A inteligência nasce no corpo
Quando descobrimos uma nova forma de cuidarmos das nossas crianças
Por Melaine Machado*
Nos últimos tempos, tenho refletido muito sobre como estamos olhando para o desenvolvimento das nossas crianças, especialmente quando o assunto é cognição. Existe uma preocupação crescente com leitura, escrita, desempenho escolar, atenção… mas pouco se fala sobre aquilo que sustenta tudo isso. E talvez essa seja a virada de chave mais importante: a cognição não começa na cabeça, ela começa no corpo.
Ao ler o livro O Despertar do Universo Consciente, essa compreensão ficou ainda mais forte para mim. A cognição humana, essa capacidade de pensar, planejar, refletir, não surgiu de forma pronta. Ela foi sendo construída ao longo de milhões de anos, desde os nossos ancestrais do Homo sapiens, a partir da ação no mundo, do movimento, da exploração, das experiências vividas no corpo.
Antes de existir linguagem, antes de existir pensamento abstrato, existia o corpo em movimento. Existia o toque, a experimentação, a relação com o ambiente. Hoje, a própria ciência já confirma isso através do conceito de Cognição incorporada, que nos mostra que não pensamos apenas com o cérebro, mas com o corpo inteiro em interação com o mundo.
E quando a gente traz isso para a infância, tudo começa a fazer ainda mais sentido. A criança não aprende primeiro pela fala, nem pela lógica. Ela aprende pelo corpo. Ela se organiza pelo movimento. Ela expressa o que sente e o que vive através das suas ações. Por isso, uma verdade que guia muito o meu trabalho é: o que se passa na mente da criança aparece primeiro no corpo.
Muitas vezes, comportamentos que são vistos como dificuldade – como agitação, desatenção, impulsividade são, na verdade, sinais de um corpo que ainda não está organizado o suficiente para sustentar processos mais complexos. E isso não é um problema da criança. Isso é um convite para olharmos com mais profundidade.
Outro ponto que me atravessa muito é pensar que nem todas as crianças têm acesso às experiências que estruturam essa base. Nem todas têm espaço para brincar, para correr, para explorar, para estar em contato com a natureza, para viver relações de qualidade. E isso gera uma desigualdade silenciosa, mas muito potente, porque impacta diretamente o desenvolvimento cognitivo.
Não se trata de capacidade. Se trata de oportunidade.
Se a cognição se constrói a partir do corpo, então desenvolver a inteligência não é apenas oferecer estímulos intelectuais. É garantir movimento, experiência, vínculo, natureza, arte. cultura. É permitir que a criança viva o corpo para que, a partir disso, o pensamento possa florescer.
E talvez a gente esteja fazendo o caminho inverso. Estamos tentando acelerar processos cognitivos, exigindo resultados, sem olhar para a base que sustenta tudo isso. Mas sem corpo organizado, a aprendizagem não se sustenta. Ela até acontece, mas de forma frágil, desconectada, muitas vezes sofrida.
Também me chama atenção algo que Marcelo Gleiser traz, que é a importância de nos reconectarmos com a vida, com a natureza, com aquilo que ele chama de Biocentrismo. Essa ideia de que não estamos separados do planeta, de que fazemos parte de um sistema vivo, e que o nosso desenvolvimento físico, emocional e cognitivo – depende dessa conexão.
Quando uma criança está em movimento, em contato com a natureza, explorando o mundo com o corpo, ela não está “só brincando”. Ela está desenvolvendo atenção, linguagem, planejamento, criatividade, autonomia. Ela está construindo cognição.
Por isso, talvez o maior convite que eu possa deixar seja esse: antes de cobrar eu desempenho, ofereça experiência. Antes de exigir concentração, permita movimento. Antes de focar apenas no resultado, cuide da base.
Porque quando o corpo está integrado, o aprender flui. A leitura acontece com mais sentido. A escrita se organiza. O pensamento se amplia. A criança se expressa com mais segurança.
E viver sem preconceitos também passa por esse olhar. É entender que cada criança tem uma história, um contexto, um conjunto de experiências ou de faltas de experiências que impactam diretamente no seu desenvolvimento. É sair de um lugar de julgamento e ir para um lugar de compreensão.
No fim das contas, talvez a gente só precise lembrar de algo muito simples, mas profundamente esquecido: antes de pensar, o ser humano viveu. E é no viver, no sentir e no se movimentar que a inteligência começa.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Melaine Machado
Colunista VSP

Profissional de Educação Física, psicomotricista clínica, especialista em desenvolvimento infantil. Criadora dos Projetos “Brincar Sensorial ” e “SOS mães atípicas” (a importância de cuidar de quem cuida). Desde 1996 tem proporcionado a inclusão social das crianças por meio do BRINCAR, que são atividades lúdicas que auxiliam no desenvolvimento. Nas redes sociais aborda os temas em @melaine_motricidade.
Foto: Terry Narcissan Tsui/Pexels

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