Será que ainda possuímos algo?

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Vivemos na era digital, mas isso não é segredo para ninguém

Por Ana Beatriz Carvalho*

Não conseguimos mais sair de casa sem a companhia de nossos celulares, desaprendemos a comer sem o barulho de uma televisão ao fundo, não temos paciência para assistir a filmes longos ou dedicar nossas horas a hobbies que não envolvam telas.

Mas uma overdose de estímulos digitais chega a seu ápice, um momento em que dar um passo para trás é a única maneira de seguir em frente.

Uma geração que cresceu majoritariamente online se deu conta de que não possui mais nada. Temos assinaturas em diversos aplicativos de streaming, infinitas músicas baixadas, álbuns de fotos digitais. Nos acostumamos com a ausência física dos produtos. Apenas a imagem, a ideia, já basta.

Entretanto, uma falha de software, uma senha esquecida, um apagão ou uma reconfiguração tecnológica poderia fazer com que extensos arquivos e coleções se percam para sempre. É algo que foge completamente do nosso controle, não há muito como proteger algo que nem tocável é.

Essa noção traz consigo a compreensão de que estamos passando por essa vida sem deixar rastros. Transportamos nossa existência da realidade palpável para um mundo de pixels e estímulos visuais. E isso é apavorante.

As redes sociais se transformaram em um ambiente opressivo, do qual muitos tentam escapar. As comparações sem fim, somadas às luxuosas ostentações, não poderiam se distanciar mais do propósito inicial do universo digital: um ambiente livre para expressão e encontros, uma porta para amizades, auto-descobertas e conexões.

Por isso, há uma crescente onda de redefinição da relação entre pessoas e tecnologias. O repúdio ao armazenamento exclusivamente digital somado à exaustão midiática traz, aos poucos, um retorno das mídias físicas, como cds, discos de vinis, dvds, ipods, álbuns de fotografias e revistas.

Os hobbies analógicos estão de volta e com força total. Claro que não passarão a ser a principal forma de consumirmos mídias, mas há uma certa urgência para recuperar o tempo que nem vimos passar enquanto estávamos perdidos em telas.

A sociedade segue essa tendência pois funciona com um padrão repetitivo: a cultura é como um pêndulo. Ela oscila entre momentos de ruptura e outros de reação a essa ruptura.

Ou seja, antes, o habitual eram as mídias físicas pois era a única maneira possível de usufruí-las. A tecnologia avançou e englobou todas as, até então, formas de consumo cultural. Só que as mudanças foram tantas, o mundo atual corre em uma velocidade tão absurda, que nos sentimos ultrapassados.

Desejando remediar essa desvantagem, voltamos ao que temos no imaginário como seguro. Enxergou o pêndulo? Avançamos para, depois, retornarmos ao ponto de partida.

E, óbvio, a partir do momento em que uma nova onda surge, o capitalismo já dá as caras. Impossível de ficar para trás, se renova e encontra novos produtos, enquanto os movimentos sofrem um desgaste natural.

À medida que as mais altas tecnologias constituíam o que o público queria, não havia espaço para outro produto a ser comercializado. Mas a partir do instante em que ela começa a decair, uma resposta instintiva aparece imediatamente, transformando o novo momento em mercado.

Não importa o movimento, ele sempre vai ser mercantilizado. O capitalismo não perde tempo, muito menos sofre a chance de perder seu espaço.

Quanto aos valores regentes de uma sociedade, não há muito o que fazer. As oscilações continuarão a ocorrer em um ciclo autônomo e infinito.

No entanto, o que permanece conosco é a nova noção ganha nesse momento presente: de fato, estávamos deixando de ter registros reais provas concretas da nossa passagem pela Terra. Pensando nisso, talvez não seja sobre abandonar a tecnologia, mas sobre voltar ao que nos pertence, antes que tudo o que somos caiba apenas em uma senha.

*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Sapata foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Foto: Cottonbro/Pexels

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