O povo africano e seu legado na música
Do blues ao samba: movimento e resiliência da cultura afrodescendente na música
Por Renata Juliotti*
É impossível contar a história da música contemporânea sem falar de navios negreiros, senzalas, favelas – e dos homens e mulheres negras que cantaram, compuseram e mantiveram vivo esse fio de memória. O que hoje chamamos de blues, jazz, samba, folk music e até rock’n’roll nasce, em grande medida, de uma mesma raiz: a experiência traumática, mas profundamente criativa, de povos africanos escravizados e de seus descendentes nas Américas. A diáspora não levou apenas corpos para o outro lado do oceano; levou ritmos, escalas, cosmologias e uma forma de entender a música como força coletiva de sobrevivência, resistência política e afirmação de dignidade.
Nas plantações do sul dos Estados Unidos, pessoas escravizadas entoavam work songs e spirituals para sincronizar o trabalho forçado, se comunicar sem serem plenamente entendidas pelos senhores e manter laços comunitários. Dessa mistura de dor, fé e linguagem cifrada nasce o blues: uma música baseada na repetição, nas “blue notes” que entortam a escala europeia, na voz que não narra só uma história individual, mas o lamento de todo um povo. Mulheres como Ma Rainey e Bessie Smith transformaram esse lamento em potência, abrindo caminho para que a voz feminina negra fosse não só ouvida, mas temida pelo que denunciava em suas letras sobre violência, pobreza e racismo.
O jazz surge quando esse repertório afrodescendente encontra as cidades, especialmente Nova Orleans, no fim do século XIX e início do XX. Ali, ex-escravizados e seus descendentes misturam spirituals, blues, fanfarras militares e harmonias europeias para criar algo radicalmente novo. A improvisação do jazz – um músico respondendo ao outro, em tempo real – é uma reedição sofisticada da chamada e resposta africana. E de novo, as mulheres estão no centro: Billie Holiday, por exemplo, eterniza “Strange Fruit”, denúncia poética e brutal dos linchamentos de pessoas negras no sul dos EUA. Nina Simone transforma o piano em arma política, fazendo da música trilha do movimento pelos direitos civis. Não é entretenimento neutro: é intervenção.
É justamente dessa junção de blues, gospel e rhythm & blues – todos profundamente negros – que nasce o rock’n’roll. E é preciso dizer sem rodeios: o rock’n’roll não nasceu branco, ele nasceu negro. Antes de Elvis Presley, já havia Sister Rosetta Tharpe, frequentemente chamada de “mãe do rock”. Uma mulher negra, guitarrista virtuosa, que misturava gospel, distorção, solos rápidos e performances incendiárias muito antes do mainstream reconhecer esse som como “rock”. Big Mama Thornton, uma das grandes inspirações de Elvis, gravou “Hound Dog”, antes da canção ser eternizada na voz de um homem branco. Essa genealogia feminina e negra do rock raramente aparece nos livros de história da música, mas é ela que sustenta o gênero desde a base.
No Brasil, a história segue roteiro semelhante, com sotaques próprios. Nas senzalas e nos portos, africanos escravizados preservaram batuques, lundus, jongo e cantos de terreiro, frequentemente perseguidos pelas autoridades. A batida do samba nasce desse caldo: dos terreiros de candomblé, dos quintais das tias baianas no Rio de Janeiro, dos encontros noturnos em que corpos exaustos dançavam e cantavam o que não podiam dizer na “cidade oficial”. Entre essas mulheres, figuras como Tia Ciata são fundamentais: foi em sua casa que o samba urbano carioca se consolidou, mesmo sob repressão policial. Depois, compositoras como Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra e, mais tarde, Elza Soares levaram o samba a outro patamar de refinamento e denúncia, colocando o racismo, a fome e a violência de Estado no centro da canção.
Essas conexões musicais não são apenas estética – embora baste ouvir para perceber semelhanças: síncopes, uso expressivo da voz, diálogo entre corpo e instrumento, a tendência a transformar dor em beleza. A conexão é política e profundamente marcada pelo protagonismo de mulheres negras. Em todos esses gêneros, a música funciona como aquilo que, muitas vezes, a lei e as instituições negam: espaço de fala, de denúncia, de elaboração do trauma, de construção de comunidade.
Quando um samba-enredo exalta heroínas negras apagadas dos livros, quando uma cantora de blues narra um linchamento, quando uma jazzista improvisa como quem rompe grilhões harmônicos, quando uma roqueira negra distorce a guitarra e grita contra a violência policial, elas compõem uma mesma partitura de luta social. A escravidão tentou desumanizar povos inteiros, transformando vidas em propriedade. A música afrodescendente, com homens e mulheres firmes na linha de frente, devolveu humanidade em meio às notas musicais.
Hoje, playlists digitais e algoritmos costumam apagar essas genealogias. Consumimos jazz como música “sofisticada”, samba como entretenimento de carnaval, rock como rebeldia “universal”, folk como trilha “alternativa” – e esquecemos que tudo isso se ergue sobre séculos de resistência negra. Reconhecer essa influência não é apenas fazer justiça cultural: é entender que a luta contra o racismo e o sexismo também passa por devolver crédito, voz e poder a quem transformou gritos de dor em harmonias que o mundo inteiro canta.
Enquanto houver desigualdade, essa tradição afrodescendente – feminina, negra, resistente – continuará nos lembrando que a música é muito mais do que entretenimento. É memória, denúncia e horizonte de liberdade.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Renata Juliotti
Colunista VSP

Especialista em Direitos Humanos, Comunicação Inclusiva e Desenvolvimento Social. Secretária executiva do Stakeholder Group de Afrodescendentes da ONU e fundadora da Inclusive Agency, atua com indicadores de inclusão, justiça e reparação da população com deficiência. Doutoranda em comunicação e educação humanitária, dedica-se à pesquisa sobre gênero, juventude, raça, deficiência e equidade intergeracional.
Foto: Dona Ivone Lara/Acervo Dona Ivone Lara

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