Corpos invisíveis, vidas violadas
O mapa da violência contra mulheres com deficiência e suas interseccionalidades no Brasil
Por Renata Juliotti*
“Nem uma a menos — e com acessibilidade.” Essa é a urgência de um país onde o silêncio ainda é cúmplice — e onde o corpo da mulher negra, indígena, trans e com deficiência continua sendo o primeiro alvo da violência.
-Uma epidemia silenciosa-
Mulheres com deficiência têm duas a três vezes mais chances de sofrer violência física, sexual ou psicológica do que outras mulheres, segundo a ONU Mulheres e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mas, no Brasil, esse dado é apenas o início de uma epidemia silenciosa:
● 63,6% das vítimas de feminicídio em 2024 eram mulheres negras, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.
● 64% dos crimes ocorreram dentro de casa.
● Em notificações de violência contra pessoas com deficiência, a maioria das vítimas são mulheres, geralmente agredidas repetidamente por pessoas próximas.
E há um dado ainda mais cruel: a falta de dados desagregados. Sem estatísticas que cruzem raça, deficiência, idade, identidade de gênero e território, milhões de mulheres simplesmente desaparecem dos registros — e, portanto, das políticas públicas. A violência institucional é quando a mulher com deficiência precisa pedir favor para ser ouvida. É quando o Estado a silencia.
-Quando o Estado também é agressor-
A violência de Estado não é apenas o tiro da polícia: é o conjunto de omissões e práticas institucionais que produzem morte, dor e exclusão.
Em 2024, 82% das mortes por intervenção policial foram de pessoas negras, revela o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A violência estatal atravessa também os corpos das mulheres, nas abordagens racistas, nos hospitais sem intérpretes, nas delegacias sem rampas e nas audiências onde a palavra de uma mulher com deficiência vale menos.
Nos hospitais, a violência obstétrica é outra forma de tortura invisível. Pesquisa da Fiocruz (2025) mostrou que 65% das mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência no parto, como humilhações, cesáreas forçadas ou procedimentos sem consentimento.
Entre as mulheres negras e com deficiência, o índice é ainda maior.
Casos de esterilização forçada de mulheres com deficiência intelectual continuam sendo relatados — uma prática condenada pela ONU e classificada como violação grave dos direitos humanos.
-As múltiplas faces da violência-
A Lei Maria da Penha reconhece cinco formas principais de violência doméstica, física, psicológica, sexual, moral e patrimonial, mas o cotidiano revela muitas outras.
1. Física: agressões, espancamentos, empurrões e lesões. Entre mulheres com deficiência, muitas vezes praticadas por cuidadores, familiares ou parceiros.
2. Psicológica: humilhação, isolamento, controle e chantagem. O agressor ameaça retirar a cadeira de rodas, o aparelho auditivo ou o cuidador, transformando o apoio em instrumento de dominação.
3. Sexual: estupros, coerção, toques não consentidos, aborto e esterilização forçados. Atinge especialmente meninas com deficiência intelectual, mulheres trans e indígenas.
4. Patrimonial e econômica: controle sobre o dinheiro, destruição de próteses e retenção do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Entre mulheres com deficiência, é a forma de violência mais comum e menos reconhecida.
5. Obstétrica: negar analgesia, impedir acompanhante, realizar procedimentos sem consentimento. Atinge de forma aguda mulheres negras, adolescentes e com deficiência.
6. Institucional e estatal: negligência, racismo institucional e capacitismo dentro do sistema público. Quando o Estado falha, ele se torna cúmplice da violência que deveria combater.
7. Digital: assédio, perseguição, stalking, exposição indevida e deepfakes com motivação sexista, racista e capacitista. Em 2024, o Brasil registrou mais de 95 mil casos de perseguição on-line.
8. Ambiental e territorial: o racismo ambiental expõe comunidades negras e indígenas a enchentes, contaminação e insegurança alimentar. São violências estruturais que também matam — lenta e sistematicamente.
-Os corpos mais atingidos-
● Mulheres negras: 63,6% das vítimas de feminicídio; alvos do racismo institucional.
● Mulheres com deficiência: invisíveis nas estatísticas, vulneráveis em casa, no transporte e nas políticas públicas.
● Mulheres trans e travestis: o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans há 16 anos consecutivos (ANTRA, 2025).
● Mulheres indígenas: enfrentam violência sexual e física ligada a invasões, mineração e disputas territoriais.
Os dados acima podem ser perfeitamente traduzidos pelas palavras da advogada e pesquisadora, Cláudia Patrícia de Luna: “O corpo da mulher branca é considerado sagrado; o das mulheres negras, indígenas e com deficiência é visto como descartável”.
-O que precisa mudar?-
Para que o enfrentamento à violência contra mulheres seja efetivo e inclusivo, é necessário produzir dados desagregados que cruzem gênero, raça, deficiência, idade e território, garantindo políticas públicas baseadas na realidade das múltiplas identidades femininas; assegurar serviços verdadeiramente acessíveis, com intérpretes, braille, audiodescrição, transporte adaptado e comunicação inclusiva; criar um orçamento interseccional que contemple gênero, raça e deficiência, garantindo investimento real na inclusão; e punir a violência institucional por meio da revisão de protocolos, capacitação de servidores e monitoramento de práticas discriminatórias, reconhecendo que cada ato de negligência estatal também é uma forma de violência.
Para romper o ciclo de vulnerabilidade, é urgente fortalecer a autonomia econômica das mulheres, inclusive por meio do Plano Nacional do Cuidado, criando oportunidades de trabalho digno, acesso a crédito solidário e segurança de renda. Somente com independência financeira as mulheres conseguem se libertar de relações abusivas e reconstruir suas trajetórias com dignidade.
Por fim, é necessário educar em direitos humanos, promovendo uma cultura de prevenção e solidariedade comunitária. A transformação social começa pela conscientização: quando escolas, comunidades e instituições reconhecem a diversidade de corpos, identidades e histórias, a sociedade se torna capaz de proteger, e não mais silenciar, as mulheres que a constroem.
-Acessibilidade é justiça-
A violência contra mulheres com deficiência não é invisível por falta de provas, é invisibilizada por falta de vontade política. E essa escolha tem consequências fatais. Enquanto a acessibilidade for vista como luxo, a violência continuará sendo rotina. Precisamos transformar isso agora. Transformar significa colocar as mulheres mais vulneráveis no centro das políticas públicas, com orçamento, dados e voz.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Renata Juliotti
Colunista VSP

Especialista em Direitos Humanos, Comunicação Inclusiva e Desenvolvimento Social. Secretária executiva do Stakeholder Group de Afrodescendentes da ONU e fundadora da Inclusive Agency, atua com indicadores de inclusão, justiça e reparação da população com deficiência. Doutoranda em comunicação e educação humanitária, dedica-se à pesquisa sobre gênero, juventude, raça, deficiência e equidade intergeracional.
Foto: Informe Ensp/Fiocruz

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