Doce imaginário infantil

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Um dedo de prosa com a nostalgia e o que podemos aprender com o passado… mesmo que recente

Por Ana Beatriz Carvalho*

Me chamo Ana Beatriz, tenho 18 anos. Nascida e criada em São Paulo, Brasil.

Esse último fato faz de mim uma inegável brasileira. O que significa que o primeiro idioma que ouvi e aprendi foi o português. Minha primeira palavra provavelmente foi “mamãe” (ou “Nildo”, o nome do nosso cachorrinho da época). Significa, também, que todo o ideal de cultura e criação que recebi assim que fui posta nesse mundo correspondem à bandeira verde e amarela.

Lá pelos meus 12 anos, odiava meu nome. O achava ‘brasileiro’ demais. Não escutava músicas em português. Ariana Grande, Justin Bieber e Shawn Mendes não deixavam espaço para Bethânia, Djavan, Gal. Só lia livros que se passavam em território estrangeiro, escrito por autores internacionais. Cinema americano era o máximo, agora o brasileiro… eca, só desgraça e palavrão. 

Eu e minhas duas possíveis primeiras palavras: “mamãe” (a moça de roxo) e “Nildo” (a criatura peluda). Atrás de todos nós está meu pai.

O lance é que eu impunha todas estas medidas vira-latas enquanto caminhava pelas calçadas esburacadas da minha caótica São Paulo todos os dias. Negava minhas origens enquanto amassava um pratão de feijoada ao som de um delicioso sambinha aos domingos. Revirava os olhos para o meu país enquanto não sabia falar um “a” em inglês. Garota fingida.

Mesmo com essa época de revolta juvenil, guardo com carinho na memória os primeiros anos da minha existência na Terra, fase também conhecida como infância.

Fui uma criança muito alegre. E muito brasileira.

Neta primogênita de uma avó professora de escola pública, fui absurdamente mimada. Mas não só com carinho, amor, beijinhos e doces. O diferencial aqui eram os livros.

Pedro Bandeira, Ziraldo, Maurício de Souza, Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Ana Maria Machado… 

Espalhados na escadinha de madeira que dava para a banheira, ficava o oásis da literatura infantil. 

Toda sexta a rotina era a mesma: preparava minha malinha e me aprontava para passar o final de semana todo no paraíso da Vovó Mila. Chegando no pequeno apartamento no terceiro andar, largava meus pertences na poltrona e corria para o esconderijo, só para checar se algum novo exemplar havia chegado.

Depois de fazer bolos, pães e bolachas, brincar com os imãs na geladeira e escrever recados ilegíveis no quadro de canetões, chegava a hora da cama. Mas se engana quem pensa que isso significava o fim da diversão.

A melhor parte estava apenas prestes a começar.

Depois de mergulhar debaixo das cinco camadas de edredon -sem exagero algum. Sim, sei que vivemos em um país tropical, mas a casa da vovó sempre foi assustadoramente fria-, minha avó chegava com os selecionados para a noite.

Uma pilha de uns 6/7 livros eram entregues à mini Aninha. Eu analisava obra por obra. Observava a capa, folheava as páginas. Sentia o cheiro, o peso, às vezes até o gosto. Depois, escolhia uma. Me deitava de bruços, cruzava as pernas e me punha a ler.

Vovó saía do banho, fazia alguma gracinha, se deitava do meu lado e pegava um dos livros para ler para mim. Interpretava os personagens, fazia diferentes vozes e tons, se remexia toda. Eu ria, ria e ria até pegar no sono e adormecer cercada de palavras e amor.

Esse precoce contato com o universo literário acendeu em mim o luminoso sonho de ser escritora. Passei a não somente devorar as obras, como também a produzir algumas. Totalmente manuais e autorais, dobrava folhas sulfite, coloria páginas e preenchia linhas traçadas com a régua de contos repletos de magia, princesas e finais felizes.

Todos os livros que líamos juntas eram de autores brasileiros. Quando comecei a escrever minhas historinhas, elas se passavam em solo nacional, os personagens falavam português e a realidade era um espelho daqueles que estavam ao meu redor.

Eu e minha sempre amada vovó Miriam

Essa criação fundamentou em mim um imaginário inegavelmente brasileiro, uma base mental e criativa que ressoava com minhas origens e raízes. 

Mas isso não para nos livros não.

Meu avô Francisco tinha uma casa na praia de Caraguatatuba. Vários quartos, piscina com toboágua, churrasqueira e garantia de família reunida. Não preciso descrever muito mais para ficar fácil deduzir que esse lugar era um pedacinho do paraíso na Terra.

Mas o que acho curioso é que só fui catalogá-lo como ‘meu lugar favorito no mundo todo’ depois de bem mais velha. Quando pequenina, minha única preocupação era me divertir. Amava as viagens à praia, mas a serenidade da infância me impedia de absorver a magnitude completa da situação.

Hoje, quando penso em Caraguá, Capital Inicial, Jotaquest, Legião Urbana e Djavan começam a ecoar no fundo dos meus ouvidos. O motivo? Estes são os cantores favoritos dos meus pais.

Nas longas horas passadas no carro à caminho da faixa de areia, eram as canções deles que escutávamos. Sei várias de cor e nem sei te dizer quando foi que decorei.

De volta à cidade grande, quando penso no meu dia a dia quando criança, me vem dois assuntos completamente aleatórios e nada interligados: Dolly Guaraná e novelas da Globo.

Por algum motivo, desenvolvi uma obsessão maluca pelo Dolly. Não sei se era a cara fofinha, a música chiclete ou o comercial que passava sem parar, mas só pensava nele. 

“Dolly, Dolly Guaraná Dolly, o melhor! Dolly Guaraná, o sabor brasileiro…”

Meu objetivo de vida era comprar uma garrafa de Dolly e desenhar um rostinho para ficar igual o da TV (spoiler: eu nunca gostei de refrigerante).

Junto com o fanatismo pela bebida gaseificada falante, veio meu amor incondicional por Cheias de Charme. A novela lançada em 2012 conquistou o coração da Aninha de 6 anos de um jeito nunca visto antes. Escrevia cartas para a emissora, me fantasiava das personagens, não perdia um capítulo sequer.

Os livros, as músicas, os programas, tudo o que me cercava era daqui. 

Estes elementos todos são apenas fragmentos da rotina de uma criança que vivia e apreciava o que tinha ao seu redor. Digo com uma alegria imensurável que minha infância todinha foi assim.

Hoje, quando lembro desses anos, sou inundada por uma turbulenta onda de nostalgia. O carinho atrelado às memórias excede a simplicidade do saudosismo infantil. A intensidade das emoções diz respeito a um orgulho de ter sido uma criancinha que vestia a camisa verde e amarela e sonhava em tornar o Brasil um lugar melhor.

Óbvio que ao crescermos, nossos horizontes e objetivos se transformam. Não desejo em grau nenhum ser uma mulher de 18 anos com a mentalidade da garotinha que fui aos 5.

Mas há uma beleza intrínseca em todos estes recortes de assumir sua verdade e ser feliz nela. Quando penso nessa época, os melhores dos sentimentos vêm à tona. Eu amava meu país, mesmo que não entendesse sua complexidade e eventuais problemas.

Me sinto triste por parte desse carinho ter se perdido ao longo do tempo. Não gosto de ter substituído meus amados autores nacionais por outros americanos de nomes quase impronunciáveis. Gosto menos ainda de ter largado mão da mais bela MPB pois achava que poesia soava melhor em inglês. 

Eu e minhas leituras

Mas a vida é composta de erros e acertos, né? Por sorte temos um bocado de tempo para cair e levantar.

Agora consigo entender que um equilíbrio soa bem. Claro que vou apreciar o que vem de fora, há beleza em todos os cantos. Mas jamais vou ignorar o que é produzido aqui. Negar os meus semelhantes é torcer para meu próprio fracasso. Se eu não apoio os que estão fazendo o mesmo que eu, como posso querer que alguém volte o olhar para mim? 

No fim das contas, temos sim muito o que aprender com nosso ‘eu do passado’. 

Espero me parecer cada vez mais com a Ana Bia que passava as tardes lendo Maurício de Souza.

*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Sapata foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Foto: Arquivo Pessoal

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