Quem tem medo da mulher negra?

Como o estereótipo da negra raivosa impacta no mercado de trabalho
Por Fabiana Conceição*
Desde muito cedo, as mulheres aprenderam que existe um limite bem definido para expressar suas emoções. Nos ensinaram que ser doces, conciliadoras e cuidadosas é o que se espera de nós. Já atitudes de firmeza, quando somos incisivas e diretas, são rapidamente lidas como hostis, inconvenientes ou excessivas. Se falamos um tom acima, estamos desequilibradas. Se falamos baixo, não temos presença. Se discordamos, somos difíceis. E se concordamos demais, falta personalidade.
No mercado de trabalho, essa desigualdade também fica evidente quando mulheres que se posicionam são vistas como difíceis, autoritárias ou mandonas, enquanto homens com o mesmo comportamento são valorizados como líderes. Agora, imagina quando essa mulher enfrenta não só desigualdade de gênero, mas também desigualdade racial. Quando essa mulher que se posiciona é negra? O fator raça adiciona mais uma camada de desigualdade e impõe barreiras que muitas vezes nem sequer são nomeadas.
Dias atrás, conversando com uma amiga, mulher negra em posição de liderança, falávamos sobre como o machismo e o racismo operam no nosso dia a dia profissional. Ela me contou que volta e meia, as pessoas a chamam de “brava”. Inconformada, começou a perguntar às pessoas o que significava ser brava e pediu exemplos de momentos em que teria se comportado dessa forma. Também citou outras colegas que tinham posturas semelhantes e nunca foram taxadas assim. O detalhe importante é que as outras colegas são brancas e não recebem esse rótulo.
Não houve resposta concreta. Não houve exemplos.
Mas eu sei o motivo. Minha amiga sabe. E talvez você também saiba.
Eu como mulher negra, vivi essa realidade inúmeras vezes. Em muitos momentos em que me posicionei, pedi um esclarecimento ou reforcei um ponto, fui chamada para conversas de feedback que, no fundo, eram apenas uma forma sutil de me dizer que eu estava incomodando. Importante dizer que nunca, em nenhum desses momentos, fui desrespeitosa ou elevei meu tom de voz.
Ao mesmo tempo, vi muitos colegas sendo agressivos, mal-educados e vi também, colegas brancas sendo ríspidas, mal-educadas e até agressivas, mas eram chamados e chamadas de assertivas e diretas.
Quando minhas colegas brancas passavam do ponto, ouvi justificativas de que seus comportamentos era porque o mercado é machista e elas precisaram se impor para vencer na carreira.
E de fato é verdade. O machismo impacta todas as mulheres, é uma barreira legítima para nós. Mas, ao olharmos pela lente da interseccionalidade, percebemos que quando uma mulher branca se impõe, ainda há espaço para compreendê-la como vítima de um sistema que a moldou e oprime. Quando uma mulher negra faz o mesmo, ela é um problema. A socióloga Patricia Hill Collins chama isso de imagens de controle. Que são estereótipos criados para manter mulheres negras em determinados lugares e deslegitimar suas ações. O estereótipo da negra raivosa talvez seja um dos mais fortes e recorrentes. Ele nos coloca dentro de uma narrativa em que somos lidas como temperamentais, agressivas e prontas para brigar o tempo todo. Como todo estereótipo, seu propósito é silenciar.
Essas imagens de controle funcionam como ferramentas de poder. A negra raivosa, a mãe sofredora, a negra hipersexualizada todas essas representações são impostas pela sociedade para nos manter sob uma lente distorcida. Se somos lidas como bravas, não somos vistas como competentes. Se somos interpretadas como barraqueiras, nossa argumentação perde valor. Se nos encaixamos no estereótipo da mulher negra forte, esperam que aguentemos tudo sem reclamação.
Quando uma mulher negra se posiciona, é comum o foco sair do que ela está dizendo e se volta para como ela está dizendo. Se aponta uma injustiça, a questão deixa de ser o problema que trouxe e passa a ser a forma como expressou. “O jeito que você falou foi muito agressivo.” “Não precisa dessa energia toda.” “Calma, ninguém está te atacando.” São formas de controle. Um aviso de que devemos nos encaixar em um molde que nos torne inofensivas e aceitáveis.
Mulheres brancas podem ser duras e, ainda assim, encontrar pessoas aliadas que justifiquem seu comportamento. Mulheres negras não têm esse mesmo benefício. Passamos grande parte de nossa vida profissional tentando encontrar um equilíbrio entre sermos firmes o suficiente para sermos levadas a sério, mas não tão firmes a ponto de nos tornarmos um problema.
Mas a verdade é que o problema nunca foi o tom de voz, a escolha das palavras ou o jeito de falar. O problema é quem está falando.
Quando uma mulher negra é vista nestes estereótipos, sua competência é questionada antes mesmo que suas ideias sejam ouvidas. Assim, a estrutura se mantém: silenciosa, eficiente, intacta.
Nomear esse tipo de racismo é um primeiro passo, mas não podemos carregar essa luta sozinhas. A mudança vai acontecer quando quem tem privilégio também se compromete a questionar, intervir e transformar.
Ficar em silêncio não é neutralidade, é cumplicidade. Ser uma pessoa aliada não é apenas concordar, mas agir.
*O texto produzido pelo autor não reflete, necessariamente, a opinião do Portal VSP

Fabiana Conceição
Colunista VSP

Baiana, mulher negra, mãe de Janaína e Dandara, Fabiana é pedagoga com especialização em psicologia organizacional e diversidade e inclusão e tem pós em Gestão de Projetos. Pesquisadora e palestrante sobre o tema Racismo e Preconceito, é educadora antirracista. É ainda especialista em desenvolvimento de talentos e diversidade, equidade e inclusão na Talento Incluir.
Foto: ew.com/article/2016/01/07/scandal

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Mais um texto irretocável e abordando uma pauta tão pertinente. O trecho que diz “não podemos carregar essa luta sozinhas. A mudança vai acontecer quando quem tem privilégio também se compromete a questionar, intervir e transformar.” pra mim traduz a força necessária para transformar essa realidade. Parabéns pelo texto, Fabiana!