“Beleza” como arma política
A luta secular da mulher por sua liberdade e independência, e a beleza como uma arma política que controla o corpo feminino
Por Ana Beatriz Sapata*
Não tem como negar que vivemos em um mundo machista. A desigualdade salarial, representatividade limitada, violência de gênero, objetificação da mulher, discriminação no mercado de trabalho e assédio sexual são apenas algumas das circunstâncias já banalizadas nos dias de hoje que afetam a vida das mulheres diariamente.
No entanto, todo tipo de discriminação é uma construção social e para que preconceitos perdurem, suas raízes têm de estar internalizadas no inconsciente das pessoas. E essa é uma das armas do machismo.
Ao enfrentar uma forma de repressão, o grupo reprimido desenvolve ideias para se libertar das amarras que foram forçadas sobre sua existência.
Com as mulheres, a mesma lógica se aplicou. A questão feminina representa uma luta antiga, repleta de idas e vindas.
O primeiro grande movimento de reivindicação por direitos, conhecido como Primeira Onda Feminista, se deu no final do século XIX, início do XX, lutando pelo direito de voto. No entanto, até meados de 1950, a mulher não era vista como nada muito além de uma dona de casa.
É claro que a histrória nos reserva alguns exemplos fora da curva, como Amelia Earhart, a primeira mulher a voar sozinha sobre o Oceano Atlântico; Simone de Beauvoir, filósofa e escritora francesa ou Frida Kahlo, pintora surrealista mexicana. Mas para a maior parte da população feminina, sonhar com uma carreira era inviável.
Porém, os anos 60, motivados pela tragédia da Segunda Guerra, trouxeram consigo o espírito de revolta contra as imposições sociais. Incorporando o desejo por mudança, as mulheres se uniram e levaram a frente a Segunda Onda Feminista, colocando em cheque as visões ultrapassadas de submissão que dominavam a sociedade ocidental.
No que parecia um momento crucial, uma virada de chave, um curioso movimento aconteceu. Os padrões de beleza, já bastante rígidos, foram extremamente intensificados. Uma imagem de extrema magreza passou a ser valorizada, a criação de um corpo ideal impossível de ser atingido.
O exemplo do que passou a ser entendido como “belo” neste período é a britânica Twiggy, considerada a primeira supermodelo do mundo. Os olhos grandes, cabelo curtinho, corpo esguio e minissaia representam perfeitamente o que queria ser vendido como a “mulher moderna”, uma nova tentativa de distração disfarçada sob o pretexto de emancipação.
Assim como dito por Ingrid Gerolimich, socióloga, psicanalista e autora do documentário “Explante”: “A beleza da mulher vai muito além de um aspecto pessoal da vaidade, como muitos querem acreditar. A mesma sociedade que vai execrá-la e chamá-la de fútil por perseguir padrões estéticos é a que cobra dela tais padrões, afinal, a beleza determina uma série de espaços que a mulher ocupa.”
Com a instalação de um novo ideal, uma nova pressão foi estabelecida. Não coincidentemente, foi no início desse período, especificamente em 1959, que a boneca Barbie foi criada.
Embora a criação tenha revolucionado o mercado de brinquedos e possibilitado às crianças uma nova forma de alimentar a imaginação, carrega consigo também uma forte relação com as tradições.
O corpo da boneca é construído sob “medidas dos sonhos”, completamente intangíveis, baseadas em estrelas hollywoodianas como Marilyn Monroe. São, assim, um lembrete prático do “corpo ideal”, fazendo com que garotinhas, desde novas, tentassem atingir uma forma impossível, destinando sua energia e preocupação para um objetivo irreal, consecutivamente, se frustrando.
Dessa forma, é possível perceber que simultaneamente ao maior ganho de espaço, voz e liberdade, eram desenvolvidos de maneira não tão explícita, pesos para serem colocados sobre seus ombros.
Logo quando estas conseguiram embarcar no mercado de trabalho, sua atenção foi obrigada a ser dividida. Sim, elas teriam de focar em suas carreiras. Mas não poderiam deixar suas aparências de lado, seria desleixado demais.
Agora que conseguiram sua tão sonhada independência, que não dependiam mais dos homens para se sustentar e trabalhavam lado a lado com eles, a real igualdade, temida por aqueles que controlam a sociedade, estava preocupantemente próxima. Isso colocava o sistema em risco. Por isso, desenvolveram uma estratégia política: redirecionar a atenção feminina, mudar seu foco.
Claramente, seria impossível forçar as mulheres a voltarem atrás, além de deixar estupidamente nítido a tentativa desesperada de salvar o patriarcado. Tentar se infiltrar na mente delas, impondo ainda mais preocupações indispensáveis, soou como o plano perfeito.
Apertar o regime de beleza não passa de uma forma baixa, mas eficaz, de repressão. Ao mesmo tempo em que um importante espaço foi conquistado, mais dinheiro e tempo tem de ser gastos na tentativa fadada ao fracasso de atingir padrões estéticos impossíveis. Ou seja, não permitem que a mulher se concentre totalmente no que deseja pois, incessantemente, tem vozes impondo ordens nos seus ouvidos.
A barra tem que estar alta, afinal, quanto mais difícil de atingir, mais esforço tem de ser colocado e, quanto mais as mulheres dedicarem à sua aparência, menos tempo terão para dedicar ao seu trabalho. Nada passa de uma questão política de distração e manutenção de modelos repressores.
*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Sapata foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Ana Beatriz Sapata
Estagiária VSP
Ana Beatriz Sapata estuda Comunicação Social na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Durante o estágio da estudante no Portal Viver Sem Preconceitos, sua atenção estará voltada a tudo que se refere ao conceito da diversidade e ao apoio das causas que combatem os preconceitos. Seu estágio é supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira.
Foto: Reprodução Internet

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