As barreiras que ninguém vê

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As deficiências invisíveis e o cordão de girassol: quando a inclusão começa com a empatia

Por Renata Juliotti*

Quando eu fazia uso de cadeira de rodas, todas as pessoas percebiam, sob uma perspectiva socialmente superficial, algumas das barreiras que eu enfrentava como pessoa com deficiência. Hoje em dia, reabilitada e sem a necessidade de nenhum suporte como a cadeira de rodas, mas ainda PcD, e enfrentando inúmeras barreiras de acessibilidade, pertencimento e inclusão, como eu posso ser identificada socialmente? Como eu posso garantir meus direitos em uma fila preferencial, em um atendimento ou órgãos públicos? Para assegurar meu direito à educação, moradia, acesso ao transporte acessível?

Essa preocupação é legítima para uma parcela significativa da população com deficiência no Brasil e em todo o mundo. Em uma sociedade que ainda associa deficiência principalmente a sinais físicos visíveis, milhões de pessoas convivem diariamente com condições que não podem ser percebidas à primeira vista. São as chamadas deficiências invisíveis, que incluem, entre outras, autismo, transtornos mentais, epilepsia, doenças crônicas, deficiências auditivas, condições neurológicas e diversas limitações cognitivas. Embora muitas vezes não sejam perceptíveis, essas condições podem afetar profundamente a vida cotidiana, o acesso a serviços e a participação social.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1,3 bilhão de pessoas no mundo, aproximadamente 1 em cada 6 indivíduos, vivem com algum tipo de deficiência. Estima-se ainda que até 80% dessas deficiências não sejam visíveis. Isso significa que mais de um bilhão de pessoas podem enfrentar desafios significativos sem que sua condição seja imediatamente reconhecida pela sociedade.

Muitos me veem nas ruas, no supermercado, na fila do banco, usando meu cordão estampado de girassóis e não entendem que por detrás das belas flores existem dores, desconfortos e barreiras invisíveis — condições que não são facilmente identificadas no cotidiano — o que pode gerar incompreensão, constrangimentos e até discriminação.

-Tornar o invisível visível-

Foi justamente para responder a esse desafio que surgiu uma iniciativa global conhecida como Hidden Disabilities Sunflower. Criado em 2016 no Aeroporto de Gatwick, no Reino Unido, o projeto propõe uma forma simples e discreta de comunicação: o Cordão de Girassol.

O cordão, geralmente verde com desenhos de girassóis, funciona como um símbolo internacional de identificação voluntária para pessoas com deficiências ou condições não aparentes. Ao utilizá-lo, a pessoa sinaliza que pode precisar de mais tempo, paciência, apoio ou compreensão em ambientes públicos, como aeroportos, transporte público, hospitais, repartições ou estabelecimentos comerciais.

Mais do que um acessório, o cordão representa um pacto social de empatia e respeito. Ele permite que profissionais treinados e a comunidade em geral reconheçam que nem toda necessidade de apoio é visível.

-Reconhecimento legal no Brasil-

No Brasil, a importância dessa ferramenta de inclusão ganhou reconhecimento oficial. Em 2023, a Lei nº 14.624 alterou o Estatuto da Pessoa com Deficiência para instituir o cordão de girassol como símbolo nacional de identificação de pessoas com deficiências ocultas.

A legislação reforça que o uso do cordão é opcional, servindo como um mecanismo de conscientização social e de facilitação do atendimento adequado em espaços públicos e privados.

A medida acompanha uma tendência internacional: aeroportos, universidades, empresas e serviços públicos em diversos países têm aderido à iniciativa e promovido treinamentos para reconhecer e apoiar pessoas com deficiências invisíveis.

-Inclusão também é reconhecimento-

A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CRPD) marcou uma mudança fundamental na forma de compreender a deficiência: deixou-se de enxergá-la apenas como uma condição individual para reconhecê-la como uma questão de direitos humanos e inclusão social.

Nesse contexto, reconhecer as deficiências invisíveis é parte essencial do compromisso global de “não deixar ninguém para trás”, princípio central da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

O cordão de girassol simboliza justamente essa mudança cultural. Ele lembra que muitas pessoas enfrentam barreiras que não podem ser percebidas a olho nu — desde crises de ansiedade em ambientes lotados até dificuldades cognitivas ou sensoriais que tornam tarefas simples mais desafiadoras.

-Um gesto simples que transforma relações-

A verdadeira transformação não está apenas no cordão, mas na consciência coletiva que ele desperta. Reconhecer as deficiências invisíveis significa abandonar julgamentos rápidos e abrir espaço para uma sociedade mais acessível, respeitosa e humana.

Em última análise, a mensagem do girassol é simples e poderosa:

“Nem toda deficiência pode ser vista — mas todas merecem ser compreendidas”. Quando a empatia se torna parte do cotidiano, aquilo que antes era invisível passa a ser reconhecido, respeitado e incluído. E é justamente nesse momento que a inclusão deixa de ser apenas uma política pública e passa a ser uma prática social. 🌻

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Reprodução Internet

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