Acessibilidade atitudinal
A barreira que ainda persiste! Tecnologias ou recursos de apoio não são suficientes se não há reconhecimento e valorização da pessoa com deficiência
Por Ciça Cordeiro*
Recentemente, a atriz Claudia Raia chamou a atenção de um espectador que usava o celular durante sua peça. O que parecia uma distração era, na verdade, o uso de um recurso de acessibilidade por um homem com baixa visão. Apesar do pedido público de desculpas, o constrangimento já havia acontecido. O episódio expõe uma das barreiras mais invisíveis e persistentes: a falta de acessibilidade atitudinal.
Não basta que existam tecnologias ou recursos de apoio, como audiodescrição, Libras, legendas ou aplicativos que tornam possível o acesso à informação. Se não houver compreensão e respeito, esses instrumentos podem se transformar em fonte de estigmatização. Acessibilidade atitudinal significa justamente reconhecer e valorizar a presença da pessoa com deficiência, garantindo que ela participe de forma plena e sem constrangimentos.
Estamos em setembro, mês da pessoa com deficiência. No dia 19, celebra-se o Dia Nacional do Teatro Acessível, e no dia 21, o Dia Nacional da Pessoa com Deficiência. As datas reforçam uma urgência: não adianta investir em tecnologia de ponta se a mentalidade continuar marcada pelo capacitismo. Inclusão só acontece quando a pessoa tem autonomia, segurança, conforto e respeito.
Pessoas com deficiência não são apenas beneficiárias deacessibilidade – são protagonistas. Estão nas plateias, mas também nos palcos, nas universidades, nas empresas, nos espaços públicos. Os recursos de acessibilidade garantem que possam estar onde desejam, mas é a mudança de atitude que assegura que exerçam esse direito com dignidade.
Esse debate não se restringe ao campo cultural. Em 2022, discutiu-se se os cardápios em QR Code poderiam afastar clientes de restaurantes por “irritar” consumidores. Questionei na época: se já é incômodo para quem não tem deficiência, imagine para quem depende de recursos acessíveis? Pessoas com deficiência também são consumidores, cidadãos e trabalhadores – e têm o mesmo direito de viver experiências completas, sem obstáculos adicionais criados pela falta de informação ou de preparo.
Acessibilidade não é detalhe. É o que define quem pode ou não participar. É o que transforma exclusão em pertencimento.
Cada evento acessível é um passo concreto na construção de uma sociedade que não deixa ninguém para trás. Acessibilidade não é favor, não é privilégio: é direito. E mais que isso, é oportunidade de ampliar impacto, engajar novos públicos e fortalecer valores de inclusão.
A maior barreira ainda está na atitude. Sem acessibilidade atitudinal, qualquer inovação tecnológica perde força. Mudar esse cenário é urgente – e possível.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Ciça Cordeiro
Colunista VSP

Consultora em acessibilidade, diversidade, equidade e inclusão, com 15 anos de experiência em comunicação institucional e cultura inclusiva. Ciça Cordeiro também é jornalista especialista em comunicação e eventos acessíveis, com MBA em Gestão Pública, Direitos Humanos e Direito das Pessoas com Deficiência.
Foto: Reprodução Internet

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