Quando o gênero e a raça se encontram
A violência letal contra mulheres no Brasil
Por Nelly Winter*
No Brasil contemporâneo, falar de feminicídio é, infelizmente, narrar uma tragédia que se repete em silêncio todos os dias. Nos últimos relatórios de segurança pública, constatamos que o feminicídio não é um fenômeno aleatório, mas sim um produto direto de estruturas sociais marcadas por machismo, racismo e desigualdade social.
Segundo o 19.º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram registradas 1.492 mortes de mulheres em razão de seu gênero, o maior número desde que o crime foi tipificado em 2015. Desse total, mais de 63% das vítimas eram negras, e 70% tinham entre 18 e 44 anos, uma faixa que concentra mulheres jovens e economicamente ativas. Quase oitenta por cento dos casos foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros, e a maior parte das vítimas foi morta dentro de casa, muitas vezes por alguém em quem confiavam.
Esses números já são alarmantes por si só, mas tornam-se ainda mais graves quando colocamos o feminicídio no contexto da interseccionalidade, a sobreposição de opressões que atuam simultaneamente sobre a vida de mulheres negras, pobres, periféricas e trans.
Enquanto os dados oficiais tratam do feminicídio no conjunto de mulheres, a violência que recai sobre mulheres trans e travestis segue sendo um dos episódios de ódio mais extremos e menos visíveis. Relatórios elaborados por organizações da sociedade civil, como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), mostram que o Brasil continua a ocupar o primeiro lugar no mundo no número de assassinatos de pessoas trans e travestis, com dezenas de casos registrados anualmente. Em 2025, foram 80 assassinatos de pessoas trans, sendo 77 mulheres trans ou travestis, e a maioria desses crimes ocorreu em espaços públicos e à noite, ambientes de maior vulnerabilidade social e invisibilidade institucional.
Mais chocante ainda é o perfil dessas vítimas: em 2025, cerca de 72% das pessoas trans assassinadas eram negras, um reflexo explícito do impacto cumulativo de racismo, transfobia e pobreza na vida dessas mulheres.
Os dados nos dizem uma realidade dura, mas pouca coisa nos explica os motivos profundos que mantêm esses números tão altos. O feminicídio estruturado vem de uma cultura social que naturaliza a violência contra mulheres, legitima a ideia de posse do parceiro e de controle sobre seus corpos e escolhas. Essa violência não começa com a morte: ela é precedida por anos de agressões físicas, psicológicas, patrimoniais e simbólicas, muitas vezes sem denúncia ou com respostas insuficientes do Estado.
No caso das mulheres trans, o centro da violência não é apenas o machismo é a transfobia combinada com a exclusão social. A vida dessas mulheres muitas vezes é marcada desde cedo por violência familiar, expulsão de casa, precariedade no acesso à educação e ao trabalho formal, e uma dependência maior de profissões marginalizadas, como o trabalho sexual, onde estão expostas à violência cotidiana.
Quando uma mulher negra, pobre e trans é assassinada, estamos diante de uma expressão extrema de um sistema que falha em proteger vidas vulneráveis, não por falta de leis, mas por falta de políticas públicas que abordem as causas estruturais da violência.
Debater feminicídio sem considerar raça, classe e identidade de gênero é querer enxergar a ponta do iceberg sem reconhecer seus fundamentos. A violência letal contra mulheres no Brasil é o resultado de múltiplas violências acumuladas, que se concretizam de forma ainda mais brutal quando envolvem mulheres negras e trans. Ignorar isso significa perpetuar um fatalismo injustificável.
Que seja claro: levar a sério a proteção de mulheres exige políticas públicas que enfrentem machismo, racismo e transfobia ao mesmo tempo. Isso vai muito além do reforço das penas ou campanhas isoladas; requer investimento em educação, redes de acolhimento, acesso ao trabalho digno e medidas que garantam a autonomia econômica e social das mulheres mais vulneráveis.
Em um país que se orgulha de sua diversidade, não podemos permitir que a morte de mulheres negras e trans seja apenas mais um dado estatístico. Cada número é uma vida que poderia ter sido protegida se tivéssemos levado a sério o princípio da igualdade material e não apenas o discurso formal de direitos.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Nelly Winter
Colunista VSP

Cuiabana de chapa, artista, escritora, publicitária, poetisa, palestrante, mestre de cerimônias e cerimonialista, questionadora de tabus, voluntária em ONG’s, apaixonada por pessoas, fascinada por divas do pop, amante de livros e DRAG QUEEN. O podcast DragPod é apresentado por ela. Nelly Winter foi criada por Thon Silva há 20 anos. E o que era hobby no início, hoje tem o objetivo debater os tabus sociais, com a finalidade de desmistificar rótulos impostos por uma sociedade machista.
Foto: Midia Ninja

Siga o Viver Sem Preconceitos nas Redes Sociais
![]()
![]()
![]()
Curta, comente, compartilhe…
Vamos fazer do mundo um lugar melhor para se viver,
um lugar com menos preconceitos!
O Portal Viver Sem Preconceitos autoriza a reprodução de seus conteúdos -total ou parcial- desde que citada a fonte e da notificação por escrito.
Para o uso de matérias e conteúdos de terceiros publicados aqui, deve-se observar as regras propostas por eles.