Preconceito cultural no cinema
Eu sei que o tempo agora é de comemorar a grande vitória do filme “O agente secreto”, no Globo de Ouro, que é o assunto do meu próximo Pílulas VSP e que você vai ver ainda nessa semana, lá no Instagram. Mas hoje preciso falar do que aconteceu antes, um caso que mostra o preconceito cultural infiltrado no cinema
Por Ana Beatriz Carvalho*
A 31a edição da premiação cinematográfica Critics Choice Awards ocorreu ocorreu neste domingo, 4 de janeiro. Grandes produções de 2025 foram premiadas, como o filme ‘Pecadores’, a série ‘Adolescência’ e o longa brasileiro ‘Agente-Secreto’.
No entanto, embora uma vitória para o nosso título devesse trazer celebração, a cena pintada pelos apresentadores americanos gerou sentimento de revolta, vergonha e indignação no público.
O filme dirigido por Kleber Mendonça Filho é um drama político que acompanha Marcelo, interpretado por Wagner Moura, buscando paz em meio à um Brasil tomado pela ditadura militar e um passado violento que insiste em persegui-lo.
Muito bem avaliado pela crítica, o longa foi indicado ao evento estadunidense na categoria de ‘Melhor Filme Internacional’. As expectativas estavam altas, o público brasileiro estava fervoroso e a cerimônia foi… uma catástrofe.
Durante o tapete vermelho, enquanto Kleber concedia uma entrevista ao lado da produtora Emilie Lesclaux, a vitória lhes foi anunciada ciada em meio à perguntas apressadas, deixando o diretor em completa confusão. Sem dar tempo para comemorarem ou sequer agradecerem, a apresentadora emendou outro assunto e o tópico foi cortado bruscamente.
Uma cena dessa não pode ser resumida com nada além de: desrespeito.
Não é segredo para ninguém que produções brasileiras não ocupam grandes lugares de destaque mundo afora.
No início de 2025, a conquista do Oscar por “Ainda Estou Aqui” trouxe os holofotes do mundo na nossa direção, fazendo acreditar que talvez as coisas fossem mudar. Mas não, ainda estamos longe disso…
A indústria cinematográfica é dominada pelos Estados Unidos, Hollywood sendo seu centro global. Inegavelmente, os ideais e valores implementados nos filmes vão derivar do seu polo de produção.
Ou seja, filmes americanos terão a visão dominante do país. Caso contrário, não receberão investimento e, consequentemente, não terão verba para produzir e lançar.
A maioria destas premiações de grande visibilidade é norte-americana. Oscar, Grammy, Emmy, Critics Choice Awards são exemplos.
O problema não reside na concentração unitária, e sim na falta de representatividade que consegue se infiltrar e insiste em perdurar.
A divisão das categorias segue uma lógica um tanto quanto preconceituosa. O prêmio mais importante da noite, ‘Melhor Produção’, consiste majoritariamente de obras hollywoodianas Todos os outros que e não não são produzidos pelos Estados Unidos são colocados juntos nos “Filmes Estrangeiros”, como se dizendo que os outros países não tivessem produções dignas de categorias grandiosas e não nichadas na sua nacionalidade.
E, sabemos que os Estados Unidos são um país não tão amável com os estrangeiros. Embora os estrar 14% da sua população total seja de imigrantes, o governo recente tem limitado cada vez mais sua abertura para aqueles que não são americanos
A xenofobia, embora às vezes gritante, manifesta-se também silenciosamente, quase imperceptível.
Para o Brasil, um país sul-americano, é difícil conquistar espaços em territórios com mentalidade de um colonialismo ultrapassado. Ganhar destaque exige muito mais do que só boa qualidade.
A recente cena de Kleber não se resume a um mal planejamento ou uma organização confusa acerca de critérios em uma premiação. Este momento é uma amostra do que a cultura brasileira sofre, sendo subjugada e descartada como se não tivesse muito a oferecer.
Uma hierarquia implícita foi escancarada. Tudo aquilo que diz respeito aos Estados Unidos mereceu tempo de tela, direito a discurso e aplauso do público. Já nós? Ah, só entregar o troféu e seguir em frente. Quase como se estivessem nos fazendo um favor ao reconhecer que temos coisa de qualidade a oferecer, um aceno só para não ficar mídia.
É inclusive curioso explicitar que o filme foi colocado em uma posição de importância secundária, pois a categoria celebra justamente o cinema internacional. Ainda assim, aparentemente há uma pré-seleção de qual internacionalidade deve ser comemorada.
A vitória foi esvaziada simbolicamente, quase como se não tivesse nem existido. Deveria ser direito básico de todos aqueles que vencem, terem seu momento de prestígio e agradecimento.
Mesmo assim, Wagner Moura não deixou a noite terminar com o sabor amargo da injustiça.
Embora não tenham tido tempo no palco para receberem seu prêmio, o ator e diretor foram chamados posteriormente para anunciar o vencedor da categoria ‘Melhor Filme’.
Kleber aproveitou o momento para agradecer à associação de críticos pela vitória de seu filme, mesmo que não fosse o destaque merecido. E então, antes de revelarem a vitória de ‘Uma Batalha Após a Outra’, Wagner correu para fazer um esperto trocadilho, dizendo que no Brasil esta categoria é chamada de ‘Melhor Filme Estrangeiro’.
Com um simples comentário, o ator fez uma crítica quanto à relatividade dos conceitos, trouxe perspectiva para a situação.
Enquanto o filme estrangeiro a vencer não recebe tanta atenção, o ‘Melhor Filme’ garante seu espaço. A fala de Wagner serve para mostrar que para nós brasileiros e tantos outros países com representatividade limitada, o momento de tanto aguardo equivale à categoria que eles nem se dão ao trabalho de ligar, porque não nos vemos nela.
Cabe constatar que dos 10 indicados, apenas 1 é de produção não americana, o longa norueguês ‘Sentimental Value’. E mesmo este foi co-distribuído pela Neon, indústria estadunidense.
Curioso que todos os eleitos para a categoria mais importante da noite tenham envolvimento americano, né? Não me parece tão justo… e nem para Wagner Moura.
O sentimento que fica após esta conturbada noite é de que não importa o quanto nos esforcemos, o preconceito e as desvantagens ainda falam mais alto. Mas nossa cultura é forte e nosso povo não aceita desaforo de boca fechada. Um dia, estas premiações vão estar repletas da mais linda diversidade. Eu pago para ver.
*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Sapata foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Ana Beatriz Carvalho
Estagiária VSP

Ana Beatriz Carvalho Sapata estuda Comunicação Social na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Durante o estágio da estudante no Portal Viver Sem Preconceitos, sua atenção estará voltada a tudo que se refere ao conceito da diversidade e ao apoio das causas que combatem os preconceitos. Conheça mais sobre Ana Bia, acessando o LinkedIn. Esse estágio é supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira.
Foto: Cena do filme “O agente secreto”, por Victor Jucá/Divulgação

Siga o Viver Sem Preconceitos nas Redes Sociais
![]()
![]()
![]()
Curta, comente, compartilhe…
Vamos fazer do mundo um lugar melhor para se viver,
um lugar com menos preconceitos!
O Portal Viver Sem Preconceitos autoriza a reprodução de seus conteúdos -total ou parcial- desde que citada a fonte e da notificação por escrito.
Para o uso de matérias e conteúdos de terceiros publicados aqui, deve-se observar as regras propostas por eles.