Psicologia Racializada

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Porquê a psicologia tradicional precisa reconhecer o racismo como produtor de adoecimento psíquico que mata a população negra

Por Fabiana Conceição*

Cada vez mais, nos grupos de pessoas negras que participo, tenho visto crescer a busca por profissionais de psicologia que sejam negros e negras. Amigas de outros marcadores também vêm nessa busca por terapeutas que compreendam os efeitos do capacitismo, da homofobia e da transfobia, por exemplo. Essa busca parte da necessidade de ter um cuidado mental que reconheça os atravessamentos que marcam a vida de pessoas pertencentes a grupos sub-representados.

Muitas já viveram na terapia experiências em que profissionais trataram as violências estruturais como questão individual de autoestima. Ou até responsabilizaram a própria pessoa por não se adaptar a ambientes opressores. O espaço que deveria acolher e auxiliar na cura acaba por repetir a mesma invisibilização que já acontece fora dele.

Pesquisas mostram que o trauma da escravidão e da colonização não terminou com a abolição. Ele se reatualiza geração após geração, alimentado pelo racismo estrutural, e se expressa na desconfiança em relação às instituições, na dificuldade de sustentar a autoestima e no estado de alerta permanente.

Frantz Fanon, psiquiatra e pensador anticolonial, mostrou como a ideia de inferioridade imposta pelo racismo se infiltra na identidade, mina a autoestima e transforma o corpo negro em alvo constante de olhares e violências. Para ele, não faz sentido tratar apenas sintomas enquanto a estrutura que produz o adoecimento permanece intacta.

Neuza Santos, no livro Tornar-se Negro, critica o que chama de neutralidade branca da psicanálise. Para ela, quando a clínica se diz universal, mas é construída a partir da experiência branca, acaba naturalizando o racismo. O consultório, que deveria ser um espaço de cuidado e compreensão da dor, repete a exclusão que a pessoa negra já vive na sociedade. Neuza apontou que terapeutas precisam reconhecer a dimensão política do sofrimento, validar as humilhações raciais e incluir referências culturais negras no processo terapêutico, para que a cura não fique restrita ao indivíduo, mas se conecte ao pertencimento e à reconstrução identitária.

Essa herança racista e a ausência de um espaço de escuta racializada aparece nos dados sobre a saúde da população negra no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, pessoas negras de 10 a 29 anos são as que mais sofrem, principalmente as do sexo masculino, cuja chance de tirar a vida é 50% maior do que entre pessoas brancas da mesma faixa etária. O índice de suicídio entre adolescentes e jovens negros é 45% maior e o risco aumentou 12% nos últimos anos, enquanto permaneceu estável entre pessoas brancas.

O racismo é também uma violência também psíquica, que marca identidades, humilha, silencia e amedronta. Falar em saúde mental sem considerar essas relações de poder esvazia o próprio conceito de cuidado.

Mais do que campanhas amplas sobre saúde mental, precisamos de políticas públicas que fortaleçam a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, formem profissionais com base antirracista, garantam a presença de psicólogas e psicanalistas negras nos serviços de saúde e ampliem programas de cuidado que alcancem especialmente as juventudes negras, as maiores vítimas, com ações que protejam a vida e fortaleçam a saúde mental coletiva.

Por tudo isso, é essencial que a sociedade e a psicologia tradicional reconheçam que o racismo integra o adoecimento psíquico, acionando ansiedade, depressão e risco de suicídio em crianças, jovens e adultos negros. Pertencimento, afeto e redes precisam ser compreendidos como base da vida. A saúde mental se fortalece quando há laços vivos, escuta qualificada,racializada e equitativa, além de políticas públicas que tratem o racismo como determinante do sofrimento e o enfrentem como base permanente do cuidado, capaz de proteger a vida negra em toda a sua complexidade.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Freepik

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