Etarismo digital
Quando a idade vira barreira no mundo online
Por Álvaro Sena Filho*
Tenho observado, ao longo dos anos de trabalho com inclusão digital na ABRATI, que a tecnologia, embora tenha sido criada para aproximar, ainda afasta muita gente, especialmente as pessoas idosas. O que chamamos de etarismo digital acontece quando a idade se torna um obstáculo invisível entre o indivíduo e o mundo online.
Essa exclusão aparece de várias formas: em piadas sobre quem “não sabe mexer no celular”, em interfaces complicadas, na falta de paciência de quem nasceu conectado e, principalmente, na ideia errada de que aprender depois dos 60 é difícil demais. A verdade é que não é, o que falta é oportunidade e acolhimento, e principalmente interesse em aprender.
Quando fundei a ABRATI, percebi que a tecnologia podia ser muito mais do que um conjunto de aplicativos e botões. Ela podia ser uma ponte. Uma forma de devolver à pessoa idosa a autonomia de se comunicar, de se informar e de participar ativamente da sociedade. Em nossas oficinas, já vi muitos olhos brilharem na primeira video chamada com um neto, no primeiro e-mail enviado, ou até no simples gesto de conseguir escrever uma mensagem sozinha.
Mas, mesmo com tantos avanços, o etarismo digital continua presente. Está nas redes sociais, quando o humor transforma o envelhecimento em motivo de riso, e também nas empresas que desenvolvem tecnologias sem pensar em acessibilidade. É como se o mundo digital tivesse pressa demais e esquecesse que nem todo aprendizado é imediato.
A convivência entre gerações é, para mim, a resposta mais poderosa a esse problema. Quando jovens e pessoas idosas aprendem juntos, ambos crescem. Um ensina sobre tecnologia; o outro ensina sobre tempo, paciência e sabedoria — algo que nenhum aplicativo é capaz de oferecer.
O que defendo é simples: a inclusão digital precisa vir acompanhada de respeito. Envelhecer é um privilégio, e ninguém deveria ser deixado para trás por causa da idade.
A tecnologia pode ser uma grande aliada, desde que usada com empatia. E cada vez que vejo uma pessoa idosa vencendo o medo de errar e se conectando ao mundo, tenho a certeza de que estamos derrubando, aos poucos, as barreiras do etarismo digital.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Álvaro Sena Filho
Colunista VSP

Fundador e presidente da Abrati. Nascido no interior de São Paulo, Álvaro trabalhou na roça até os 15 anos, hoje coordena a instituição que oferece ao público 50+ um espaço de convivência com cursos e atividades gratuitas como informática, Inglês, dança, exercício físico funcional sênior, yôga Terapia, terapia grupo de movimento, pilates, arteterapia, coral, hatha yoga, body combat sênior e karatê sênior entre outras.
Foto: Kampus Production/Pexels

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