Educação superior e pessoas com deficiência
Avanços, desafios e caminhos para inclusão
Por Ciça Cordeiro*
O acesso ao ensino superior representa uma das vias mais promissoras de emancipação, inserção social e mobilidade para milhões de brasileiros. No entanto, quando o recorte é voltado às pessoas com deficiência, os dados revelam que ainda estamos longe da equidade. Os relatórios recentes do Censo Demográfico 2022 (IBGE) e do Censo da Educação Superior, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), apontam tanto avanços quanto lacunas profundas que ainda exigem ação sistemática.
De acordo com o IBGE, o Brasil conta com 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais. Apesar desse número expressivo, apenas 7,4% das pessoas com deficiência concluíram o ensino superior, frente a 19,5% das pessoas sem deficiência. No âmbito da educação superior, levantamentos recentes indicam um crescimento no número de matrículas de alunos com deficiência, mas a participação ainda é inferior a 1% do total em muitas instituições.
Mesmo com um crescimento percentual relevante — como o aumento de 91% entre 2019 e 2023 no número de alunos com deficiência matriculados — o saldo absoluto ainda é baixo e insuficiente para refletir a diversidade real da sociedade. Além disso, a permanência e a conclusão do curso continuam sendo grandes desafios. O ingresso é apenas o primeiro passo; barreiras comunicacionais, arquitetônicas, pedagógicas e atitudinais seguem limitando a trajetória acadêmica de estudantes com deficiência. O capacitismo ainda é uma realidade presente no sistema educacional e precisa ser enfrentado de forma estruturada.
As desigualdades também se revelam nos números de escolarização: as pessoas com deficiência têm taxas de analfabetismo mais altas — cerca de 21,3% entre aquelas com 15 anos ou mais — e um acesso historicamente desigual à educação superior. Essas desigualdades atravessam toda a jornada educacional, desde a educação básica até o ensino médio, refletindo um ciclo persistente de exclusão.
Nesse contexto, os dados do INEP e do IBGE são instrumentos essenciais para a formulação de políticas públicas e institucionais voltadas à inclusão. Mais do que simples indicadores, eles são ferramentas estratégicas que nos ajudam a entender quem está fora, quem está dentro, em que condições e o que precisa ser feito para promover equidade real. Com base nessas informações, é possível fortalecer os Núcleos de Acessibilidade nas instituições de ensino superior, aplicando metodologias pedagógicas que contemplem acessibilidade comunicacional — como Libras, legendagem, leitura fácil, tecnologia assistiva e adaptações curriculares — e garantindo o acompanhamento individualizado dos estudantes.
A inclusão autêntica também exige protagonismo: é fundamental assegurar a participação das pessoas com deficiência no planejamento e monitoramento das políticas institucionais. Além disso, os dados de matrícula, permanência e conclusão devem ser usados para definir metas regionais, vincular recursos e avaliar o impacto de programas de inclusão.
Os resultados do Censo da Educação Superior e do Censo Demográfico reafirmam que, embora o Brasil registre avanços significativos na presença de pessoas com deficiência nas universidades e faculdades, ainda há um vasto caminho a percorrer para tornar o acesso, a permanência e o sucesso acadêmico uma realidade concreta para todos.
Como diz minha amiga e professora Sueli Yngaunis, Doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação Humanidades, Direitos e outras Legitimidades, do Diversitas/FFLCH/USP, especialista no tema, “a inclusão não se completa com a matrícula, mas se consolida com acesso pleno, permanência, participação e protagonismo.” Concordo plenamente. Como consultora em acessibilidade, diversidade e inclusão, acredito que comunicar, medir e agir com intencionalidade são passos fundamentais para construir uma educação superior verdadeiramente para todos.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Ciça Cordeiro
Colunista VSP

Consultora em acessibilidade, diversidade, equidade e inclusão, com 15 anos de experiência em comunicação institucional e cultura inclusiva. Ciça Cordeiro também é jornalista especialista em comunicação e eventos acessíveis, com MBA em Gestão Pública, Direitos Humanos e Direito das Pessoas com Deficiência.
Foto: Reprodução Internet

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