Felicidade tem nome: Lola

Felicidade tem nome: Lola
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Hoje, tomo a liberdade de colocar um texto que não é literal no combate aos preconceitos, por outro lado, lembro que o amar é uma forma de combate aos preconceitos, principalmente quando falamos do amor por uma vida diferente da sua, quando exaltamos que esse amor é maior do que o seu, que esse amor te ensina, que esse amor faz de você alguém melhor… esse texto fala de amor!

Por Cleber Siqueira

Eu achei que fosse demorar muito mais até encontrar forças para escrever, mas eu preciso. Escrever sobre ela me alivia.

Está muito difícil. Tudo me faz lembra-la: o cantinho dela na sala, o lugar onde dela dormiu por quase 14 anos; o fato de sair de casa e ter que me preocupar com ela, o chegar em casa e ser recebido com festa; pensar numa comida e saber que ela gostaria de comer também (fosse qual fosse a comida, salgada, pipoca, doce, frutas, legumes… qualquer coisa, até balas e amendoins), isso sem falar da bolacha de maisena que a Odete era obrigada a dar todo santo dia assim que chegava do trabalho; assim como todo dia eu só ia dormir depois de me certificar de que ela já estava dormindo; o acordar de manhã e ser recebido por aqueles olhinhos tão grandes, ela sorria pra mim e aquele olhar me abraçava.

É triste agora andar pela casa e me deparar com objetos ligados a ela: a caminha e seus cobertores, o pote de água, da comida, os brinquedos, a caixa embaixo da pia onde ficavam seus medicamentos, coleira, guia. Que saudade dos horários do “tutti” matinal, do almoço, do jantar, do passeio, dos remédios, de quando ela se escondia atrás da cortina ou embaixo do cobertor; de quando se deitava na minha barriga ou da Gabriela ou do Lucas, saudade do barrigão que eu fazia na minha gordinha….
…. e quando eu consigo “fugir” de tudo isso… eu sinto o cheiro dela pela casa, ouço suas patinhas… e isso eu não aguento e desabo, desmonto!

Pode até ser que alguém diga, “poxa, tudo isso só por causa de um cachorro?”. Para mim, não! A Lola não era apenas minha “cãzinha”. A Lola é algo indecifrável… talvez decifrável apenas no mundo dos cães. Portadora de um amor incondicional que nós humanos desconhecemos, foi minha cúmplice, minha parceira, minha amiga por quase 14 anos. Em todos os dias e em todas as horas em que escrevi meu livro, ou ela estava deitada ao lado da minha cadeira ou no meu colo; quando eu saia de casa, ela uivava…. se eu ficava em casa, ela ficava me procurando em todos os cômodos, e quando eu menos esperava lá estava ela no meu encalço, fosse na parte de cima ou na parte de baixo da casa, e quando ela ficou doente da coluna e não subia mais, passou a ficar no pé da escada sempre que eu ia para parte de cima da casa… era minha sombra… ou como eu dizia pra ela, minha “dupla de dois”… minha princesa cã, meu amorzinho.

A Lola era diferente. Ela não chorava, ou como dizíamos em casa: “ela não ‘reclamava’ de nada”. Inclusive mesmo quando acidentalmente alguém pisava na patinha dela, ela ficava em silêncio. Em quase 14 anos ouvimos apenas 3 ou 4 grunhidos de dor emitidos por ela. Ela era extremamente boazinha, dócil, amável e carinhosa; se fosse pela vontade dela, ela ficaria 12 horas grudada em nós e as outras 12 horas dormindo, porque dormir também era com ela.

Eu sempre dizia a Deus que gostaria que Ele deixasse a Lola viver por mais muitos e muitos anos com a gente, mas que antes de qualquer coisa que ela nunca sofresse. Ela sempre foi tão boa e generosa que por menor que fosse o sofrimento dela, já seria demais pra ela. Entre perceber que havia algo errado, fazer os exames e ela partir, foram 5 dias, sendo que se houve algum sofrimento foram apenas os últimos minutos quando o coraçãozinho dela já não aguentava mais e queria parar. No dia 08/07, às 11h30, enquanto estávamos abraçados eu, ela e Gabi, ela fechou os olhinhos para descansar e da forma como eu sempre pedi a Deus, ela partiu: calma, sem dor, abraçada a mim, dormindo e… de forma natural.

Esses dias estão sendo muito tristes para mim e para todos da minha família, mas também são dias de reflexão e de agradecimento por ter tido a oportunidade de viver por quase 14 anos com um ser tão iluminado e grandioso e que nos ensinou como poucos. A Lola nasceu, cresceu e viveu junto aos meus filhos, ela viu a mim e a Odete envelhecermos, ela é parte da nossa vida… ela faz parte da nossa família.

Ela falava comigo, nós aprendemos a nos comunicar e ela sabia me fazer feliz, aliás, não tenho dúvida alguma de que ela entrou na nossa vida para encher nossos dias de felicidade… e ela conseguiu! E é por isso que o vazio que fica na casa agora, transborda das melhores lembranças.

A partida da Lola me deixa a certeza absoluta que esses seres passam em nossas vidas para nos ensinar o que é o amor, deixam o legado de uma vida baseada no que é amar, porque mais do que viver do nosso amor, eles vivem para nos amar.

Lolita, você foi um presente abençoado que Deus nos deu e agora sou eu que vou viver para te amar, porque eu sinto que por mais que eu saiba que tenha feito tudo por você, eu jamais estive à sua altura.

Obrigado por levar felicidade à nossa (a sua) casa…
Te amarei para sempre, Lola!

Fotos: Lola
Acesse o link aqui e saiba mais sobre a Lola

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Cleber Siqueira

Cleber Siqueira

Jornalista, é autor do livro "Fernando, o menino sem dedos". Fundador e editor do Portal Viver Sem Preconceitos, tem pós-graduação em Sociopsicologia. Sua monografia, intitulada "Homossexualidade, o amor às chamas: um breve ensaio sobre o preconceito", faz uma análise entre a literatura específica e a vida real da população homossexual no início dos anos 2000.

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