Racismo Ambiental

Você sabe o que é?
“Chamamos de Racismo Ambiental às injustiças sociais e ambientais que recaem de forma implacável sobre grupos étnicos vulnerabilizados e sobre outras comunidades, discriminadas por sua ‘raça’, origem ou cor”.
A definição descrita acima é a que se encontra no portal Racismo Ambiental, criado pela doutora em História, jornalista e mestre em Educação, Tânia Pacheco, porém as razões que nos dão a definição são bem mais claras.
Para levar a vocês o conceito do tema, vale ressaltar que vamos separar em duas partes. A primeira (mais abaixo), explicará os motivos que levaram ao surgimento da expressão, nos Estados Unidos dos anos 1970.
A segunda parte, na sexta-feira, traz as questões do Racismo Ambiental para o Brasil. Mais uma vez tendo como ponto de partida a História e o que ela nos fornece de dados para entendermos as origens do conceito no país.
Tanto as informações de hoje como as da segunda parte foram obtidas e editadas de textos publicados originalmente em: https://racismoambiental.net.br/
Racismo Ambiental – Parte 1
A expressão Racismo Ambiental é atribuída a um reverendo negro, Benjamin Chavis. Ainda adolescente, Chavis havia participado das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. Havia sido preso sob falsas acusações e, liberado, havia lutado ao lado de Martin Luther King. No final da década de 1970, já ordenado pastor, dirigia a Comissão pela Justiça Racial da Igreja Unida de Cristo em Warren County, Carolina do Norte, Estados Unidos.
Por volta de 1978, rejeitos tóxicos em quantidades crescentes começaram a ser depositados em um bairro de Warren. E esse bairro tinha uma especificidade: era habitado por negros.
Durante cerca de quatro anos, seus moradores protestaram inutilmente, enquanto o lixão de rejeitos aumentava. Em 1982, informados de que um carregamento ainda maior de resíduos estava a caminho, eles se deitaram na rota dos caminhões, pretendendo impedir a passagem com seus corpos. Foi em vão: cerca de 500 pessoas foram presas, e os caminhões passaram. Mas eles não foram totalmente derrotados: pela primeira vez, o protesto dos moradores rompeu barreiras e chegou aos meios de comunicação nacionais. A expressão “racismo ambiental” se irradiaria com uma das principais bandeiras de suas lutas, e um novo momento para a luta pelos direitos civis estava começando.
Para a população atingida, o resultado direto da mobilização foi uma promessa do governador da Carolina do Norte de que fecharia de imediato o depósito e determinaria a sua limpeza, o que de fato só terminaria de ser feito no início do século XXI. Mas as notícias sobre o protesto em Warren fizeram com que surgissem outras denúncias de diferentes estados, nas quais uma constatação se repetia: o ônus de receber rejeitos contaminados e indústrias agressivamente poluentes cabia invariavelmente a bairros habitados pela população negra.
A divulgação das novas denúncias levou à ação da EPA, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, e já no ano seguinte, 1983, ela divulgaria dados revoltantes: nos oito estados do sul do país, ¾ dos depósitos de rejeitos estavam concentrados em bairros negros, embora eles correspondessem a apenas 20% dos habitantes da região.
Nos anos subsequentes, a expressão Racismo Ambiental ganhou força entre os movimentos de base negros. Chavis levou adiante pesquisas sobre as denúncias provenientes de outros estados, sempre a partir da Comissão pela Justiça Racial, e em 1987 publicou o livro “Rejeitos tóxicos e raça nos Estados Unidos da América”, no qual evidenciava a amplitude da questão para as comunidades negras de todo o país.
Um novo passo decisivo para a luta contra o Racismo Ambiental aconteceria em outubro de 1991. A Comissão pela Justiça Racial promoveu a primeira Conferência Nacional das Lideranças Ambientalistas de Cor, em Washington, reunindo mais de 650 ativistas de todos os estados do país e, ainda, representantes de Porto Rico, México, Havaí, Chile e das Ilhas Marshall.
Ao longo de três dias, os participantes ampliaram sua visão, e duas importantes assertivas foram estabelecidas: a primeira, que o Racismo Ambiental se apresentava de diversas outras formas para além da contaminação química; a segunda, que seus efeitos ultrapassavam os limites das comunidades negras e atingiam não só povos indígenas, como os nativos do Alasca, mas fazendeiros mexicanos, latinos em geral, asiáticos e outros grupos discriminados, do campo e das cidades.
Ao final da conferência, os delegados firmaram um documento de 17 itens com o título “Princípios da justiça ambiental”. E seria sob essa expressão mais ampla – Justiça Ambiental – que a luta conquistaria a academia e as grandes organizações não-governamentais ambientalistas brancas dos Estados Unidos. Segundo Robert Bullard, um dos participantes da Conferência que se tornaria o grande teórico e divulgador da Justiça Ambiental não só nos Estados Unidos como internacionalmente, as ONGs ambientalistas brancas precisavam ser conquistadas, e elas não eram sensíveis ao debate sobre questões ‘raciais’. Assim, o Racismo Ambiental permaneceria como uma bandeira praticamente restrita aos movimentos sociais e populares, fundamentalmente negros. De certa forma, o próprio conceito já nascia sofrendo os efeitos do racismo.
Para partirmos para a história no Brasil vale frisar que em 1993, Bullard organiza um livro – Confrontando o Racismo Ambiental: vozes das bases –cujo prefácio foi escrito por Benjamin Chavis. O texto defende a importância do combate ao racismo e à injustiça ambiental, não só nos Estados Unidos, mas em todo o planeta, e explicita uma justa preocupação com relação ao Terceiro Mundo. Para Chavis, a tendência seria de que, à medida que a luta nos Estados Unidos fosse bem sucedida, os países pobres se tornassem depositários das grandes cargas de rejeitos tóxicos oriundos de indústrias e de outras atividades poluentes provenientes dos países ricos, como consequência da debilidade de suas legislações.
No Brasil, Justiça e Racismo Ambiental cumpririam percurso inverso. Trazida principalmente por Bullard, a partir da Eco 92, a Justiça Ambiental abriria caminho aos poucos, repetindo o percurso universidades e ONGs, até chegar à criação da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, em 2001. Já o Racismo Ambiental só começaria a ganhar força de fato a partir de 2005 e, novamente, ligado muito mais às lutas das comunidades e movimentos do que às falas e práticas da academia.
Imagem em destaque: Depósito de rejeitos tóxicos
Foto: domínio público