Todo mundo tem prazo de validade
Nosso mundo virou um mercado e as pessoas têm prazo de validade
Por Ana Beatriz Carvalho*
(É assim que se explica o etarismo em um mundo regido pela lógica do mercado -> como a lógica de mercado transforma pessoas em produtos com prazo de validade –e porque a velhice passou a ser vista como inutilidade-)
Vivemos em uma sociedade que mede valor por produtividade. O quanto mais você gera, mais importante você é. Seguindo essa lógica de pensamento –totalmente doentio, devo dizer-, quem “não produz” vira um “objeto” totalmente descartável, sem utilidade para o funcionamento da máquina que o mundo virou. Ah, porque sim, quando as pessoas são resumidas ao resultado prático de suas ações, elas perdem sua humanidade e são completamente objetificadas.
Só que para que um sistema organizado em níveis de relevância seja instalado, é necessário alguma forma e medida, para definir o que vale mais e o que vale menos. E é aí que entra o dinheiro. Portanto, quem ganha mais, fez mais ações valiosas. Recebem menos aqueles que “não merecem tanto”, aqueles aos quais as ações não são tão cruciais para os olhos do ‘mestre do dinheiro’.
Não é à toa que os trabalhos que resultam em um produto físico, prático, visível e rentável são vistos como mais importantes do que as artes, literatura e música (áreas intrinsicamente humanas e indispensáveis para a nossa existência). Fomos forçados a deixar de lado o que move nossa alma, a fim de focar naquilo que enche nosso bolso.
Mas uma outra faceta curiosa do mundo capitalista, além da centralização do trabalho monótono e exaustivo, é a forma como as pessoas são categorizadas, separadas em caixas de acordo com o que podem proporcionar para o sistema.
Vamos pensar friamente: um jovem de 20 anos tem sua integridade física quase intacta. Tudo é novo, lustroso pelo pouco tempo de uso. Já um senhor de 80 anos tem os joelhos gastos de tanto andar, a coluna cansada de carregar o peso de uma longa vida, as mãos trêmulas. Ele não aguenta mais uma jornada exploratória de trabalho. Seu corpo não aguenta mais.
Mas sabe o que este senhor tem que o jovem nem sonha em ter, justamente pelo pouco tempo de vida aqui na Terra? A sabedoria. As lições que só a experiência permite acumular.
Sabemos bem, como dito logo antes, que esse complexo mundo atual só valoriza o que é palpável e rentável. Até onde sei, conselhos de vida são gratuitos.
Ensinamentos sobre como viver, vindos de alguém que já viveu e tem propriedade para te guiar não são bem-vistos porque, além de gratuitos, atrapalham o funcionamento das engrenagens.
A sistema ganha com nossos erros. Sim, errar é humano e inevitável, faz parte do processo. Mas a ingenuidade cega é o que permite com que continuem no controle. Se não tivermos noção de onde estamos nos enfiando, das injustiças e das crueldades que poderiam ser evitadas, vamos nos submeter e permitir com que aqueles que ganham com nosso trabalho duro, recebam ainda mais.
A sabedoria não é bem quista porque ela nos abre os olhos, faz enxergar.
Nas civilizações antigas, como na chinesa, na grega e na romana, os idosos estavam no alto da sua hierarquia social. Eles eram os anciões, detentores do conhecimento e os mais equipados para aconselharem o restante do grupo. Por isso, por causa da nobreza de suas ações, eram postos no topo.
Percebe-se que aqui o que era valorizado era a mente, criatividade. Eles sabiam do poço valioso de informação e ajuda que alguém vivido poderia ter.
Com o passar dos séculos e a chegada da Revolução Industrial, o conceito de velhice começou a transformar-se. Foi aqui que o ideal de “utilidade” entrou em voga máxima. Agora, o que é enaltecido é a ‘serventia’, o quanto pode se aproveitar, extrair de você. E sob essa ótica, alguém com o físico já comprometido não ajuda em muita coisa.
Antes, o interior era o tesouro. Agora, a forma e eficácia são o centro das atenções.
Tudo é um show, tudo pode ser lucrativo. Se não tem possibilidade de monetização, não tem relevância.
E quando o mundo fica assim, tão vazio de sentido e emoções genuínas, as pessoas são obrigadas a deixarem suas almas de lado e virarem parte dessa performance eterna de mercado. Ou elas são produtos, para poderem valer algo e serem vistas, ou elas insistem em ser gente e não objeto, mas aí são descartadas em um piscar de olhos. Pessoas não valem dinheiro e nada que não vale dinheiro importa.
Não somos incentivados a pensar, não somos incentivados a criar, não somos incentivados a sentir. Querem que nós nos rebaixemos, concordemos e obedeçamos.
Simplesmente aceitar que um idoso ‘vale menos’ porque sua existência deixou de ser lucrativa é uma forma tão baixa, mas implícita e sorrateira de um cruel preconceito denominado etarismo.
O ideal de ‘inutilidade’ segrega os seres humanos por parâmetros que não são usados para classificar pessoas, e sim coisas.
Não somos vistos como gente. E com produtos, não é necessário tomar cuidado. Eles não sentem nem pensam nada mesmo.
Mas nós temos a capacidade de sentir e pensar. Mais do que isso, são exatamente estas ações que nos definem como seres humanos. Temos que sentir e pensar para garantir que estamos vivos. Só não pensa aquele que não existe mais.
A integridade física pode até estar comprometida com o passar do tempo, mas desconsiderar a crucialidade dos idosos devido a sua diminuição no desempenho e produtividade é desperdiçar uma fonte de sabedoria que não pode ser encontrada em nenhum outro lugar.
Os ideais criados para o sucesso no âmbito laboral -produtividade máxima, sucesso, lucro, eficácia, diminuição de perdas e prejuízo mínimo- viraram os ideais que regem todos os aspectos da existência porque no mundo capitalista, a vida se resume ao trabalho. É como se o planeta Terra, em toda sua magnitude, houvesse se morfado em uma enorme e rígida fábrica.
Uma coisa que essa sociedade egoísta não entende é que os seres humanos precisam um dos outros. Por vezes, a velhice é associada à dependência, à inabilidade da pessoa de sobreviver por conta própria. E isso soma na diminuição do valor destes. Como se precisar de outra pessoa te fizesse menos digno.
Mas, honestamente, ninguém vive bem sozinho.
Um mundo individualista como o nosso jamais valorizará a necessidade humana de comunidade, mas todos precisamos um do outro, independente do momento e idade. Não sobrevivemos por conta própria, não há sanidade que aguente.
E essa forma de pensar e agir é também renegar uma própria qualidade de vida futura. É cavar nossa própria cova. Um dia os jovens se tornarão velhos, e quando suas colunas estiverem travadas e todas as portas forem fechadas nas suas caras, a consciência se formará.
Às vezes só aprendemos vivendo, mas esse não precisa ser o caso. Moldamos o mundo em que queremos viver, temos o poder de construir nosso futuro com as nossas ações presentes.
Se entendermos hoje que as pessoas não têm ‘prazo de validade’, que sua utilidade não acaba quando seu corpo pede por socorro, construiremos um mundo muito mais apto para viver. E eu digo viver mesmo, com qualidade, não apenas sobreviver.
A verdade é que estamos edificando um planeta inabitável. Quem quer existir em uma realidade que primeiro te usa e depois te descarta? Não existe isso de ‘inutilidade’, prazo para seu valor. A vida só acaba quando a morte chega, e até lá, temos muito o que aprender uns com os outros.
*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Sapata foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Ana Beatriz Carvalho
Estagiária VSP

Ana Beatriz Carvalho Sapata estuda Comunicação Social na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Durante o estágio da estudante no Portal Viver Sem Preconceitos, sua atenção estará voltada a tudo que se refere ao conceito da diversidade e ao apoio das causas que combatem os preconceitos. Conheça mais sobre Ana Bia, acessando o LinkedIn. Esse estágio é supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira.
Foto: Mart Production/Pexels

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