Um silêncio que compromete o futuro
A invisibilidade da agenda da deficiência no Fórum da CEPAL 2026
Por Renata Juliotti*
Entre os dias 13 e 16 de abril de 2026, a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL) realizou, em Santiago do Chile, a nona reunião do Fórum dos Países da América Latina e do Caribe sobre o Desenvolvimento Sustentável, principal mecanismo regional de acompanhamento da implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.
O encontro reuniu governos, sistema ONU e sociedade civil para discutir o avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com destaque para temas como água, energia, indústria, cooperação regional e participação de juventudes. No entanto, apesar da retórica de inclusão e do compromisso reiterado com o princípio de “não deixar ninguém para trás”, um elemento estrutural permaneceu notavelmente ausente: a agenda da deficiência.
-O paradoxo da Agenda 2030: inclusão sem centralidade-
Em 2015, a Organização das Nações Unidas lançou a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável como um compromisso global estruturado em 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Apesar de incorporar explicitamente a deficiência em diversos ODS, incluindo educação (ODS 4), trabalho (ODS 8), redução das desigualdades (ODS 10) e cidades inclusivas (ODS 11), processos políticos de análise e implementação desses objetivos, como o Fórum da Cepal que aconteceu no Chile, evidenciam um paradoxo recorrente: a deficiência está normativamente presente, mas politicamente ausente.
Essa dissociação compromete a coerência entre compromissos internacionais e sua tradução em políticas públicas regionais.
Nesse marco, tratar a deficiência como um tema transversal é essencial porque garante que políticas públicas, indicadores e investimentos considerem de forma sistemática as barreiras estruturais enfrentadas por pessoas com deficiência, em alinhamento com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que estabelece obrigações claras para os Estados no que se refere à participação plena e efetiva de pessoas com deficiência em todas as esferas da vida social e política.
-Uma ausência que revela prioridades-
Participei de toda a semana do Fórum, e entre o programa oficial, eventos paralelos e as principais sessões do evento no Chile, apesar dos espaços dedicados à juventude e à participação social, a deficiência não aparece como eixo estruturante, nem como prioridade transversal nas discussões centrais. Sua presença, quando existente, tende a ser indireta, diluída em categorias amplas como “inclusão social”, sem abordagem específica, indicadores próprios ou mecanismos claros de implementação.
-Essa ausência não é meramente programática — ela é política!-
A invisibilidade da deficiência em um espaço regional dessa magnitude sinaliza que, mesmo em um contexto de múltiplas desigualdades reconhecidas, a deficiência ainda não é tratada como dimensão estruturante do desenvolvimento sustentável na América Latina e no Caribe.
Na América Latina e no Caribe, somos mais de 85 milhões de pessoas com deficiência, representando 15% da população da região, o maior grupo minoritário e um dos mais marginalizados do continente. Por isso, neste Fórum, nossa voz não pode ser secundária: a agenda da deficiência deve ser reconhecida como central para o desenvolvimento sustentável. Falar de cidades acessíveis, de cuidados, de parcerias e de tecnologia — falar dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável — sem nos incluir é construir um futuro incompleto. Nossa presença é vital, porque não há sustentabilidade nem desenvolvimento se continuarmos sendo deixados para trás. – Explica Antonio Palma López, Secretário de Direitos Humanos da Rede Latino-americana de Pessoas com Deficiência e suas Famílias (RIADIS).
-Caminhos para reverter a invisibilidade-
Para que a agenda da deficiência seja efetivamente incorporada nos processos regionais e além, algumas medidas são estratégicas:
1. Mainstreaming obrigatório da agenda
Incluir a deficiência como variável transversal em todas as sessões, relatórios e indicadores do Fórum.
2. Dados desagregados por deficiência
Fortalecer sistemas estatísticos com base em metodologias comparáveis, alinhadas à Convenção e à Agenda 2030.
3. Participação significativa
Garantir a presença ativa de organizações de pessoas com deficiência nos processos decisórios — não apenas como consulta, mas como coautoras.
4. Financiamento direcionado
Incorporar a deficiência nas estratégias de financiamento para o desenvolvimento e cooperação regional.
5. Integração interseccional
Articular deficiência com raça, gênero, território e juventude, evitando abordagens isoladas.
Conclusão: sem deficiência, não há Agenda 2030
O Fórum da CEPAL 2026 reafirmou a urgência de acelerar a implementação da Agenda 2030 em um contexto de profundas desigualdades regionais.
No entanto, ao não incorporar de forma explícita e estruturante a agenda da deficiência, o processo revela uma contradição central: não é possível falar em desenvolvimento sustentável inclusivo enquanto milhões de pessoas com deficiência permanecem invisíveis nas prioridades políticas.
Mais do que uma lacuna temática, trata-se de uma falha de governança. E, nesse sentido, a pergunta que permanece não é técnica, mas política: quem está sendo, de fato, deixado para trás — e por quê?
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Renata Juliotti
Colunista VSP

Especialista em Direitos Humanos, Comunicação Inclusiva e Desenvolvimento Social. Secretária executiva do Stakeholder Group de Afrodescendentes da ONU e fundadora da Inclusive Agency, atua com indicadores de inclusão, justiça e reparação da população com deficiência. Doutoranda em comunicação e educação humanitária, dedica-se à pesquisa sobre gênero, juventude, raça, deficiência e equidade intergeracional.
Foto: Antonio Palma

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