Racismo recreativo
O humor como ferramenta de opressão e manutenção do racismo
Por Fabiana Conceição*
Recentemente, um humorista foi condenado a oito anos e três meses de prisão por cometer crimes ao fazer declarações contra negros, idosos, pessoas obesas, pessoas com HIV, homossexuais, indígenas, nordestinos, evangélicos, judeus e pessoas com deficiência.
O fato gerou debates e posicionamentos nas redes sociais, especialmente de quem argumenta que a prisão representa censura e ameaça à liberdade de expressão em uma sociedade democrática.
Quando leio esses posicionamentos, penso que talvez o nosso maior desafio como sociedade seja justamente conhecer a própria história e aprender com ela. Quem viveu ou estudou a ditadura sabe bem que isso não é censura. Se fosse, ele nem teria cometido o crime, porque seus textos teriam sido previamente vetados, revisados ou apagados. A liberdade de expressão é poder dizer o que quiser tanto que ouvimos absurdos diariamente , mas ela não isenta ninguém de arcar com as consequências quando ultrapassa o direito do outro de existir com dignidade.
Nosso país tem o mito de que somos cordiais. E, entrando no contexto de raça, a ideia da cordialidade racial ainda é vendida como um traço nacional. Crescemos rindo de personagens caricatos, sempre negros, sempre ridicularizados. Assistimos a programas humorísticos em que a aparência, o jeito de falar, o corpo e até a sexualidade das pessoas viravam piada. Sempre houve um consenso tácito sobre quem podia ser alvo. Como bem diz o professor Adilson Moreira, esse padrão não é aleatório. Ele é o racismo recreativo.
Racismo recreativo é o uso do humor como ferramenta para expressar e reforçar a dominação racial. Não se trata de piadas inofensivas, mas de representações simbólicas que reforçam estigmas históricos. É uma forma de violência cultural que age com sutileza, sob o pretexto da diversão, mas que produz efeitos profundos na identidade, na autoestima e na posição social das pessoas atingidas. O humor nesse caso não é neutro, porque faz parte de um projeto de poder que, ao rir de alguém já marginalizado na sociedade, não apenas diverte, mas reafirma a hierarquia e mantém o outro no lugar de objeto, estereótipo e piada pronta
O que sustenta o racismo recreativo é a crença de que o riso apaga a intenção e que, sem intenção, não há crime. O problema é que o impacto de uma fala não depende apenas do que se quis dizer, mas do contexto em que ela é proferida, do histórico de opressão que carrega e do grupo social que ela atinge. Dizer a um homem negro que ele parece um macaco, ainda que com um sorriso no rosto, não anula a ofensa. Muito pelo contrário, transforma a violência em espetáculo, em entretenimento.
Isso não é só perverso, minha gente. É crime.
Vi muitos humoristas se defendendo com o argumento de que o humor precisa de liberdade para existir. Mas o que eles não levam em conta é que a liberdade de expressão, como qualquer outra liberdade, convive com limites. E o limite ético do humor está onde ele começa a desumanizar.
As pessoas negras, indígenas, pessoas com deficiência, LGBTQIAPN+ e outros grupos historicamente oprimidos sempre foram os alvos preferenciais das piadas ao longo da nosso história. E isso não é coincidência, mas reflexo de um imaginário construído para reforçar quem pode falar e quem só pode ser falado. O humor sempre foi um instrumento de reafirmação de estereótipos e desigualdades. Enquanto rimos, naturalizamos a exclusão. Enquanto nos divertimos, reforçamos a ideia de que há corpos disponíveis para o deboche, mas não para o reconhecimento.
Nossa, mas o mundo tá chato…
Está mesmo! Porque, se em 2025 ainda precisamos explicar que dor não é piada e que ferida não serve de entretenimento, então o problema não é o humor e sim a insistência em normalizar a violência disfarçada de riso.
Quando um humorista é condenado por crimes contra grupos subrepresentados, não é o humor que está sendo julgado, mas sim o uso político que se faz dele. O riso, quando usado com responsabilidade, pode ser uma ferramenta de crítica, de libertação, de transformação. Mas, quando usado para reforçar opressões, ele é só mais uma forma de manter as coisas como estão: um riso branco, confortável e cúmplice do silêncio que cerca a dor dos outros.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Fabiana Conceição
Colunista VSP

Baiana, mulher negra, mãe de Janaína e Dandara, Fabiana é pedagoga com especialização em psicologia organizacional e diversidade e inclusão e tem pós em Gestão de Projetos. Pesquisadora e palestrante sobre o tema Racismo e Preconceito, é educadora antirracista. É ainda especialista em desenvolvimento de talentos e diversidade, equidade e inclusão na Talento Incluir.
Foto: Léo Lins/Reprodução Instagram

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