Entre o discurso e a prática da intersecccionalidade
Presença constante em eventos ligados à pauta LGBTQIAPN+, a questão interseccionalidade tem sido tratada na prática, da forma como o discurso a promove?
Por Nelly Winter*
A noção de interseccionalidade ganhou centralidade nos debates contemporâneos sobre diversidade, tornando-se presença constante em discursos institucionais, campanhas e espaços de militância ligados à pauta LGBTQIAPN+. Originado no campo dos estudos sociais, o conceito propõe compreender como diferentes formas de opressão se articulam, produzindo experiências específicas de exclusão. No entanto, sua popularização levanta uma questão relevante: até que ponto essa perspectiva é efetivamente aplicada na prática cotidiana da comunidade que afirma defendê-la.
Em teoria, reconhecer a sobreposição entre marcadores como raça, classe, gênero, deficiência e territorialidade amplia a compreensão sobre desigualdades. Na prática, entretanto, observa-se que determinadas vozes continuam ocupando maior visibilidade. Corpos brancos, urbanos e com maior acesso econômico frequentemente dominam narrativas públicas, enquanto sujeitos que vivenciam múltiplas vulnerabilidades permanecem à margem. Esse descompasso revela uma tensão entre discurso inclusivo e ação concreta.
A apropriação superficial da interseccionalidade também contribui para sua diluição. Em muitos contextos, o termo é utilizado como elemento retórico, desprovido de compromisso real com transformação estrutural. A inclusão simbólica, embora relevante, não substitui mudanças efetivas na distribuição de recursos, na formulação de políticas públicas e na abertura de espaços de decisão. Sem essas medidas, o conceito corre o risco de se tornar apenas um marcador de legitimidade discursiva.
Além disso, é necessário considerar que a própria comunidade LGBTQIAPN+ não é homogênea. Experiências de pessoas trans negras em regiões periféricas, por exemplo, diferem significativamente daquelas vividas por indivíduos cisgênero em centros urbanos privilegiados. Ignorar tais diferenças implica reproduzir hierarquias internas, enfraquecendo o potencial coletivo de enfrentamento às desigualdades.
Diante desse cenário, torna-se urgente resgatar o sentido original da interseccionalidade como ferramenta analítica e política. Isso exige disposição para ouvir sujeitos historicamente silenciados, redistribuir protagonismo e reconhecer privilégios existentes dentro do próprio grupo. Mais do que adotar uma linguagem inclusiva, trata-se de promover práticas que reflitam compromisso com equidade.
A consolidação de uma comunidade verdadeiramente plural depende da capacidade de transformar princípios em ações. Sem esse movimento, a interseccionalidade permanece restrita ao plano teórico, distante das realidades que pretende alcançar. O desafio, portanto, consiste em ultrapassar a retórica e construir caminhos que integrem, de fato, as múltiplas dimensões da experiência humana.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Nelly Winter
Colunista VSP

Cuiabana de chapa, artista, escritora, publicitária, poetisa, palestrante, mestre de cerimônias e cerimonialista, questionadora de tabus, voluntária em ONG’s, apaixonada por pessoas, fascinada por divas do pop, amante de livros e DRAG QUEEN. O podcast DragPod é apresentado por ela. Nelly Winter foi criada por Thon Silva há 20 anos. E o que era hobby no início, hoje tem o objetivo debater os tabus sociais, com a finalidade de desmistificar rótulos impostos por uma sociedade machista.
Foto: Instituto Inclusão Brasil

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