Ele era um neonazista

Ele era um neonazista
Compartilhe este artigo

Falar a verdade sobre alguém, mesmo que seja uma dura verdade, não significa desejar sua morte

Por Cleber Siqueira

Se o mundo condena o nazismo e o neonazismo, por que ainda existe quem “passa pano” para pessoas que hoje em dia adotam práticas neonazistas?

A sociedade e a mídia deveriam estar muito mais preocupadas com influenciadores que, travestidos de pureza, doutrinam seus seguidores com ódio e violência, do que com aqueles que, na verdade, apenas buscam mostrar uma transparência que, com provas, quebram a corrente do ódio.

Falar a verdade sobre alguém, embasado na realidade dessa pessoa, na forma como ela se apresenta e nas suas afirmações públicas, nas suas atividades e engajamentos, nas suas crenças, sejam políticas, religiosas, sociais, mesmo que seja uma dura verdade, não significa desejar sua morte.

Um bom exemplo disso aconteceu comigo alguns anos atrás, mais precisamente quando o nome de Jair Bolsonaro começou a surgir como provável candidato a presidente do Brasil, se não me falha a memória, por volta de 2016.

Sabendo que aquela figura tratava-se da pior raposa que podiam colocar para tomar conta do galinheiro, daquele momento em diante, me coloquei a postos para não permitir que ganhasse a eleição. Falhei nessa missão, mas jurei que não descansaria e que iria mostrar ao Brasil que quem havia subido a rampa Palácio do Planalto não passava de um racista, homofobico, misógino, xenófobo, gordofobico, capacitista, etarista e aporofobico, entre outros adjetivos que comprovadamente podemos designar a ele.

Com sua chegada ao poder, pude observar outras terríveis qualificações que facilmente poderiam ser designadas a ele. Facilmente para mim, pois eu havia acabado de ler Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler. E durante os quatro anos do governo de Bolsonaro pouquíssimas foram as vezes em que eu, observando o presidente do Brasil, não o comparei ao fuhrer. Em suas atitudes era possível enxergar claramente inspirações nazistas.

A partir de agora vou falar um pouco mais sobre o nazismo, mas não vou entrar em detalhes sobre o que é (você mesmo pode descobrir dando um google), mas para contextualizar vou passar algumas das suas características, inclusive, como Hitler chegou ao poder. Observe como, em praticamente todas elas, é possível lembrar do Bolsonaro.

O partido nazista cresceu, e Hitler ascendeu, graças a propagação da ideia de que a Alemanha estava dizimada economicamente e que ele, o fuhrer, seria o salvador. Por aqui, quem não se lembra do nosso salvador, do Messias, e das propagandas (em sua maioria, fake news) de um Brasil que estava à beira do caos, que afundava em corrupção e prestes a se tornar uma Venezuela?

A ideia de ambos foi a de mostrar que seu país estava à beira do colapso, que a pobreza e as necessidades estavam batendo na porta de cada um de nós e de que ele seria a solução. Enganaram o povo e obtiveram êxito.

E por falar em propaganda, o slogan nazista era Alemanha acima de tudo. Tenha certeza, Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, não é mera coincidência. Até porquê, Hitler era religioso sim, era declaradamente um Cristão alemão. Na Alemanha, os cristãos alemães eram um grupo protestante que apoiava a ideologia nazista.

Mas a propaganda nazista também usou e abusou de mentiras, principalmente contra judeus e comunistas. Mas não foi só, o nazismo ainda atacou outras minorias. Hitler também era racista, homofóbico, misógino, xenófobo, capacitista, etarista e aporofóbico. E ai, ficou com a impressão de já ter lido algo parecido nesse mesmo texto?

Vale lembrar que o antissemitismo, que foi a principal característica do líder alemão, não pode ser associado ao ex-presidente brasileiro. Talvez seja essa a única característica forte em que o Bolsonaro não pode ser associado ao ex-líder nazista.

Mas existem ainda muitos outros cenários nos quais podemos afirmar que Bolsonaro, se não era um nazista, ao menos simpatizava com a ideologia, como por exemplo, os casos do secretário de Cultura de Bolsonaro, Roberto Alvin, que usou trechos de um discurso do ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, além de adotar um ambiente semelhante ao que Goebbels usava em seu gabinete; ou quando em 2015, Bolsonaro fez uma foto ao lado de um sósia de Adolf Hitler, após uma audiência pública na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro; ou ainda no ano de 1995, quando defendeu estudantes do Colégio Militar de Porto Alegre que haviam escolhido Adolf Hitler como o personagem histórico mais admirado.

Por fim, seleciono, entre tantas ainda possíveis, três passagens que mostram como Bolsonaro tramou para o extermínio e consequente genocídio de brasileiros (a palavra genocídio te lembra algo?): negacionista, ele estimulou que vítimas da Covid-19 fossem tratadas como cobaias, incentivando o uso da hidroxicloroquina e defendeu a eugenia, ao apontar que idosos morreriam de qualquer jeito (lembra da frase? “velhos vão morrer de qualquer jeito”) e que os fracos (“sem histórico de atleta”) sucumbiriam.

Como não duvido dos desejos do ex-presidente brasileiro, me arrisco a dizer que suas atrocidades não foram além, porque no mundo atual não há espaço para um novo fuhrer.

Bom, se você ainda tem dúvidas se Bolsonaro é ou não um neonazista, recomendo que você ou leia Mein Kampf ou busque informações sobre a antropóloga Adriana Dias, que pesquisa sobre o neonazismo há mais de 20 anos. Ela afirma que o discurso de Bolsonaro é similar ao que Hitler pregava em sua campanha, na Alemanha de 1932.

Porém, aqui, o que importa é que mesmo eu tendo minhas opiniões e comprovadamente escrevo que considero Jair Bolsonaro uma pessoa que transforma suas atitudes num discurso neonazista, eu não desejo sua morte, muito pelo contrário, desejo que tenha vida longa, mas fique preso e vivo até o fim de seus dias.

-Neonazismo e morte nos EUA-

Saímos do eixo Brasil-Alemanha para o eixo Estados Unidos-Alemanha. Recentemente a morte de um influenciador estadunidense de extrema-direita provocou a ira de seus seguidores e admiradores, contra aqueles que vibraram com a morte do jovem. Eu faço coro a aqueles que consideraram um erro comemorar a morte do rapaz. Matar nunca é a solução!

Por outro lado, nada me impede de mostrar aqui o quão podre eu o considero. Como diz um ditado popular brasileiro: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Durante toda sua trajetória como influenciador pelos direitos do porte e do uso de armas, ele teceu frases das mais abjetas e radicais, como quando perguntado se o uso de armas nos EUA não levava a atentados demais que causavam mortes em excesso, inclusive de crianças: “Eu acho que vale a pena ter, infelizmente, algumas mortes por arma a cada ano, para que a gente tenha a 2ª Emenda.” 

Suas frases ganhavam espaço na mídia e faziam crescer o número de seguidores, invariavelmente radicais apoiadores da extrema-direita, sempre com a anuência incondicional da mídia americana que, como a brasileira, reserva esse tipo de espaço sob a tutela de uma falsa “isenção jornalística”.

Durante o tempo que também teve para “pregar” a violência, não deixou escapar uma oportunidade. Então, se você ainda não conhecia o pensamento do influenciador, acompanhe abaixo um pouquinho desse seu lado sombrio…

Sobre o direito ao aborto:Nunca é certo justificar o extermínio em massa de pessoas sob o pretexto de que elas são indesejadas. Foi assim que chegamos a Auschwitz, o maior horror do século XX“. Em seguida, questionado se estava comparando a interrupção da gravidez com o Holocausto, ressaltou: “Absolutamente, estou. Na verdade, é ainda pior.”

Em 2023, sobre a escravidão, ele afirmou: “Os negros foram vendidos como escravos por outros negros (…). Então, há muito mais nessa história“. Depois, acrescentou: “Mais negros vieram para a América voluntariamente do que pelo tráfico de escravos.

Ainda sobre negros e a Lei dos Direitos Civis de 1964, que proibiu a segregação e discriminação racial nos EUA, teceu elogios a um pastor conhecido por ter afirmado que a população negra foi amaldiçoado por Deus para serem “pessoas servis” e “condenadas à escravidão perpétua.”

Ele também levantou teorias conspiratórias. Sobre o movimento Black Lives Matter, insultou George Floyd após seu assassinato, ressaltando que o caso era indigno de atenção devido ao fato de Floyd ser o que ele chamou de “canalha”.

O ativista disse também que Martin Luther King Jr, um dos principais líderes na luta anti racista americana, era uma “pessoa horrível”. Além disso, defendeu que foi criado um mito em relação à história de MLK. “Enquanto ele estava vivo, a maioria das pessoas não gostavam dele. Agora, ele é a pessoa mais honrada, venerada e até a pessoa mais honrada, venerada e até a pessoa mais divinizada do século 20”.

Ele não era apenas um racista, ele odiava negros! Além de ser um sujeito abjeto, ele sim, era indigno de atenção… e exatamente pelos mesmos motivos que havia classificado George Floyd.

Mas ele também atacou a comunidade LGBT. Em 2021, durante um de seus eventos, equiparou a homossexualidade à prática de aliciamento de crianças, porém, na mesma ocasião, anunciou parceria com um pastor que havia sido preso por tentativa de coerção e aliciamento sexual de uma adolescente.

Misógino, atacou mulheres e o que chamou de “ideologia de gênero”. Afirmou que mulheres deveriam renunciar à educação e à carreira de trabalho, com o intuito de se concentrarem em ter uma vida de dona de casa submissa.

Durante a pandemia da Covid-19, em 2020, ele se opôs à quarentena. Defendia que não era necessário ficar em casa e se recusava a usar máscara nos lugares públicos. Além disso, era contra a vacinação e a favor da hidroxicloroquina, afirmando que tinha “100% de eficácia”.

Ele foi um radical que fez carreira como influenciador que propagava ideias racistas, homofóbicas, misóginas, xenófobas e até negacionistas, além de pregar a violência extrema, como, por exemplo, TELEVISIONAR execuções sumárias para “fins educativos”.

Como todo bomcidadão de bem”, ele era apoiador da extrema-direita e por isso, em tempo integral apelava para a violência como retórica para o discurso de ódio. Foi assim que cultivou valores e atitudes que culminaram alimentando a sua própria morte.

Mesmo assim, ressalto que jamais desejei um trágico fim para o influenciador, assim como não comemorei sua morte e critiquei veementemente todos aqueles que assim fizeram.

Porém, não há como negar, as provas estão ai e, por isso podemos dizer que sim, Charlie Kirk era um neonazista.

Em tempo: O neonazismo é um movimento político de extrema-direita. Surgido após a segunda Guerra Mundial, promove o resgate da ideologia nazista, com o objetivo de reabilitá-la. Mesmo tentando dar uma nova cara à ideologia, os grupos neonazistas da atualidade adotam elementos do nazismo original, e assim continuam promovendo o ódio contra diferentes grupos da sociedade, tais como negros, pessoas da comunidade LGBT, judeus, católicos, mulheres, feministas, pessoas com deficiência, anarquistas, comunistas, além da prática da xenofobia entre outras atrocidades.

Foto: Reprodução/Portal história do mundo

Siga o Viver Sem Preconceitos nas Redes Sociais

Curta, comente, compartilhe…

Vamos fazer do mundo um lugar melhor para se viver,
um lugar com menos preconceitos!

O Portal Viver Sem Preconceitos autoriza a reprodução de seus conteúdos -total ou parcial- desde que citada a fonte e da notificação por escrito.
Para o uso de matérias e conteúdos de terceiros publicados aqui
, deve-se observar as regras propostas por eles.

Cleber Siqueira

Cleber Siqueira

Jornalista, é autor do livro "Fernando, o menino sem dedos". Fundador e editor do Portal Viver Sem Preconceitos, tem pós-graduação em Sociopsicologia. Sua monografia, intitulada "Homossexualidade, o amor às chamas: um breve ensaio sobre o preconceito", faz uma análise entre a literatura específica e a vida real da população homossexual no início dos anos 2000.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *