O preconceito de dentro para fora

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A Exclusão da letra ‘T’ é sim transfobia e retrocesso, mas também é um ataque, uma agressão à comunidade transgênero em todo mundo

Por Nelly Winter*

A recente decisão da LGB International, uma aliança de grupos de lésbicas, gays e bissexuais de 18 países, de se separar formalmente do movimento LGBTQ+ sob a justificativa de focar em “orientação sexual” em detrimento de “identidade de gênero,” não é apenas um “episódio controverso” no ativismo; ela se configura, em sua essência, como um ato de transfobia e exclusão. Excluir a letra ‘T’ da sigla é, sim, uma forma de ataque direto à comunidade transgênero.

O argumento central da LGB International é que o movimento LGBTQIAPN+ tem se focado excessivamente em pautas de identidade de gênero, desviando o olhar das lutas históricas por direitos ligados à orientação sexual. No entanto, essa dicotomia é falaciosa e perigosa. A luta por direitos civis é uma frente unificada contra a opressão de minorias sexuais e de gênero.

Ao alegar a necessidade de um foco mais estrito, o grupo ignora que a violência e a discriminação contra pessoas trans não são menos urgentes do que a descriminalização da homossexualidade. No Brasil e em muitos outros países, as pessoas trans, especialmente as mulheres trans e travestis, são as que enfrentam as taxas mais altas de violência, assassinato e exclusão social. As suas vidas estão em risco diário, e a tentativa de marginalizar suas pautas sob o pretexto de “reorganizar prioridades” é, no mínimo, insensível e, na prática, cruel.

Os pontos levantados pela LGB International vão além da simples separação e mergulham diretamente em críticas que historicamente servem para deslegitimar a existência e os direitos das pessoas trans:

  1. Crítica à transição de gênero em menores: o questionamento sobre o uso de bloqueadores hormonais em adolescentes, sob a capa de uma suposta “falta de consenso científico,” é uma tática comum utilizada por grupos anti-trans para criar pânico moral e justificar a intervenção estatal nas decisões de famílias e profissionais de saúde. A medicina e a psicologia já reconhecem a disforia de gênero e as melhores práticas de cuidado, que são sempre individualizadas e cautelosas. O ativismo não deve ditar a pauta médica de forma desinformada, mas sim defender o acesso à saúde.
  2. Inclusão em espaços exclusivos para lésbicas: a contestação da inclusão de mulheres trans em espaços lésbicos — alegando que isso gera “conflitos entre identidade de gênero e orientação sexual” — é a forma mais explícita de transfobia nesse manifesto. Se uma mulher trans se identifica como lésbica (atraída por mulheres), ela atende a todos os critérios de orientação sexual da comunidade lésbica. A tentativa de definir a feminilidade e a identidade lésbica estritamente por critérios biológicos (cisgêneros) não apenas nega a identidade de mulheres trans, mas também enfraquece o conceito de identidade de gênero que tem sido fundamental para o progresso do próprio movimento gay e lésbico.

A história do ativismo pelos direitos sexuais e de gênero mostra que a força reside na união. A sigla LGBTQIAPN+ existe justamente para reconhecer que, embora as experiências de opressão variem, o sistema que as oprime é o mesmo: o heterocisnormativo.

A cisão proposta pela LGB International representa um retrocesso no conceito de diversidade e inclusão. Ela não fortalece a luta por orientação sexual, mas sim a enfraquece, ao dar munição para aqueles que buscam fragmentar a comunidade e revogar direitos. A exclusão da letra ‘T’ não é uma redefinição de foco; é a tentativa de apagar uma parte vulnerável e essencial da comunidade em um momento em que a solidariedade é mais necessária do que nunca. Defender a letra ‘T’ na sigla não é apenas uma questão de inclusão linguística; é um imperativo moral na luta contra a transfobia.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Ilustração Canva

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