uma oportunidade para reconhecer uma das mais potentes formas de expressão artística contemporânea. Mais do que maquiagem elaborada, figurinos extravagantes ou performances impactantes, a arte drag representa criatividade, liberdade e a possibilidade de questionar normas sociais que, durante séculos, determinaram quem poderia ocupar determinados espaços e de que forma deveria existir.
A drag é, antes de tudo, uma linguagem artística. Trata-se da construção de personagens, narrativas e performances que dialogam com o teatro, a dança, a moda, a música e as artes visuais. E, ao contrário do que muitos ainda acreditam, essa expressão não pertence a um único grupo social. A arte drag pode ser vivenciada por qualquer pessoa que encontre nela uma forma de criação e comunicação artística.
Homens, mulheres, pessoas trans, pessoas não binárias, pessoas negras, indígenas, brancas, pessoas com deficiência, cadeirantes, pessoas gordas e indivíduos de diferentes origens sociais e culturais podem construir suas próprias experiências dentro da arte drag. Essa diversidade evidencia o caráter plural e democrático dessa manifestação cultural, que encontra na diferença uma de suas maiores riquezas.
Entretanto, a inclusão ainda enfrenta obstáculos. Quando a arte drag é expressa por corpos que fogem dos padrões estéticos tradicionalmente valorizados pela sociedade, o preconceito frequentemente se torna mais evidente. Pessoas negras enfrentam o racismo estrutural que também atravessa os espaços culturais. Pessoas com deficiência e cadeirantes lidam com barreiras arquitetônicas, sociais e simbólicas que limitam sua participação e visibilidade. Pessoas gordas ainda são alvo da gordofobia e da constante pressão para adequar seus corpos a modelos considerados aceitáveis.
Nesse contexto, a interseccionalidade torna-se uma ferramenta fundamental para compreender as múltiplas camadas de discriminação e exclusão que podem afetar artistas drag. O conceito ajuda a entender que preconceitos como racismo, capacitismo, gordofobia, machismo e LGBTfobia não atuam de forma isolada. Muitas vezes, eles se cruzam e se reforçam, criando desafios específicos para pessoas que pertencem simultaneamente a diferentes grupos historicamente marginalizados.
A montação, nesse sentido, vai além da transformação estética. Ela pode representar um ato de afirmação, pertencimento e resistência. Ao ocupar um palco, uma passarela ou uma rede social, artistas drag desafiam expectativas sobre beleza, gênero, capacidade física e representação. Cada performance torna-se uma oportunidade de ampliar referências e mostrar que não existe um único modo de ser, de criar ou de ocupar espaços.
Ao longo dos anos, a cultura drag contribuiu significativamente para os debates sobre diversidade e inclusão. Sua força está justamente na capacidade de questionar convenções e revelar que identidades, corpos e expressões artísticas não precisam se encaixar em modelos rígidos para serem legítimos. Quando uma artista drag negra celebra sua ancestralidade, quando uma mulher cis utiliza a linguagem drag para construir uma personagem, quando uma pessoa cadeirante transforma sua experiência em arte ou quando uma pessoa gorda ocupa o centro do palco sem pedir desculpas por seu corpo, a mensagem é clara: a criatividade não possui limites impostos pela aparência ou pelas expectativas sociais.
Celebrar o Dia Internacional da Arte Drag é, portanto, reconhecer uma manifestação artística que ultrapassa fronteiras e acolhe diferentes vivências. É valorizar artistas que transformam a diversidade em potência criativa e que, por meio da arte, desafiam preconceitos ainda presentes na sociedade. Mais do que uma celebração da performance, a data nos convida a refletir sobre o direito de todas as pessoas à expressão artística, à representatividade e à liberdade de existir plenamente. Afinal, a verdadeira essência da arte drag está justamente em sua capacidade de mostrar que a arte pertence a todos, especialmente àqueles que, por muito tempo, foram excluídos dos palcos, das narrativas e dos espaços de visibilidade.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Nelly Winter
Colunista VSP

Cuiabana de chapa, artista, escritora, publicitária, poetisa, palestrante, mestre de cerimônias e cerimonialista, questionadora de tabus, voluntária em ONG’s, apaixonada por pessoas, fascinada por divas do pop, amante de livros e DRAG QUEEN. O podcast DragPod é apresentado por ela. Nelly Winter foi criada por Thon Silva há 20 anos. E o que era hobby no início, hoje tem o objetivo debater os tabus sociais, com a finalidade de desmistificar rótulos impostos por uma sociedade machista.
Foto: Cottonbro/Pexels

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