O excesso de telas e a atrofia cerebral
Será que perdemos nossa habilidade de pensar por conta própria?
Por Ana Beatriz Sapata*
Já é difícil se lembrar de como era a vida antes das tão faladas Inteligências Artificiais. Ou, algo ainda mais corriqueiro, as redes sociais. De acordo com um estudo realizado pelo portal G1, o brasileiro passa diariamente, em média, nove horas e trinta e dois minutos nas telas. Aproximadamente 56% do seu tempo acordado é destinado a algo que envolva o mundo digital. Loucura, não?
Como tudo o que se populariza, esse nítido uso excessivo e notoriamente prejudicial da internet foi banalizado. Tornou-se tão parte da rotina que as pessoas deixaram de problematizar uma ação que, pouco a pouco, atrofia o cérebro. Parece exagero, mas te garanto que não é.
A exposição imoderada às telas pode encolher a massa cinzenta do cérebro, parcela responsável pelo processamento das informações e raciocínio lógico. Caso isso aconteça, a capacidade de atenção e memória são afetadas devido à deterioração mental.
Não somente, por causa dos estímulos constantes, uma dose alta de dopamina (“hormônio do bem-estar”, provoca sensação de prazer) é liberada no organismo. Entretanto, um traiçoeiro sistema de recompensa é acionado, pois quanto mais recebe, mais quer. A sensação prazerosa é boa, os estímulos são rápidos, o cérebro se acostuma e exige cada vez mais. Seguindo essa lógica, quando menos percebemos, já estamos emaranhados em um vício na dopamina, suprido por intermináveis horas frente às telas.
Esses são apenas alguns dos tantos danos à nossa saúde mental e integridade física. Mas seus reflexos se expandem para além do óbvio.
O esquisito hoje em dia é não ter o celular a apenas alguns centímetros de distância das mãos, sempre no mais fácil acesso. Só que esse ato, já tão habitual, provoca sequelas no convívio interpessoal e na sociedade como um todo, também.
Ao nos depararmos com um ambiente cheio de pessoas desconhecidas, um clima desconfortável, corremos para nosso portal não-tão secreto: a tela. Quando queremos saber a resposta para algo, o primeiro pensamento não é mais perguntar para quem quer que esteja ao nosso redor. Ao invés disso, automaticamente abrimos o Google e despejamos nossas dúvidas à maior impessoalidade existente. De maneira semelhante, não nos preocupamos em lembrar com clareza de tudo porque podemos procurar na internet, então para que usar nosso cérebro?
A Era Digital tem moldado um conjunto de seres humanos preguiçosos. Fugimos dos problemas, perdemos a habilidade de olhar no fundo dos olhos do outro e enfrentar de cabeça. Não sabemos mais conversar, muito menos focar. É quase impossível ficar trinta minutos sem checar a tela, em busca de novas notificações. Transferimos para o mundo tecnológico quase tudo aquilo que pertence à vida real: namoro, amizade, intriga, dedicação, trabalho, estudo e até o ato do livre pensar.
Estamos terceirizando o pensamento. Estamos colocando em cheque o diferencial da nossa espécie: a criatividade e inteligência prática. Estamos abdicando do nosso tempo de vida para observarmos cegamente a vida de outras pessoas, alimentando um sistema que só lucra com um vício quase irremediável.
A partir do momento em que o celular vira uma extensão dos nossos corpos; a Inteligência Artificial torna-se nossa melhor amiga e conselheira fiel; o mundo físico passa a ser deslocado para o eletrônico (cardápios em forma de QR code, filas digitais, ingressos por email etc) e o fluxo informacional proporcionado pela infinitude de portais digitais é tanto que nem sabemos o que absorver, podemos afirmar com clareza que estamos sim abdicando da capacidade de pensar por conta própria, entregando-a de mãos beijadas para a incerteza digital.
E de frente a tal cenário, o que espanta é a não realização de que escolher viver nossa vida nos cegando por pixels é uma besteira, e das grandes. Nosso tempo na Terra não é infinito e sabemos disso. Ainda assim, o desperdiçamos com vídeos de 30 segundos sem nem sequer absorver o conteúdo recém visto. Olhamos para o mundo através da lente da câmera de nossos celulares. Esquecemos do ao vivo, do real. Deixamos com que o artificial decida e responda por nós. Isso tudo não é só se render ao vício, é desistir de viver.
Óbvio que a situação está chegando a um nível preocupante, mas começou como uma atrativa diversão capaz de seduzir a população mundial. Era difícil imaginar que chegaríamos em um nível tão crítico de obsolescência. Mas ainda mais estúpido do que se submeter a essa situação, é ignorar o problema.
Não devemos retroceder nos avanços tecnológicos. Eles auxiliam muito em diversos campos, como na medicina e na educação. O que temos de fazer é criar consciência de que estamos negligenciando nossa capacidade mental e introduzir hábitos a nossa rotina que nos liguem à vida real, nos afastando do redemoinho que é a internet.
Práticas como a leitura, a determinação de metas e ambições pessoais, o interesse pelo aprendizado dos mais variados assuntos, a reflexão deliberada, a criação de hobbies e o uso crítico de IA podem ajudar no esforço para se afastar das telas. Assim, uma vida mais saudável, com mais contentamento, motivação, disposição e curiosidade pode virar sua realidade.
*O texto produzido pela estagiária Ana Beatriz Sapata foi supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira

Ana Beatriz Sapata
Estagiária VSP
Ana Beatriz Sapata estuda Comunicação Social na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Durante o estágio da estudante no Portal Viver Sem Preconceitos, sua atenção estará voltada a tudo que se refere ao conceito da diversidade e ao apoio das causas que combatem os preconceitos. Seu estágio é supervisionado pelo jornalista Cleber Siqueira.
Foto: Cottonbro Studio/Pexels

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