Maternidade invisível
Sobrecarga, desigualdade e os efeitos no desenvolvimento infantil
Por Melaine Machado*
Para além das homenagens, existe um trabalho cotidiano que sustenta a infância — e que, muitas vezes, permanece invisível. Reconhecer esse cuidado é essencial para compreendermos não só a realidade das mães, mas também as condições em que as crianças se desenvolvem.
A maternidade nunca foi apenas sobre afeto. Sempre envolveu trabalho — ainda que esse trabalho não tenha sido historicamente reconhecido como tal. Hoje, esse conjunto de tarefas é compreendido como parte da chamada economia do cuidado: atividades fundamentais para o funcionamento da sociedade, mas que seguem, em sua maioria, não remuneradas e desigualmente distribuídas.
Dados recentes mostram que essa realidade não é pontual. No Brasil, pesquisas indicam que grande parte das mães apresenta sinais de esgotamento físico e emocional relacionados à sobrecarga cotidiana. Esse cenário se conecta a um padrão global. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), mulheres realizam mais de 76% de todo o trabalho de cuidado não remunerado no mundo e dedicam, em média, mais de três vezes o tempo que os homens a essas atividades. Estimativas da Oxfam apontam que esse trabalho corresponde a bilhões de horas diárias e teria valor econômico trilionário se fosse remunerado.
Esse desequilíbrio tem efeitos diretos na vida das mulheres. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destaca que a desigualdade na divisão do cuidado é um dos principais fatores que limitam a autonomia econômica feminina. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) associa a sobrecarga contínua a maiores índices de ansiedade, depressão e esgotamento entre mulheres.
Quando o cuidado envolve crianças com deficiência, esse cenário se intensifica. Relatórios do UNICEF indicam que essas famílias enfrentam demandas ampliadas de tempo, recursos e adaptação, além de barreiras no acesso a serviços. Na prática, muitas mães reduzem ou interrompem suas atividades profissionais para dar conta do cuidado, o que amplia ainda mais desigualdades sociais e econômicas.
É importante destacar que o desenvolvimento infantil não acontece de forma isolada. Ele depende das condições emocionais, sociais e materiais em que a criança está inserida. Estudos na área do desenvolvimento mostram que níveis elevados de estresse nos cuidadores podem afetar a qualidade das interações, a estabilidade das rotinas e o ambiente afetivo, impactando o bem-estar e o comportamento das crianças ao longo do tempo.
Em alguns países, o debate sobre o cuidado já começa a avançar no campo legal. Nos Emirados Árabes Unidos, incluindo Dubai, leis recentes passaram a regulamentar o trabalho de cuidadores e empregados domésticos, estabelecendo direitos básicos e contratos formais. Embora esse seja um passo importante, ele evidencia um limite: o cuidado tende a ser reconhecido quando é terceirizado, mas permanece invisível quando realizado dentro das famílias, especialmente pelas mães. Esse contraste revela que a sobrecarga materna não é apenas uma questão individual, mas estrutural. Ela está relacionada à forma como a sociedade organiza o cuidado, distribui responsabilidades e reconhece — ou não — esse trabalho.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Melaine Machado
Colunista VSP

Profissional de Educação Física, psicomotricista clínica, especialista em desenvolvimento infantil. Criadora dos Projetos “Brincar Sensorial ” e “SOS mães atípicas” (a importância de cuidar de quem cuida). Desde 1996 tem proporcionado a inclusão social das crianças por meio do BRINCAR, que são atividades lúdicas que auxiliam no desenvolvimento. Nas redes sociais aborda os temas em @melaine_motricidade.
Foto: Yan Krukau/Pexels

Siga o Viver Sem Preconceitos nas Redes Sociais
![]()
![]()
![]()
Curta, comente, compartilhe…
Vamos fazer do mundo um lugar melhor para se viver,
um lugar com menos preconceitos!
O Portal Viver Sem Preconceitos autoriza a reprodução de seus conteúdos -total ou parcial- desde que citada a fonte e da notificação por escrito.
Para o uso de matérias e conteúdos de terceiros publicados aqui, deve-se observar as regras propostas por eles.