Infância perdida
“Criança não é miniadulto: quem ganha com a adultização da infância?”
Por Melaine Machado*
Enquanto aceleramos o crescimento das crianças, quem lucra com isso — e quem perde a chance de ser, verdadeiramente, criança?
Vivemos tempos estranhos. Crianças pequenas, com corpos que ainda estão aprendendo a se equilibrar, já são tratadas como se tivessem a maturidade emocional de um adulto. São cobradas por desempenho, por autocontrole, por produtividade. São vestidas como adultos, falam como adultos, vivem rotinas exaustivas — como adultos.
Mas não são.
E aí fica a pergunta incômoda, que talvez muita gente prefira não fazer:
quem ganha com a adultização das crianças?
Porque alguém sempre ganha.
A indústria da moda infantil, que lucra ao transformar meninas de 6 anos em “mini influencers”.
O mercado da performance, que vende cursos e métodos para tornar a criança “mais rápida, mais esperta, mais madura” — mesmo que isso custe o tempo do brincar, do corpo, do vínculo.
E, infelizmente, também ganham os discursos de controle, de obediência cega, que alimentam estruturas adultocêntricas e capacitistas.
Mas quem perde?
As crianças.
Perdem o direito de errar, de experimentar, de brincar livremente, de se expressar com o corpo.
Perdem o tempo do tônus, da construção simbólica, da subjetividade.
Na psicomotricidade, sabemos que o desenvolvimento saudável exige vivências progressivas — e não saltos forçados. Uma criança que não vive o tempo da sua idade carrega no corpo marcas de exigências que não compreende, mas sente: tensão muscular, insegurança postural, distúrbios de comportamento, medo da falha.
E aí, quando essa criança explode ou se retrai, o problema parece estar nela. Mas não está.
Está em nós. Nos adultos.
Estamos, aos poucos, retirando da infância aquilo que a define: a possibilidade de ser.
E ao fazer isso, negamos também a inclusão — porque cobramos da criança com deficiência, por exemplo, a mesma produtividade, a mesma disciplina, a mesma linguagem, sem considerar seu tempo, seu corpo, seu modo de existir no mundo.
A adultização da infância não é um erro isolado.
É um sistema que fortalece preconceitos.
Que silencia o brincar.
Que adoece.
Por isso, é urgente defender o direito de ser criança.
De não saber tudo.
De errar.
De brincar.
De ser acolhida — e não julgada.
De crescer no tempo certo, no seu tempo.
Porque uma sociedade que não protege suas infâncias está, na verdade, investindo num futuro sem afeto, sem vínculos e sem empatia.
E aí, mais uma pergunta:
que adultos estamos formando quando pulamos as etapas mais importantes da vida?
Talvez a resposta nos assuste.
Mas talvez também nos mova.
E nos convide a voltar.
Voltar ao chão da infância. Ao tempo do corpo. Ao tempo do afeto. É ali que tudo começa.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Melaine Machado
Colunista VSP

Profissional de Educação Física, psicomotricista clínica, especialista em desenvolvimento infantil. Criadora dos Projetos “Brincar Sensorial ” e “SOS mães atípicas” (a importância de cuidar de quem cuida). Desde 1996 tem proporcionado a inclusão social das crianças por meio do BRINCAR, que são atividades lúdicas que auxiliam no desenvolvimento. Nas redes sociais aborda os temas em @melaine_motricidade.
Foto: Gustavo Fring/Pexels

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