Racismo na infância

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Quando a cor da pele define quem pode ser criança

Por Fabiana Conceição*

Mês das crianças e quero bater um papo com você sobre a infância da criança negra. Ah, Fabi! E tem diferença?

Tem, minha gente!

Mas pra contar isso, vou voltar no tempo e falar de uma das muitas experiências vividas por mim como criança negra.

Eu ficava na creche e devia ter no máximo 6 anos. Um dia fui ao banheiro e não me limpei direito, e o mau cheiro se espalhou pela sala. A professora, incomodada com o mau cheiro, resolveu passar de mesa em mesa conferindo as calças das crianças, tentando descobrir quem era. Eu, morrendo de medo da minha vez chegar. Quando chegou, ela olhou rapidamente e disse: “Ah, você não. Uma menina grande dessa não vai fazer isso.” E seguiu em frente.

Outra vez, fui ao dentista e estava com muito medo, chorei bastante. Quando saí da sala, as pessoas me olhavam e um senhor expressou: “Oxi, uma menina grande dessa chorando, ah, uma surra!”

Por que para outras crianças era permitido o choro e para mim não? Por que eu era considerada mais velha se tinha a mesma idade e tamanho das outras?

Recentemente, na terapia, esse assunto voltou quando levei para uma sessão o fato de estar ouvindo muito ultimamente que eu pareço mais velha. Algumas pessoas brincam dizendo que pareço ter vivido dez vidas em uma, que tenho uma maturidade e um olhar pra vida maduro demais para minha idade.

E minha terapeuta me respondeu dizendo que eu tenho mais tempo de vida porque não tive infância, fui adulta desde pequena.

Me obrigaram a ser adulta.

Dizem que as meninas amadurecem mais cedo, mas a verdade é que nos obrigam a isso, e quando incluímos o recorte de raça, isso ainda tem mais implicações. Um estudo do Georgetown Law Center on Poverty and Inequality mostrou que meninas negras são vistas como menos inocentes e mais maduras desde cedo e que, a partir dos cinco anos, adultos tendem a perceber meninas negras como mais conscientes de temas adultos e menos dignas de cuidado e proteção do que meninas brancas da mesma idade.

Essa distorção se intensifica entre os dez e quatorze anos, quando passam a ser vistas como fortes, resilientes ou independentes. E a gente precisa enxergar isso como uma negação à infância, e não como elogios!

Na prática, isso implica em meninas negras que choram e não são consoladas, que quando erram são repreendidas com mais dureza, e quando se mostram cansadas são consideradas preguiçosas.

A educadora Jussara Santos, no livro Democratização do Colo, fala da sua pesquisa e vivência em escolas e berçários onde bebês e crianças negras recebem menos afeto, menos colo, menos olhares. Desde os primeiros meses de vida, eles são vítimas de um racismo que se manifesta não apenas nas palavras, mas também na ausência de gestos de cuidado e carinho.

Ao observar a rotina das instituições de educação infantil, Jussara percebeu a diferença de tratamento entre negros e brancos. Quando uma criança branca sente medo, recebe colo. Quando ela é negra, muitas vezes é deixada no chão, com uma perna estendida do profissional como consolo. Meninas negras têm seus cabelos negligenciados sob o argumento de serem “difíceis” de cuidar. Quando se machucam, o acolhimento é substituído por rigidez, como se a pele negra não fosse digna da mesma ternura.

Então, o que muitos chamam de maturidade é, na verdade, uma resposta à negligência. A criança negra entende cedo que o mundo não a protege. Aprende a se conter, a se defender e até desaparecer. Cada desatenção é uma aula prática sobre o que esperar da vida. O racismo ensina cedo que o erro custa mais, que o corpo incomoda e que o afeto dos outros tem destinatários preferidos.

E no final, o que chamam de força é, na verdade, sobrevivência. Aprendemos a antecipar reações, a medir gestos, a moderar a própria alegria para não parecer insolente. Aprendemos a ser competentes antes de sermos acolhidas, a pedir licença para existir.

Quando chegamos à vida adulta, carregamos uma lucidez que pesa, uma espécie de vigília permanente. Essa consciência, que um dia foi proteção, vira fardo. Ensina a duvidar do cuidado, como se o afeto sempre viesse com armadilha. Ensina a se manter alerta mesmo no descanso, a sentir culpa por baixar a guarda. A sociedade aplaude essa força sem perceber que ela é o resultado direto da ausência de amparo que ela mesma produziu.

Ser vista como mais velha foi o jeito educado de nomear uma infância interrompida. Eu não era madura, só entendi rápido que não havia escolha. Aprendi a observar antes de brincar, a medir antes de falar, a me proteger antes que alguém resolvesse me corrigir.

Hoje, quando dizem que tenho maturidade, eu reconheço o preço que paguei. A leveza ficou pelo caminho, a inocência foi abreviada e o direito de errar virou privilégio. É por isso que, com duas filhas negras, insisto para que elas tenham o direito à infância, que possam brincar sem se explicar, chorar sem vergonha, errar sem medo e que tenham o tempo que quiserem para serem pequenas.

Escrever esse texto é uma das formas de reencontrar aquela Fabiana pequena, a que aprendeu cedo a ser forte e agora tenta, com calma, reaprender a existir sem precisar se defender.

Me permitam desejar feliz mês das crianças para minha mini Fabiana.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Freepik

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