Curiosidade, apetite da mente

Curiosidade, apetite da mente
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“Com a competitividade a todo vapor, perdemos nosso incentivo para sonhar?”

Por Ana Beatriz Carvalho*

“Ganhar na vida”. Tenho certeza absoluta de que esta não é a primeira vez que você se depara com este pequeno período. O que parece uma frase inofensiva, mais uma entre tantos milhares de outras ditas constantemente, é para alguns uma sentença. E não no sentido de um provérbio, uma máxima. Mas sim como uma condenação, uma jaula impossível de se libertar.

Inegavelmente, estamos cercados por ideais de produtividade originários de uma sociedade que tem como mais alto pilar o máximo lucro. Uma mentalidade dessas é o que move a  população à rotinas exaustivas e, honestamente, desumanas de trabalho, a fim de ganharem um valor simbólico que pouco lhes garante dignidade para viver. Claro que não tem para onde fugir: se não trabalhar, não recebe salário. Se não receber, não consegue comprar comida. Se não comer, morre.

A crítica aqui não vai ser direcionada a modelos políticos, muito menos a ideologias já bastante concretizadas. Quero voltar a atenção à algo bem mais simples, no entanto, relativamente esquecido: o ser humano.

Chegamos na Terra como crianças que de nada sabem. Tudo é uma empolgante novidade acerca da desconhecida vida. Olhamos para aqueles à nossa volta e nos inspiramos neles.

Passamos então a brincar de ser adultos. Vestimos as roupas dos nossos pais, fingimos que estamos indo ao trabalho e não conseguimos esperar o momento em que finalmente poderemos colocar nossos trajes sociais, morar na nossa própria casa e seguir a carreira dos nossos sonhos.

Embora o mundo infantil seja de fato um tanto mais onírico do que o real, parece que no meio da caminhada nos esquecemos daquilo que mais almejávamos. Nosso sonho era ser adulto e aí, quando finalmente conquistamos o status, o que era para ser motivo de festa transforma-se em um peso a ser carregado.

O olhar curioso da infância é substituído pelo cínico da chamada ‘maturidade’. A alma questionadora é deixada de lado, e no seu lugar é posta uma personagem que nunca admite não saber. Dúvidas viram sinais de fraqueza, e aquele que mais sabe, mais sobe na invisível, mas onipresente, escalada para um indeterminado sucesso.

‘Se dar bem’ não significa estar feliz, contente com suas escolhas e com a vida que o cerca, mas sim um bolso cheio de dinheiro e um bom lugar na empresa em que trabalha.

Todo o universo criado e sonhado nos primeiros anos de vida perde a força assim que pisamos no mundo de concreto, gravatas e maletas.

Essa situação toda encurrala o ser humano. Não tem muito para onde fugir. As preocupações aumentam cada vez mais, o peso da sobrevivência duela com uma vida confortavelmente luxuosa e não enxergamos outra opção a não ser abrir mão do que passa a ser visto como “bobagem de criança”.

Moldamos os nossos objetivos para que se encaixem com o proposto, para que consigamos “ganhar na vida”. Entendemos que o ‘sonhar’ é exclusividade infantil. A vida real não nos permite isso. 

Ao aceitar cegamente o modelo desencorajador imposto, deixamos de lado bases humanas cruciais para a formação de caráter e garantia de uma existência com sensação de completude. A criatividade, curiosidade e espontaneidade são vistas como secundárias em uma realidade que prioriza a produção objetiva. Não tem margem para distração. Qualquer ação que não vise a produtividade é entendida como uma perda de tempo.

Mas é aí que está. De que tempo? Que vida é essa que estamos nos doando tanto para construir?

Nossa existência passa a girar em torno de um único pilar. Aos poucos, vamos enlouquecendo pois tudo o que nos cerca e perpassa está relacionado à exigências exaustivas e irreais.

Vamos nos sufocando com metas, objetivos e uma crescente insatisfação. Nunca é o suficiente. Sempre temos de superar o outro, superar a nós mesmos.

E em uma rotina tão lotada e negativa, claramente não sobra espaço, muito menos tempo, para o inato ato de sonhar. Temos de nos dedicar para o ofício, não há hora livre para permitir que a mente divague.

A questão é que armazenamos em nosso crânio um órgão com habilidades indescritíveis. E parece que fazemos pouco caso do nosso querido cérebro.

Deixamos nossos sonhos pessoais de lado porque atender às expectativas impostas se torna o mais importante. Nossa vida passa a ser destinada ao trabalho, e não a nós mesmos.

Pior ainda, mesmo que não foquemos no que alimenta a alma, só temos olhos para o nosso próprio umbigo. Não conseguimos olhar para ninguém além de nós mesmos. Vivemos uma onda de egoísmo assustadora, suficiente para embasar guerras, ignorância e agressão mundo afora.

Uma simples explicação para o estado em que a realidade se encontra hoje é a falta de empatia que nos assola. Estamos cegos por uma obstinação doentia. 

Queremos sempre sair na frente, passar por cima, ser o melhor. O que você faz pode até ser bom, contanto que o meu seja superior. Caso eu seja ultrapassado, automaticamente falarei mal daquele que me superou, mesmo que, realisticamente, ele seja superior. 

Não conseguimos aceitar não sermos os melhores. Mas ao mesmo tempo, não nos dedicamos à áreas paralelas onde poderíamos nos encontrar e, enfim, nos dedicar. 

Nos impedimos de apreciar o nosso e do outro. Não admitimos elogiar o próximo pois enxergamos todos a nossa volta como adversários em uma interminável competição. Mas também não treinamos nosso olhar com generosidade suficiente para reconhecer o que fazemos como bom. Sempre podemos melhorar, mas não de um jeito construtivo. De uma maneira impositiva e opressiva. 

Sob esse olhar, nada é bom. Nem o meu, nem o seu, nem o de ninguém. Sabemos que a perfeição é inatingível, mas ainda assim insistimos em alcançá-la com a ponta de nossos dedos. 

Nos esgotamos e achamos que esse é o natural, o modo com que as coisas deveriam ser mesmo. 

Entretanto, é importante ressaltar que nem sempre as imposições nascem do ambiente social ou corporativo. Em muitos casos, elas são frutos da nossa própria vontade, da nossa natureza. 

A psique humana, o mesmo cérebro ao qual eu a pouco elogiava, pode ser também um tanto traiçoeiro. 

Muita gente deposita como seu “sonho” o crescimento social e profissional. Às vezes a pressão que vira objetivo sufocante pode vir do próprio interior. 

O ponto é que independentemente da origem, estamos falando de  uma motivação que beira a obsessão doentia. Há uma linha tênue que distancia as fortes exigências, por muito inevitáveis, da deprimente perda de sonhos. 

E no fim das contas, a solução nem seria tão complexa. Definitivamente não somos incentivados a muito além de nossos ofícios. Mas isso não significa que não podemos dar nosso jeitinho e achar uma brecha para sonhar. 

Estudos realizados na Universidade de São Caetano do Sul  afirmam que sonhar é importante tanto para o desenvolvimento psicológico quanto para o bem-estar do cérebro. Funciona como um motor para a vida, uma forma de processar emoções, explorar potenciais e até mesmo consolidar memórias e manter os neurotransmissores saudáveis.

As crianças que um dia fomos continuam no nosso interior. Aquilo que tanto ansiávamos ainda pulsa no mais íntimo do nosso ser. Não só podemos, como devemos resgatar nossa verdade perdida e restaurá-lá em uma posição de liderança.  Claro que temos de trabalhar e nos adequar aos moldes impostos, precisamos sobreviver na sociedade. Mas não precisamos esquecer do individual, daquilo que define nossa autenticidade. Não precisamos e nem devemos esquecer que sonhos colorem a vida e trazem sentido para uma existência que não deve ser passada em vão. Por meio deles, podemos viver uma vida extraordinária.

*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Sapata foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Foto: Wesley Davi/Pexels

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