Abundância ancestral

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Nosso vestir carrega resistência, linguagem e territorialidade

Por Fabiana Conceição*

Eu fui criada por minha avó, uma mulher solar que sempre gostou de suas roupas com cores vibrantes, alegres e muitas flores, e ela sempre foi minha inspiração quando pensava em meu estilo. Quando entrei para o mercado de trabalho, me chamava a atenção o padrão com que as pessoas se vestiam. Geralmente roupas em tons neutros e até os modelos seguiam um mesmo estilo.

Então, usei a neutralidade estética como senha de acesso porque queria crescer, ser vista e respeitada, e acreditava que esse estilo me daria a segurança que eu não tinha nem financeira nem emocionalmente.

Lembro que uma vez, numa sexta-feira, meu dia preferido da semana, eu estava muito empolgada e já me sentia mais segura no trabalho, então decidi usar um turbante. Uma pessoa ao me ver perguntou se eu estava indo para alguma festa a fantasia. Respondi que não, incrédula. E ela disse que não era de bom tom usar esse tipo de ornamento em um ambiente corporativo. Na hora não consegui reagir, apenas saí do lugar e por muito tempo não usei mais meu turbante.

Meses depois, uma colega transferida para nossa unidade, vinda de uma região em que o sertanejo era muito presente, apareceu na empresa vestida ao estilo de Ana Castela. A mesma pessoa que havia me dito que meu turbante não era adequado elogiou a escolha dela, dizendo que era bonito manter as raízes. O que em mim era visto como excesso, em outra pessoa, com ainda mais adereços, era celebrado como expressão de origem e autenticidade.

Na cultura africana a estética nunca foi apenas enfeite, sempre foi linguagem. Os tecidos, penteados, turbantes, pinturas corporais e até a forma de carregar o corpo expressam pertencimento, espiritualidade, status social e identidade coletiva. Em países como Gana e Nigéria os tecidos guardam narrativas e simbolismos, o Kente traduz histórias em cada cor e padrão e o Ankara atravessa gerações. Máscaras, colares e pulseiras ampliam essa dimensão e nossos cabelos ´sempre foram território de identidade, comunicando fé, ancestralidade e posição na comunidade.

O que o Ocidente muitas vezes chama de exagero é, na verdade, abundância simbólica. Cada cor tem propósito, cada sobreposição de tecidos guarda uma história, cada detalhe é carregado de ancestralidade. Não se trata de moda passageira, mas de um código de identidade que nos lembra quem somos e de onde viemos. Durante a escravidão, quando tudo foi arrancado, os tecidos coloridos, os turbantes e os adornos foram uma das poucas formas de preservar dignidade e expressar resistência. Por isso, até hoje, quando uma mulher preta usa um turbante, não está apenas compondo um look, está reivindicando um espaço histórico de existência e continuidade.

Hoje, poder vestir minhas cores em qualquer lugar sem medo de julgamentos é resistência e também afirmação da minha ancestralidade. É ocupar espaços sem precisar neutralizar quem eu sou, é vestir minha alegria, minha história e meu olhar sobre o mundo sem me submeter ao minimalismo visual considerado aceitável. Isso não significa que toda mulher preta precise seguir um mesmo caminho. Pode escolher a neutralidade ou a abundância estética, desde que seja decisão própria e não imposição. O que importa é que toda forma de expressão, quando nasce de nós, é política, porque afirma autonomia, rompe com padrões de silenciamento e garante o direito de existir em múltiplas formas.

No final a gente quer vestir a vida, porque a vida não é neutra, tem cor, tem brilho e exala intensidade. Ser negra é pele, alma, espiritualidade e postura, e essa vida colorida atravessa nossas roupas, nosso jeito de andar, nosso modo de existir. O que chamam de exagero é só a vida exigindo espaço, é a prova de que não fomos feitas para caber no apagamento.

*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Foto: Imagem gerada por IA

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