A padronização do corpo na comunidade LGBTI+

A padronização do corpo na comunidade LGBTI+
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“Se queremos um futuro onde orgulho não seja condicionado a um número na balança, teremos que praticar um ativismo que também atravesse o espelho”

Por Nelly Winter*

A comunidade LGBTI+ nasceu da insurgência, da recusa em caber em moldes impostos. Lutamos – e ainda lutamos – contra normas que nos dizem como amar, existir e ocupar o mundo. Mas há uma pergunta que precisamos encarar com honestidade incômoda: o que acontece quando a própria comunidade se torna a polícia do corpo?

Embora pregue diversidade, a comunidade LGBTI+ muitas vezes reproduz padrões de beleza rígidos, eurocêntricos, magros, sarados, jovens e higienizados, criando uma hierarquia corporal que exclui quem foge desse ideal. Entre os corpos mais empurrados para as margens estão os de pessoas gordas e, sobretudo, pessoas plus size – uma exclusão que não é sutil, é estrutural.

Nos aplicativos de relacionamento, isso aparece como sentença: “No fats”, “Só gente em forma”, “Se não se cuida, nem tenta”. Nas festas, corpos gordos são invisibilizados pelos enquadramentos das câmeras. Nas redes sociais, a representatividade parece ter limite de peso. E até nas discussões internas, a gordofobia é frequentemente relativizada como “preferência”, ignorando que preferência construída socialmente também é política – e pode ser violenta.

A consequência é cruel: pessoas plus size, que já enfrentam uma sociedade gordofóbica, encontram na própria comunidade um segundo armário – o do corpo. Se a LGBTQI+fobia diz “você não pode existir”, a gordofobia comunitária complementa: “você até pode, mas não aqui, não desejável, não à mostra, não no centro.”

Isso é especialmente paradoxal porque muitos de nós conhecemos a dor da rejeição. Sabemos o que é ser motivo de piada, alvo de desprezo, tema de debate público sobre nossa legitimidade. Ainda assim, quando se trata do corpo gordo, parte da comunidade abandona a empatia e adota a lógica que sempre nos oprimiu: corpos que não performam beleza hegemônica não merecem afeto, palco ou desejo.

A exclusão de pessoas plus size na comunidade LGBTI+ não se resume à estética – ela afeta saúde mental, pertencimento, sexualidade e até acesso a espaços de sociabilidade. Quando um grupo que se reivindica plural falha em acolher a pluralidade mais básica – a do corpo – ele trai sua própria história.

Precisamos romper com essa ficção de que libertação é sinônimo de definição abdominal. Diversidade corporal não é acessório ideológico, é fundamento. Corpos gordos também são corpos queer, dissidentes, políticos, desejantes e revolucionários. Não são um desvio da comunidade – são parte dela.

A verdadeira pergunta não é por que pessoas plus size não se encaixam no padrão. A pergunta urgente é: por que a comunidade LGBTI+ insiste em ter um padrão?

Se queremos um futuro onde orgulho não seja condicionado a um número na balança, teremos que praticar um ativismo que também atravesse o espelho. A luta pela diversidade precisa pesar – literalmente – todos os corpos. Porque enquanto houver corpos excluídos, a sigla será grande, mas a comunidade continuará pequena.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Kenneth Surillo/Pexels

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