Corpos que aprendem

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Quando a volta às aulas encontra o ritmo do mundo

Por Melaine Machado*

Fevereiro chega com cheiro de material novo, reencontros e expectativas. Ao mesmo tempo, o Brasil pulsa com o ritmo do Carnaval — cores, sons, fantasias, corpos em movimento. É um mês que simboliza algo essencial: antes de aprender com a cabeça, a criança precisa aprender com o corpo. E é justamente aí que a inclusão começa.

Muitas vezes olhamos a volta às aulas como um evento puramente escolar: quem é o professor, qual é a turma, qual será o desempenho. Mas, para muitas crianças — especialmente as que fazem parte da neurodiversidade, como autismo, TDAH, dislexia, dispraxia — o maior desafio está no que não vemos: barulhos intensos, cheiros fortes, filas apertadas, mudanças bruscas de rotina, excesso de estímulos visuais, toques inesperados. O corpo tenta organizar tudo isso — e nem sempre consegue.

A psicomotricidade nos lembra que o corpo não é apenas um veículo: é linguagem, memória, afeto e pensamento. O modo como a criança se movimenta, toca, se esconde, corre, resiste ou busca o outro, revela sua forma de estar no mundo. Vitor da Fonseca ressalta que o desenvolvimento psicomotor é um dos alicerces da aprendizagem e da construção da identidade infantil. Quando ignoramos o corpo, perdemos a porta principal do desenvolvimento.

Ao observarmos o Carnaval — com todo seu simbolismo cultural — percebemos algo interessante: ali os corpos ganham liberdade. O brincar aparece. Há fantasia, personagem, ritmo, improviso. Muitos adultos permitem-se aquilo que a infância deveria viver mais tempo: experimentar e criar. Porém, paradoxalmente, para muitas crianças, o mesmo cenário pode ser avassalador: sons altos demais, confusão, aglomeração, imprevisibilidade. Isso nos lembra que inclusão real não é expor todas as crianças ao mesmo estímulo, mas criar caminhos para que cada uma participe à sua maneira.

Pesquisas em neurociência têm demonstrado que o processamento sensorial influencia diretamente comportamento, atenção e regulação emocional (Ayres, Dunn, Porges). Uma criança que “parece desobediente” pode, na verdade, estar tentando se proteger de um ambiente que a machuca: um ventilador barulhento, o cheiro da merenda, o toque do colega na fila. Quando o sistema nervoso está em alerta, o cérebro não aprende — sobrevive.

Por isso, a inclusão não começa com adaptações pedagógicas sofisticadas. Começa com perguntas simples e profundamente éticas:

. Como esse corpo está se sentindo aqui?

. O que esse espaço comunica?

. Que tipo de experiência sensorial estamos oferecendo?

No início do ano letivo, é essencial favorecer tempos mais lentos, apresentar os espaços com calma, permitir exploração livre, explicar rotinas visualmente, criar cantos de acolhimento e organizar momentos de brincar espontâneo. O brincar — livre, criativo, cooperativo — integra funções motoras, emocionais e sociais. Ele ajuda a criança a aprender a esperar, negociar, respeitar limites, reparar conflitos, imaginar possibilidades e, sobretudo, sentir-se pertencente.

Para crianças com deficiência e transtornos do neurodesenvolvimento, isso é ainda mais urgente. Elas não precisam apenas de paciência — precisam de mediadores sensíveis que compreendam que suas reações não são “birra”, mas formas de comunicação. A perspectiva da neurodiversidade nos convida a abandonar a lógica de consertar a criança e a construir ambientes que respeitem seus modos diferentes de perceber o mundo.

Quando a escola acolhe o corpo, acolhe também a dignidade. E quando a família entende esse processo, torna-se parceira — não vigilante. Precisamos, como sociedade, aprender a olhar para essas crianças como cidadãos do presente, não como “promessas para o futuro”. Elas já existem, já sentem, já participam. E, como qualquer um de nós, desejam pertencer.

Fevereiro é um convite bonito: entre o caderno e o tamborim, entre a sala de aula e o ritmo da rua, podemos aprender que inclusão é um gesto cotidiano. É olhar, escutar, ajustar, acolher. É permitir que cada criança encontre seu próprio compasso para crescer. Que possamos, então, começar o ano lembrando: educar é também criar ambientes que façam sentido para o corpo. Porque não há aprendizagem possível onde o corpo sofre — e não há inclusão verdadeira onde alguém precisa desaparecer para caber.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: RDNE Stock project/Pexels

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