Julho das Pretas
Eu venho de longe, e não sozinha. Peço bênção a cada mulher preta que me tornou possível
Por Fabiana Conceição*
Em julho, celebramos o Julho das Pretas. No dia 25, homenageamos o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e, no Brasil, também o Dia Nacional de Tereza de Benguela, líder quilombola que enfrentou o sistema escravocrata e comandou o Quilombo do Quariterê com estratégia, coragem e força coletiva.
O Julho das Pretas nasceu para dar visibilidade a essa força histórica e coletiva, um marco político criado por organizações de mulheres negras para lembrar que existimos, resistimos e construímos este país, apesar de todas as estratégias de apagamento.
Enquanto preparava uma palestra sobre essa agenda, pensei nas conquistas que venho vivendo, nos sonhos que realizei e em outros que nem cheguei a sonhar, mas aconteceram. E isso me fez lembrar de tantas mulheres que me ensinaram e me ajudaram a chegar até aqui. Algumas estavam nos livros, outras nas histórias que ouvi por aí, e muitas me ensinaram só por existir, pelo jeito de caminhar, por um gesto no ônibus, por silêncios impostos e outros escolhidos como estratégia.
Minha vó, a mulher da minha vida, me ensinou que resistência não se faz com discursos, mas com o corpo presente todos os dias, acordando cedo, fazendo muito com pouco, cuidando de gente e não permitindo que a vida endurecesse o coração. Com ela, entendi que amor e dureza não se anulam, que sabedoria não precisa de diploma e que toda mulher preta, mesmo sem querer, acaba se tornando abrigo, direção e escudo para quem vem depois.
Com minha mãe, aprendi que carregar o mundo, infelizmente, ainda não é escolha, mas há dignidade em não deixá-lo cair. Não é fraqueza sentir medo, cansaço ou raiva; o mais difícil, muitas vezes, é continuar sendo boa com os outros mesmo quando ninguém pergunta se estamos bem. Dona Ana me ensinou que o cuidado que oferecemos ao mundo também é denúncia, e que nossos silêncios carregam mais respostas do que muitas falas nos espaços de poder.
Aprendi com as mulheres pretas ao meu redor que a ancestralidade não é só memória, é continuidade. Está no que a gente escreve, fala, cozinha, canta, organiza, lidera e transforma.
Quando li Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, eu me vi ali e entendi que nossas histórias não precisam de licença para existir. Basta papel, coragem e fome de futuro.
Com Dona Ruth de Souza, aprendi que talento preto sobrevive mesmo quando a porta se fecha, e que palco também é território de afirmação.
Elza Soares me ensinou que cantar pode ser grito, alívio e protesto ao mesmo tempo, e que viver é desafiar o tempo.
Nina Simone me ensinou que liberdade é não ter medo, e que é preciso levantar-se da mesa quando o amor já não está mais sendo servido.
Dona Ivete Sacramento, a primeira reitora negra de uma universidade pública no Brasil, disse algo que mudou minha vida. Em uma sala pequena do Colégio Estadual Governador Roberto Santos, ela disse que a universidade era um lugar possível, que a gente não tem que ser exceção; foi a primeira vez que pensei nessa possibilidade e ela me trouxe até aqui.
Com Tereza de Benguela, a grande homenageada do mês, aprendi que liderança preta não é só resistência, mas construção de um mundo possível e que existe inteligência política na coletividade e coragem nas estratégias que não cabem nos livros de história.
Julho é das Pretas, mas o que queremos não cabe em um mês e lutamos para que o ano e o século também sejam nossos, por reparação a toda violência que atravessa nossos corpos, pela exclusão que ainda nos empurra para a margem e pelas oportunidades que continuam sendo negadas.
Eu, Fabiana, mulher preta feita de tantas outras, sigo sustentada pelos caminhos que vieram antes, pelos passos que caminharam comigo e pelas vozes que talvez nem saibam o quanto me alcançaram, mas seguem me ajudando a levantar todos os dias.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Fabiana Conceição
Colunista VSP

Baiana, mulher negra, mãe de Janaína e Dandara, Fabiana é pedagoga com especialização em psicologia organizacional e diversidade e inclusão e tem pós em Gestão de Projetos. Pesquisadora e palestrante sobre o tema Racismo e Preconceito, é educadora antirracista. É ainda especialista em desenvolvimento de talentos e diversidade, equidade e inclusão na Talento Incluir.
Imagem: Reprodução da gravura de Teresa de Benguela, do pintor suiço Felix Vallotton

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